MITOS
E LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO
ANDRÉ
LUIZ NAKAMURA
Desde sempre
a humanidade se atormenta com as clássicas indagações
pra as quais não houve e ainda não há respostas
satisfatórias: de onde, por quê e para quê
viemos? Para onde vamos?
Diante dos fenômenos da vida que lhe eram totalmente inexplicáveis,
a criativa imaginação do homem primitivo atribuiu
a autoria e o comando do universo, bem como sua própria
existência nele, a fantásticas criaturas, a entidades
sobrenaturais (a que futuramente se chamariam mitos).
Entre nós, é claro que os primitivos habitantes
das terras que posteriormente se denominariam brasileiras, quais
sejam, os índios, também daquele modo agiram ao
se defrontar com o mesmo drama existencial.
Destarte, a exemplo de outros povos, também eles povoaram
as matas, os rios, as montanhas, o mundo, com entes sobrenaturais,
dando nascimento, assim, aos mitos brasileiros (juntamente com
as duas outras culturas que depois formariam a brasileira).
O chamado pensamento mítico representaria, então,
o estágio infantil da mentalidade humana na sua sempre
ascensional trajetória evolutiva.
Lévi-Strauss, no entanto, em “O Pensamento Selvagem”,
delineou uma “analogia formal” entre o pensamento
mítico e o pensamento científico, argumentando que
aquele seria a “metafórica expressão”
deste. A civilização, desse modo, teria sido edificada
através dos mitos.
Mesmo na atualidade, a despeito de ter a ciência progredido
e elucidado alguma parte dos muitos mistérios da vida que
assombram a humanidade, os mitos continuam a surgir e a renascer
nas reminiscências populares, haja vista que a mencionada
perplexidade que acometia o homem primitivo representava não
só a crise existencial da humanidade diante do mundo, mas
também a do homem diante de si próprio. Essa, aliás,
certamente permanecerá, em maior ou menor grau.
Os segredos da alma humana, os sentimentos, medos, desejos, paixões,
raivas, a luta contra selvagens instintos (o lobisomem que habita
o homem), enfim, tudo aquilo que se encontra no interior da alma
humana, e que a razão não é capaz de explicar,
exterioriza-se e reflete-se nos mitos.
MITO – CONCEITO
Tendo em
vista o que expusemos no tópico anterior, poderíamos
conceituar “mito” como sendo configurações
de entes fantásticos e sobrenaturais produzidas pelo imaginário
popular em virtude da necessidade de se buscar explicação
para a existência do universo e da própria humanidade,
bem como para o que se encontra no interior da alma humana sem
elucidação racional.
A essa motivação não se pode deixar de acrescentar
também o prazer e a necessidade do homem de contar e ouvir
histórias, pois o sonho e a fantasia, com efeito, fazem
parte de seu espírito.
Ressalte-se, ainda, que mito também pode se referir a objetos,
lugares e épocas, tendo ainda o sentido de utopia, segundo
o Aurélio.
Exemplifiquemos parte de tal acepção com o chamado
“Mito da Idade do Ouro”, “o mito da perfeição
do princípio”, presente em quase todas as mitologias,
segundo o qual no início dos tempos, quando da criação
do homem, este vivia usufruindo uma felicidade plena.
O “Mito da Idade do Ouro” é também “futurizado”
de acordo com algumas crenças no “fim dos tempos”.
Um novo mundo, com uma nova humanidade, então, surgirá
(os mortos também voltarão), para viver uma vida
paradisíaca, sem dores, sem sofrimento, sem tristeza, sem
morte.
Vejamos mais alguns conceitos de mito:
Consoante o escólio de Leda Tâmega Ribeiro (“Mito
e Poesia Popular”), “a palavra mythos, que originariamente
significava ‘fábula’, ‘conto’,
‘fala’, ou simplesmente ‘discurso’, passou
a ser usada em oposição a logos e história,
vindo a denotar, então, ‘aquilo que não pode
realmente existir”.
“(...) A palavra grega mythos referia-se fundamentalmente
à atividade de contar e não ao conteúdo daquilo
que é contado”.
O referido termo, prossegue a autora citando Mircea Eliade, “tornou-se
em nossos dias, de certa forma, equívoco, podendo tanto
significar ‘ficção’ ou ‘ilusão’,
como ‘tradição sagrada’, ‘revelação
primordial’ ou ‘modelo exemplar’”
“O mito é narração alegórica,
que em geral procura explicar acontecimentos anteriores aos fatos
históricos” (Veríssimo de Melo, “Folclore
Brasileiro: Rio Grande do Norte”).
“Mito é uma narrativa de um fato que transcende a
natureza humana. Seus personagens são entes sobrenaturais
(...) Nasceu da necessidade do homem de explicar o mundo em que
vivia e de sua própria presença nele (...) narra
as façanhas de entes sobrenaturais, graças aos quais
passou a existir uma realidade ou parte dela, como, por exemplo,
uma ilha, uma espécie animal, vegetal ou mineral, um comportamento
humano, uma instituição, etc.” (Antônio
Henrique Weitzel, “Folclore Literário e Lingüístico”).
“O mito na história da civilização
é um conjunto de lendas (grifamos) e narrações
que referem personagens e acontecimentos anteriores aos fatos
históricos conhecidos e que, por isso mesmo, se entretecem
com episódios maravilhosos e fantásticos”
(Luís da Câmara Cascudo, “Dicionário
do Folclore Brasileiro”).
Vale lembrar que atualmente o termo é também usado
para tratar do fenômeno de popularidade criado em torno
de astros e estrelas do cinema e da televisão, a que alguns
chamam “mitos fabricados”.
MITOS BRASILEIROS
Os mitos
que se configuraram no Brasil, a exemplo do que se deu com o próprio
povo brasileiro, ostentam também a forte marca da miscigenação,
pois são eles provenientes de diversas culturas, sendo
três suas fontes primordiais: os portugueses, os índios
e os negros.
Para a grande maioria dos autores, foi prevalente a influência
do colonizador português, que trouxe consigo mitos de quase
todo o acervo europeu.
Raros, então, os mitos que por aqui se conservaram “originais”
e nenhum o que se manteve imune à influência lusitana.
Em contrapartida, também os Lobisomens e Mulas-sem-cabeça
que os portugueses para cá trouxeram adquiriram nestas
terras cores locais e tropicais, “abrasileirando-se”.
Em segundo posto, na ordem de influência apontada pela maior
parte dos folcloristas, encontram-se os de origem indígena,
os primeiros a serem catalogados pelos portugueses, logo se confundindo
os mitos de ambas as origens.
Os negros escravos, naturalmente, também para cá
vieram acompanhados de seus mitos, os quais tinham grande força
religiosa, requerendo rituais, danças, oferendas, etc.
Os relatos sobre seus entes fantásticos que regem as forças
da natureza certamente influenciaram na configuração
dos nossos mitos.
No entanto, tomando-se a acepção folclórica
do termo, i.e., sem implicações religiosas, são
poucos os mitos de origem africana. Câmara Cascudo realça
que é no ciclo da angústia infantil que mais se
faz notar a influência negra na formação da
mitologia brasileira:
“Rara será a aparição assombrosa que
ainda mais terrível não ficasse através dos
lábios africanos (...) O papel das ‘tias’ e
dos ‘tios’ portugueses aqui lhes coube (...) A nossa
Scheherazade foi a Mãe Preta...” (“Mitos Brasileiros”).
Para Théo Brandão (“Folclore de Alagoas”)
“nossos mitos são restos, reelaborações,
cruzamentos superposições dos mitos dos povos formadores
da etnia brasileira”.
CLASSIFICAÇÃO
Alguns autores
estabeleceram uma classificação para os mitos brasileiros.
O insigne folclorólogo Luís da Câmara Cascudo
distribuiu-os em “primitivos e gerais” e em “secundários
e locais”. Dentre os primeiros estariam o Saci-Pererê,
o Jurupari, o Boitatá, o Lobisomem, a Mula-Sem-Cabeça,
o Curupira, o Anhangá, Botos e Mães d´Água...
Todos os demais que constam do rol que logo apreciaremos seriam
“secundários e locais”.
Cascudo (em “Mitos Brasileiros”) apresenta ainda mais
duas subdivisões, a que denominou “Ciclo da angústia
infantil” (Cuca, Mão-de-Cabelo, Chibamba, etc.) e
“Ciclo dos monstros” (Capelobo, Gorjala, Mapinguari,
Bicho-Homem, Labatut, Pé-de-Garrafa, Quibungo, etc.).
Merecem destaque esses “ciclos”.
Nos da angústia infantil, a exemplo do que se pretendia
com as narrativas de contos de fadas, percebe-se neles um nítido
propósito disciplinar.
Com relação ao ciclo dos monstros, bem a propósito,
o célebre folclorólogo fala sobre o “ataque
inesperado e predatório de gente de fora” e uma conseqüente
reação mental dos índios frente ao inimigo
estrangeiro e invasor, cuja imagem é por aqueles deformada,
transformada em monstro.
Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”),
seguindo Basílio de Magalhães (em “Folclore
no Brasil”), ordenou-os em primários e secundários.
Os mitos primários são: saci, mula-sem-cabeça,
lobisomem, curupira, caipora.
Os secundários, segundo o mesmo autor, compreendem gerais:
boitatá, mãe-do-ouro, minhocão, etc., e regionais:
corpo seco, porca de sete leitões, mão-de-cabelo,
cavalo branco, etc.
Entendemos que os vocábulos “primitivos” e
“primários” foram utilizados pelos referidos
autores com a acepção de “principais”,
de forma a opor-se a “secundários” (usado por
ambos os folcloristas), podendo-se deduzir que seriam os primeiros
os mais conhecidos.
Nesta modesta abordagem do assunto, não estabeleceremos
nenhum tipo de classificação pois, na atualidade,
em vista do recrudescimento dos meios de comunicação,
com inclusão da Internet, essa se torna uma tarefa difícil.
LENDA
Proveniente
do latim legenda, do verbo legere = “ler” (e, por
extensão, “algo digno de ser lido”), era esse
o termo usado para designar as histórias sobre santos que
eram narradas nos refeitórios dos conventos ou em cultos
religiosos com o escopo de se estabelecerem edificantes referenciais
com que se deveriam identificar os ouvintes.
Não quer isso dizer, porém que ensejou o advento
das lendas; outros povos, primitivos, também tinham seus
relatos fantásticos (a que depois se denominou “lenda”)
sobre eventos originalmente verdadeiros, ou considerados como
tais; sobre heróis que podem ou não terem realmente
existido; ou sobre feitos “heroicizados” pela imaginação
popular.
A lenda é também considerada como a “imaginação
da História” tendo em vista que esta, em sua “infância”,
não foi nada além de uma sucessão de lendas
oralmente transmitidas de geração a geração,
com o sempre presente gosto popular pela fantasia.
Com o passar dos tempos, o sentido do vocábulo se foi ampliando,
de maneira a abranger outras formas de narrativa, como veremos.
LENDAS – CLASSIFICAÇÃO E CONCEITO
Costumam
classificá-las em pessoais, locais, episódicas e
etiológicas.
A primeira espécie, a das “pessoais”, subdivide-se
em heróicas (que versam sobre figuras históricas);
hagiográficas ou hagiológicas (sobre santos) e anedóticas
(sobre pessoas pitorescas).
As heróicas são aquelas que enaltecem com as cores
da fantasia os feitos de figuras históricas. São
heróicas, por exemplo, nossas muitas lendas sobre os bandeirantes
cujas andanças, desbravando sertões, cativando gentios,
descobrindo minas, ensejavam e divulgavam muitas lendas.
Merecem destaque as hagiográficas ou hagiológicas.
Inúmeros são os exemplos de lendas brasileiras sobre
santos que deliberadamente teriam dado origem a muitas cidades
e bairros, sendo-lhes os padroeiros. Suas imagens recusavam-se
a sair no local que designaram para seus santuários, como
dizem ter ocorrido na cidade de Nazaré Paulista.
Hélio Damante (“Folclore Brasileiro – São
Paulo”) dá outros exemplos:
“O encontro de imagens, caso do Bom Jesus de Iguape, do
Bom Jesus de Pirapora e de Nossa Senhora da Conceição
Aparecida, mesmo se tratando de fatos historicamente comprovados,
sempre aguçou a imaginação de devotos e deu
origem a um particularizado lendário, enriquecido pela
iconografia dos milagres e ex-votos, sonhos e visões”.
As locais tratam de temas ligados a uma determinada localidade,
versam sobre rios, montanhas, lagos, cavernas, etc. São
também denominadas tópicas e geográficas.
As episódicas dizem respeito a eventos e acontecimentos
de interesse de uma localidade.
As etiológicas, que buscam explicar a origem de plantas,
de animais, se sobrelevam nas fantasiosas narrativas indígenas
sobre a origem da mandioca, do milho, da lua, etc.
Essa classificação, com base na apresentada por
Antônio Henrique Weitzel “Folclore Literário
e Lingüístico”), fornece elementos para alguns
conceitos de “lenda”. Vejamo-los:
“A lenda é uma narrativa em torno de um fato real,
com uma explicação ou interpretação
de uma figura, uma realidade, um acontecimento histórico,
em torno da qual a fantasia cria uma série de coisas irreais
e até mesmo inverossímeis” (Renato Almeida
“Inteligência do Folclore”).
“A lenda é a imaginativa sobre a realidade, realidade
que pode ser o homem, o vegetal, o animal, os elementos da natureza,
os acidentes geográficos, etc. Reveste a vida dos santos,
dos heróis e dos bandidos; explica a razão do que
vê e não compreende; aponta o que acredita ser a
origem das coisas e dos fenômenos” (Maria de Lourdes
Borges Ribeiro, “Folclore”).
No entanto, cumpre-nos acrescentar que o termo “lenda”
não é usado apenas para significar “narrativa
fantasiosa sobre a realidade”. Relatos sobre seres e fatos
inverossímeis são também chamados “lendas”.
Há fantásticas histórias protagonizadas,
por exemplo, por seres imaginários a que consensualmente
se denominou mitos, como o Curupira, o Saci, a Mula-Sem-Cabeça.
Existem, pois, “lendas” acerca de “mitos”.
São também chamadas de “lendas” histórias
sobre tesouros enterrados, sobre fantasmas, almas penadas, e,
bem assim – dentre outras – sobre corpos de “espíritos
puros” (“corpos santos”) que, sepultados, se
mantiveram intactos sob a terra, e que seriam encaminhados em
sigilo ao papa pelo vigário, segundo crença popular,
informa-nos Saul Martins (“Folclore Brasileiro – Minas
Gerais”).
Na seara do folclore, se o vocábulo lenda fosse utilizado
apenas para se referir a histórias fantasiosas sobre santos,
heróis, bandidos, simples seria distingui-lo de “mito”.
No entanto, a amplitude conceitual que se lhe deu, narrativa fantasiosa
sobre a realidade, pode ter sido o ponto de partida para a confusão
de mito com “lenda” (de que a seguir trataremos),
visto que se passou a assim denominar tanto as fantásticas
narrativas indígenas sobre a origem de plantas como aquelas
que versam sobre a criação do mundo, sobre os fenômenos
atmosféricos, etc.
MITO E LENDA – DISTINÇÃO
Considerando-se
a polissemia dessas palavras, ou seja, os muitos sentidos que
adquiriram, em virtude também das próprias definições
que se lhes deram, ambos os vocábulos são freqüentemente
confundidos.
1. A Enciclopédia “Mérito” registra
que “o mito situa-se nos tempos ante-históricos e
representa um ser ou episódios sobrenaturais, enquanto
a ação das lendas decorre no mundo, entre os homens,
não recuando para além da origem dos povos cristãos”.
Observe-se, porém, que renomados folclorólogos brasileiros,
posteriormente, registraram histórias sobre a criação
do mundo e da humanidade, cultivadas oralmente pelos índios
(predecessores dos cristãos), às quais se denominaram
e ainda se denominam “lendas”.
2. Em conformidade com a Enciclopédia Mirador, o que distingue
o mito da lenda é a natureza dos relatos, observando que
o primeiro “fornece o fundamento de toda a vida social e
tem caráter religioso”. (...) “A lenda,’história
falsa’, narra feitos de alguns heróis populares,
explica particularidades anatômicas de certos animais, etc.
ao passo que o mito, ‘história verdadeira’,
se reporta à criação do mundo e dos homens,
à origem da morte, etc”.
Nesse sentido, Antônio Henrique Weitzel (“Folclore
Literário e Lingüístico”), ao falar sobre
a ambivalência do mito em Folclore, apontando, de um lado,
o fato (crença), e do outro, a narrativa (literatura oral)
– que seria a forma explicativa do mito – argumenta
que “esse ato de crença é que irá distinguir
o mito de outras formas narrativas, como a lenda”.
Com o devido respeito, é possível divergir-se dessa
distinção, pois – para exemplificar –
as lendas sobre santos ou mártires, chamadas hagiológicas
ou hagiográficas pelos estudiosos do assunto, também
podem implicar crença nos relatos (e/ou crendice?) por
parte dos narradores. A própria origem do vocábulo,
como vimos, remonta a histórias sobre santos contadas em
convento.
É oportuno lembrar, entrementes, que Théo Brandão
(“Folclore de Alagoas II”), quando defendeu, anteriormente,
a mesma idéia do citado folclorista, dizendo que “fica
implícita a noção de que o mito aquele que
o relata nele acredita inteiramente, enquanto assim não
o considera aquele que o recolhe como tal”, acabou por deixar
à vontade o uso dos controvertidos vocábulos ao
expor sua conclusão:
“Daí que a mesma narrativa possa ser catalogada como
mito, lenda, conto ou acontecimento real, segundo as convicções
do narrador, do coletor ou do divulgador”.
Para o mesmo autor, a melhor definição dos mitos
é a de que “são narrações em
que se procura explicar a origem dos seres vivos e de certos objetos
ou a origem de algum costume”.
Aleixo Leite Filho (“Noções de Folclore”)
preleciona algo similar:
“(...) é uma criatividade da imaginação
popular que tem como principal preocupação descrever
a origem dos seres, dos objetos e dos fatos”.
O problema é que ele í está se referindo
a lenda...
3. Vejamos outros pontos de vista considerando-se mais propriamente
a acepção folclórica dos termos.
Segundo o Prof. Renato Almeida em “Curso de Folclore”
(registra a Profª Palmira M. Degásperi Rodrigues,
em “Mito e Lenda, Implicações Filosóficas”,
anuário do 29º Festival do Folclore), consiste no
fato de que o primeiro é “uma entidade fantástica,
de pura imaginação”, enquanto a segunda “é
uma narrativa fantasiosa sobre um fato real”.
Essa última distinção, data maxima vênia,
também apresenta algumas imprecisões, pois contempla
apenas uma das acepções de “mito” e
“lenda”. O mito também é “narrativa”,
i. e., sua conceituação compreende também
essa característica (diversos folclorista, e os dicionários
inclusive, a registram), e quanto à lenda, esta, como já
dissemos, não significa apenas história fantasiosa
sobre a realidade, visto que existem narrativas fantásticas
sobre seres e fatos também imaginários, a que chamam
“lendas”. Há lendas, por exemplo, sobre o Curupira,
o Lobisome, a Iara, o Saci, etc., enfim, há lendas em torno
dos mitos.
4. Câmara Cascudo, com o peso de sua autoridade no assunto,
pontifica: “Muito confundida com o mito (a lenda) dele se
distancia pela função e confronto. O mito pode ser
um sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central,
com área geográfica mais ampla e sem exigências
de fixação no tempo e no espaço”.
Para o ilustre folclorista Basílio de Magalhães
(“O Folclore no Brasil”) “do mito, - transfiguração
dos seres e fenômenos naturais em corpos inaturais e forças
sobrenaturais, totens e tabus, pelo eu projetivo do homem inculto,
- foi que se geraram as lendas, os contos e as fábulas
da tradição popular. O que caracteriza a lenda é
a apoteose, ligada a proezas heróicas ou a maravilhas supra-sensíveis”.
Tendo em vista o escólio dos dois mestres, do qual se depreende
o estabelecimento de uma espécie de hieraquia entre os
dois fenômenos, na qual o mito ocuparia o alto posto, há
quem o interprete “a contrário senso”, de modo
que lendas também podem vir a tornar-se mito.
Um bom exemplo dessa interpretação extrai-se da
consagrada telenovela “Roque Santeiro”, que foi recentemente
reprisada pela segunda vez, tamanho o seu sucesso.
Numa etapa inicial, pode-se-ia denominar “lendas”
as histórias que se contavam na fictícia cidade
de Asa Branca sobre o mártir que morrera em defesa desta,
lutando contra os bandidos que a saquearam. Paulatinamente, a
reiteração e a progressiva expansão dessa
lenda pelo Brasil, a que se acresceram milagres atribuídos
ao “Roque Santeiro”, consagraram-lhe o status de mito
(era apenas esse o termo que usavam na novela para aludir ao herói).
O ponto central da trama era o fato de estar vivo o protagonista,
o que culminou numa luta entre o Roque Santeiro vivo e o mito,
que os poderosos da cidade, por interesses, queriam preservar
– assim como a respectiva população, mesmo
sem o saber, haja vista que precisa de mitos.
No entanto, ainda nos suscitam dúvidas os elementos distintivos
apontados por Cascudo e Basílio de Magalhães, segundo
os quais dos mitos derivariam as lendas, devendo-se considerar
a maior abrangência dos primeiros em oposição
à relativa “localidade” das últimas.
Qual seria o critério para quantificar o dimensionamento
territorial que a propagação de algum relato fantástico
precisaria atingir para ser chamado “lenda” ou “mito
secundário local” (espécie mencionada por
Câmara Cascudo em “Mitos Brasileiros”)?
O que impediria, por exemplo, qualificar-se como mito a “Moça
de Branco” classificada como lenda por Alceu Maynard Araújo
(“Folclore Nacional”)? Ou como lenda o “Cavalo
Branco” catalogado como mito secundário pelo mesmo
autor?
É válido observar também que a primazia que
se pretendeu atribuir ao mito não se propagou com muita
força, visto que popularmente o termo mais usual é
“lenda”.
Como se pode notar, é de fato penoso traçar uma
nítida demarcação entre os territórios
conceituais do mito e da lenda, tendo em vista que a polissemia
desses termos parece poder mobilizar uma faixa fronteiriça
definitiva que se lhes tentasse traçar, fazendo com que
esta se expandisse, alargando-se ora por um, ora por outro dos
respectivos domínios semânticos de cada um dos indigitados
vocábulos.
Como diria Amadeu Amaral (ao falar da impossibilidade de traçar
linhas exatas entre provérbios e outros conceitos, como
adágios, anexins, etc.), “a substância fluida
escapa por entre as frinchas das frases que a pretendem conter”.
Um relativo consenso se verifica no uso de “mito”
para designar o Curupira, o Saci-Pererê, a Mula-sem-cabeça,
o Lobisomem, entre outros mais conhecidos, e de “lenda”
para os relatos fantasiosos sobre a origem de seres e objetos,
como as plantas (“lenda da mandioca”, “lenda
do guaraná”, e outros exemplos que constam da coletânea
que logo se verá). Não obstante, existem exceções.
O próprio Câmara Cascudo, o grande luminar da Folclorística,
em “Mitos Brasileiros – Cadernos de Folclore”,
coloca “Mães d´água” entre os
mitos primários. Entretanto, em “Dicionário
do Folclore Brasileiro”, no verbete “Lenda”,
usa a expressão “a lenda da Mãe d´água”...
Na mesma clássica obra, e no mesmo tópico, fala
da “lenda do Barba-Ruiva”; noutro (“Barba”),
informa que “um dos mitos mais populares do Piauí
é o Barba Ruiva”.
Na verdade, o que amiúde se vê é o uso de
um termo pelo outro, às vezes indistintamente, como se
quase sinônimos fossem.
No que refere aos folcloristas que se dedicam ao assunto, referindo-se
lateralmente à matéria com alguns exemplos ou mesmo
apresentando um repertório mais amplo, muitos deles costumam
salvar-se empacotando tudo num só volume, no qual pregam
o rótulo “Mitos e Lendas”, para identificar
coletâneas desse jaez.
MITOS E LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO
No estudo do Folclore,
mitos e lendas são parte da chamada “Literatura Oral”,
que compreende também contos, fábulas, poesia, parlendas,
provérvios, frases-feitas, etc.
Apresentamos, a seguir, uma coletânea de mitos e lendas
de diversos pontos do Brasil.
ALAMOA
Belíssima
mulher, loura, misteriosa, olhos neons, que podem ser verdes ou
azuis, cabelos lisos e compridos, vestida numa túnica muito
transparente que chega quase a tocar o chão.
Assim a chamam porque loria é “alamoa” (alemã)
para os habitantes de Fernando de Noronha, onde ela reside, nos
altos picos dessa ilha.
À noite, surge nas praias, às vezes dança,
nua, iluminada pelos raios que coincidem com sua aparição.
Deslumbra, fascina, enche de desejo os desavisados que com ela
se defrontam – e de medo os pescadores que já a conhecem
e dela correm, espavoridos, pois o apaixonado que ao seu namoro
não resiste e se põe a segui-la, nunca mais é
visto.
Dizem que a Alamoa atrai com seu fascínio os que por ela
se apaixonam, guiando-os para os picos da ilha, onde se transforma
numa medonha caveira.
(A ela já se referiram como “lenda da Alamoa”
e como “mito da Alamoa”, cf. “Alamoa”,
Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara
Casculdo.)
ANA
JANSEN
Assombração
de uma mulher deformada pelo fogo que aparece de madrugada nas
ruas de São Luís do Maranhão, conduzindo
velozmente uma carruagem em chamas, puxada por enormes cavalos
sem cabeça.
Conta-se que, quando viva, foi uma perversa mulher que sentia
prazer ao fazer seviciarem seus escravos. Ela mandava arrancar
os dentes e as unhas de crianças, filhos de escravos, que
visse apanhando frutas em seus pomares. Ordenava que açoitassem
cruelmente os escravos, às vezes por nenhum motivo.
Tendo em vista uma das distinções entre mito e lenda,
segundo a qual esta última seria mais localizada –
não obstante a dúvida quanto à extensão
territorial que um ou outra precisa alcançar para ser classificado
como tal ou qual – atrevemo-nos a dizer que se trata de
uma lenda a história de Ana Jansen, pois na bibliografia
consultada dela não encontramos referência; tomamo-lhe
conhecimento por meio de informantes maranhenses por ocasião
do Festival do Folclore de Olímpia/SP, realizado anualmente,
em Agosto.
ANHANGÁ
Mito geral
no Brasil, o Anhangá é criatura assustadora, um
grande veado cujos olhos são lança-chamas. Ele representa
um grande pesadelo para os caçadores, que, quando com ele
se defrontam, ao tentarem baleá-lo, vêem seus tiros
serem desviados em direção a entes queridos e pessoas
amigas.
Sua fúria contra os caçadores se amplia quando as
vítimas são animais lactantes ou filhotes que ainda
precisam ser amamentadas.
Conta uma lenda que um índio perseguia implacavelmente
uma veada que amamentava seu filhotinho, tendo sido este gravemente
ferido por uma certeira flechada, e depois seguro pelo caçador,
que a torturava, atrás de uma árvore, para atrair
a veada com os gritos do filhote.
Caindo na emboscada, o animal é trespassado por uma mortífera
flecha do índio.
No entanto, ao contemplas sua presa, o índio, desesperado,
viu-se vítima de uma ilusão engendrada pelo Anhangá.
Era o corpo de sua mãe.
ARRANCA-LÍNGUA
Macacão
gigante que atacava os gados em Goiás, matando-os a murros
e arrancando-lhes somente a língua, com a qual se alimentava.
Câmara Cascudo informa que a imprensa goiana, carioca e
mineira registraram esse mito em várias matérias
sobre os assombrados depoimentos de fazendeiros.
Regina Lacerda o catalogou como lenda em “Estórias
e Lendas de Goiás e Mato Grosso”.
BARBA RUIVA
Piauiense
dos mais famosos, o Barba Ruiva é um homem encantado, de
barba e cabelos ruivos, alto, viril, muito branco, que faz morada
na Lagoa do Paranaguá, onde teria sido jogado ao nascer,
e salvo por uma mãe d´água, diz a lenda.
À margem da já mencionada lagoa, costuma ser visto
a repousar, quando da água se farta, despertando a curiosidade
das mulheres que lá vão lavar roupa – a cujas
perguntas não responde.
Quando dele se aproximam percebem que, fora da água, sua
barba, unhas e peito estão em brasa.
Correm, então, assustadas, enquanto ele as persegue querendo
abraçá-las e beijá-las.
À vista disso, nenhuma mulher lava roupa sozinha às
margens daquela lagoa.
Algumas gotas de água benta na cabeça do Barba Ruiva
poderiam quebrar seu encanto.
Mas, apesar de ser ele inofensivo, ninguém ainda teve coragem.
(Registrado como mito e como lenda)
BICHO-HOMEM
Outro gigantesco
antropófago, de um olho só, e que também
só tem uma perna, cujo pé tem forma redonda, deixando
pegadas que lembram o fundo de uma garrafa.
Pode derrubar até uma montanha com seus possantes murros
e é capaz de beber um rio inteiro. Vive oculto nas serranias.
Mito corrente, em variantes, em quase todo o Brasil.
Muito se confunde com o chamado Pé-de-Garrafa. Alguns autores,
aliás, registram-nos como sendo manifestações
de uma mesma entidade: “o mítico Bicho-Homem é
também chamado Pé-de-Garrafa” (Câmara
Cascudo, “Dicionário do Folclore Brasileiro”).
Entretanto, alguns relatos sobre o Pé-de-Garrafa (df. p.
47), em que se lhe dão outras características, levam-nos
a defender que sua existência, na imaginação
do povo, se não era, passou a ser independente da do Bicho-Homem.
BOITATÁ
Um dos primeiros
mitos registrados no Brasil, segundo nos informa Câmara
Cascudo, é uma grande serpente de fogo que habita as margens
dos rios, mata animais e lhes devora os olhos, vindo daí
o seu intenso brilho.
Do tupi mboi, cobra, e tatá, fogo: cobra de fogo, o fogo
em forma de cobra.
Há versões de que o Boitatá destrói
com o fogo dos seus olhos, fazendo arder em combustão,
aqueles que incendeiam os campos.
A aparição do Boitatá traz cegueira, loucura
ou a morte. Para escapar de seu ataque, é preciso atirar-lhe
algum objeto de ferro ou, então, ficar quieto, prender
a respiração e fechar os olhos.
Dizem que se transformar nesse monstro é o castigo para
purificar as almas dos amantes compadres que em vida traíam
seus respectivos cônjuges, e daqueles que mantiveram relações
incestuosas.
Explica-nos Theobaldo Miranda dos Santos (em “Lendas e Mitos
do Brasil”) que “o mito do Boitatá parece ter
se originado do fogo-fátuo ou santelmo, pequeno penacho
luminoso, que aparece nos mastros dos navios devido à eletricidade,
ou, à noite, sobre os pântanos e cemitérios,
e que são apenas emanações de fosfatos e
hidrogênios, produtos de decomposição de substâncias
animais”.
Alguns autores, a exemplo de Crispim Mira (em “Terra Catarinense”),
registram uma variante, dentre as inúmeras desse mito geral
no Brasil, segundo a qual o Boitatá é um boi ou
um touro “com patas como a dos gigantes e com um enorme
olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição
de fogo”.
Amadeu Amaral (“Tradições Populares”)
retrata essa variante como exemplificativa do fenômeno que
se convencionou denominar “etimologia popular”, que
designa “as alterações dos vocábulos
por efeito de uma errôneas e imaginosa compreensão
da respectiva origem”.
No caso dessa variante, a palavra “boi” (mboi), segundo
o eminente folclorista, representou o elemento transformador do
aludido mito.
BOTO SEDUTOR
Costumam
dizer que a maior protagonista das lendas sobre a fauna amazonense,
famoso em todo o Brasil, “ele, o Boto”, ao chegar
a noite, transforma-se num belíssimo rapaz, alto, branco,
robusto, bem vestido, mas sempre de chapéu para esconder
o orifício que tem na cabeça, através do
qual respira.
O Boto, quando toma a forma humana, comparece triunfalmente aos
bailes, onde, com as moças ribeirinhas, conversa, bebe,
dança, namora.
Conquistador infalível, adivinha os segredos, os pensamentos
e desejos de suas “vítimas”.
Antes que amanheça, porém, ele se retira furtivamente,
mergulha num rio, e torna-se de novo em boto.
Às vezes é implacavelmente perseguido ou cercado
em emboscadas tramadas por homens enciumados, mas ele nunca se
deixa apanhar pois tem um faro mais possante que o de cães
caçadores e é rápido como um tiro.
Muitas mulheres costumam também a ele atribuir a paternidade
de filhos espúrios e naturais, os denominados “filhos
do Boto” (muitas vezes injustamente).
Noutras palavras, quando moças solteiras das populações
ribeirinhas engravidam, dir-se-á que o filho é do
boto.
Para finalizar, dentre algumas superstições acercado
boto, lembremos esta: o olho seco de um boto, para os índios
é poderoso instrumento de feitiços amorosos, depois
de bem preparado, de acordo com os ritos do pajé-a pajelança,
a feitiçaria amazônica. “Não há
mulher que resista sendo olhada através do olho de um boto”.
(A ele já se referiram classificando-o como lenda e como
mito)
CABEÇA-DE-CUIA
Homem magro,
alto, que habita o rio Parnaíba, no Piauí. O nome
deriva de sua cabeça que lembra o formato de uma cuia.
A cada sete anos, devora uma mulher de nome Maria, e também
meninos que brincam nas águas daquele rio. As mães,
temerosas, proíbem seus filhos de ali nadarem.
Amaldiçoado por sua mãe, a quem muito maltratara,
foi condenado a viver no mencionado rio durante 49 anos. Após
comer sete Marias, retomaria seu estado natural.
CABOCLO-D´ÁGUA
Homem pequeno,
musculoso, sisudo, da cor do cobre, com mãos e pés
de pato, ele habita as águas do Rio São Francisco,
aparecendo também em outras localidades fluviais. Atormenta
os pescadores, vira embarcações, alaga cargas, provoca
ondas, atrapalha pescarias, assombra, mata.
Para afugenta-lo é preciso fincar uma faca no fundo da
canoa, ou então nela desenhar um signo-de-salomão.
(Vale registrar aqui a figura do CAVALO-DO-RIO, cavalo encantado
que também habitaria o Rio São Francisco exercendo
efetivamente o mesmo papel do Caboclo-d´água.)
CAIPORA
“É
o Curupira tendo os pés normais. De caá, mato, e
porá, habitante, morador”, segundo Câmara Cascudo.
Diz-se que é um caboclinho coberto de pêlos que anda
sempre montado num porco-do-mato, protetor dos animais e inimigo
dos caçadores (descrição mais comum).
As inúmeras versões sobre o Caipora possibilitam
que se apresentem ele e o Curupira (sempre associados e confundidos)
como manifestações transformadas de uma mesma entidade,
ao mesmo tempo que se admite a coexistência de ambos.
Ruth Guimarães, por exemplo, em “Quatro Histórias
do Curupira”, acrescente um parêntesis a esse título:
“(Ou Caipora ou Caapora, o Pai do Mato)”.
Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”),
diz que o Curupira e o Caipora “constituem a mesma personificação
do gênio das florestas.”.
Pessoalmente, acreditamos que quando não se trata de simples
diversidade nominal, alguns mitos – se não tinham
– passaram a adquirir identidade própria e personalidades
distintas.
No presente caso, embora aparentemente se trate de simples diferença
de nome, a figura do Caipora tal como aqui descrita já
se criou efetivamente no imaginário popular, desvinculada
da do Curupira.
CANHAMBORA
Homem negro, grandalhão,
feio, com cabelos compridos até os pés. Às
vezes é citado como tendo, ao mesmo tempo, forma humana
e animal, metade cavalo e metade homem.
Ele é detentor de poderes capazes de ressuscitar os animais
mortos pelos homens brancos, a quem persegue e agride.
Diz o povo que o Canhambora é assombração
de escravos mortos a pancadas a mando de seus senhores, aos quais,
posteriormente, volta para assombrar.
Mais conhecido em Minas Gerais e em São Paulo.
CAPELOBO
Criatura
fantástica, com corpo de homem, cabeça de tamanduá
ou de anta, é pés redondos.
Cães e gatos recém-nascidos são seu alimento
principal. Mas ele também ataca humanos, “chupando-lhes
o miolo”, ou seja, sorvendo-lhe a massa cefálica.
O ponto vulnerável desse monstro é o seu umbigo,
através do qual pode ser abatido.
Ìndios muito velhos transformar-se-iam nesse monstro a
que costumam chamar de Lobisomem dos índios.
Popular no Maranhão e na região do Araguaia.
CAVALO BRANCO
É
um fogoso cavalo branco que em noites enluaradas é visto
a pastar as relvas marginais do Valo Branco, em Iguape.
As mães sempre advertem suas filhas para não passarem
pelas relvas marginais do Valo Grande porque o Cavalo Branco,
ao ver uma moça virgem, faz com que ela caia naquelas águas
e depois desaparece com ela.
Quando novamente há lua cheia ele volta para buscar outra
moça para viver com ele no fundo do Valo Branco.
CAVALO DAS ALMAS
Segundo a
Profª Palmira M. Degásperi Rodrigues (em “Mito,
Folclore e Filosofia”), “é um animal miraculoso,
que percorre as estradas à procura dos mortos recentes,
que o esperam nos moirões das porteiras. As almas vão
engarupadas nesse cavalo”.
CHIBAMBA
De origem
africana, e conhecido em São Paulo e Minas Gerais, é
um negro velho que se veste com folhas de bananeira, ronca como
um porco e está sempre a dançar, em ritmo compassado.
Ele amedronta crianças choronas:
“Olha esse choro, que a Chibamba vem te pegar; ele papa
criança”.
Acredita-se que ele foi um velho escravo que morreu no tronco,
de tanto chicotada.
Informa-nos Rossini Tavares de Lima que ao Chibamba também
se atribuía a fama de suprimir a dor dos escravos açoitados,
atraindo-a toda para si quando o invocaram.
CHUPA-CABRAS
É
relevante registrarmos esse, haja vista sua atualidade. “Novo
ser mitológico”, segundo Hitochi Nomura.
O Chupa-cabras teria aparecido nas áreas rurais de municípios
vizinhos à cidade de Campinas, por volta de 1997. Os habitantes
da mencionada região atribuíram súbitas e
misteriosas mortes de ovelhas e bois a uma estranha criatura notívaga.
O jornalista Paulo San Martin, na edição de 8 de
junho de 1997 do jornal A Tribuna, de Campinas, relata na matéria
intitulada “Chupa-cabras: agora ele se tornou histeria coletiva”
que as marcas deixadas pelo bicho não se confundem com
a de nenhum predador conhecido, não encontrando o seu ataque
referência na zoologia e na biologia. “Praticamente
todo o sangue é drenado e as feridas são inconfundíveis,
como se tivessem sido feitas por garras longas e afiadas, semelhantes
a navalhas. Em alguns casos são retirados, com precisão
cirúrgica, órgãos e glândulas nobres”.
A história foi, na época, muito divulgada pelos
meios de comunicação.
Uma babalorixá campinense, que afirma tê-lo visto,
o descreve como uma criatura peluda apenas da cintura para cima,
com poucos pelos nas pernas, e com focinho semelhante ao de um
lobo.
COBRA
GRANDE
Réptil
repugnante que atemoriza o homem desde sempre, na ficção
e na vida real, a cobra não poderia deixar de inspirar
no Brasil esse monstro amazônico: A “Cobra Grande”,
também chamada ~Boiúna~.
Gigantesca, de olhos que semelham enormes faróis, ela faz
naufragar até mesmo grandes embarcações,
devorando, após, a tripulação e os passageiros.
Na capital paraense, informa-nos Walcyr Monteiro, existe a crença
de que essa cidade foi fundada sobre a casa de uma enorme cobra:
“Se a Cobra Grande se mexe, Belém estremece”.
“Se a Cobra Grande sair de seu lugar, Belém vai se
afundar”(“Visagens e Assombrações de
Belém”).
COBRA-JABUTI
Catalogada
como lenda por Domingos Vieira Filho (“Folclore Brasileiro-Maranhão”)
é um cágado que depois de tomado como bicho de estimação
revela-se um monstro de cujos cascos saem horripilantes cabeças
de cobras.
COBRA NORATO
Engravidada
pela Cobra Grande, uma índia deu ä luz dois bebês
encantados, que não tinham forma humana. Atirou-os no rio,
a conselho do pajé.
Eram Cobra Norato (ou Honorato) e Maria Caninana. Esta era má,
virara embarcações, matava náufragos e animais.
Norato era bondoso e sempre procurava interceptar as maldades
da irmã.
Certa feita, num duelo para salvar uma vítima da Maria
Caninana, acabou matando esta última.
Assim, graças ä sua bondade, Norato adquiriu o dom
de poder desencantar-se durante à noite, tornando-se homem
bonito, simpático e elegante.
Nas ocasiões de festa nos povoados ribeirinhos, Norato
deixava seu couro de serpente e ia bailar com as moças.
Ao amanhecer, porém, retomava a forma de serpente.
Para quebrar definitivamente o encanto era preciso que se dessem
pancadas com ferro virgem na cabeça da cobra, derramando-se-lhe,
após, a boca, três gotas de leite materno.
Mas, ao ver a cobra, todos perdiam a coragem, até que um
soldado impávido, com quem Norato fizera amizade, conseguiu
quebrar esse encanto, libertando o amigo.
(Do norte do Brasil, especialmente do Pará).
CORPO SECO
Criatura
perversa que em vida semeou o mal cometendo toda sorte de crueldades,
inclusive a de fustigar a própria mãe.
Ao morrer, sua alma foi recusada tanto por Deus como pelo Diabo,
e seu corpo nem a terra o quis, ficando este, depois de reunido
a sua alma, a putrefazer-se insepulto.
O Corpo Seco é corpo e alma penados – de quem nem
os insetos se aproximam – que perambulam, vagabundos, pelos
cemitérios e pelas ruas, assombrando os viventes.
CUCA
Mulher velha
e feia, espécie de bruxa, tal qual é está
descrita nos contos de fadas.
Bicho-papão feminino mencionado para se assustar crianças.
“Velha feia e esfarrapada que vive a intrigar os casais,
despertando-lhes o “ciúme”, sempre acompanhada
de “sapos, lacraus, cobras e aranhas venenosas”, na
descrição da folclorista Gilda Helena em “Lendas
da Nossa Terra”.
É muito citada em acalantos:
“Dorme, nenê, que a Cuca vem pegar, papai foi na roça,
mamãe foi trabalhar. Bicho-papão, sai de cima do
telhado, deixa o nenê dormir sossegado”.
É válido lembrar que a Cuca foi muito popularizada
na série de televisão “Sítio do Pica-Pau
Amarelo”, baseada na obra de monteiro lobato, na qual, aliás,
se verifica a citação de muitos dos nossos mitos,
a exemplo do Saci, do Boitatá, da Mula-sem-cabeça,
do Lobisomem, etc. Na aludida série, tal como nas ilustrações
de livros do consagrado autor, a Cuca era apresentada como uma
jacaroa bípede e falante, feiticeira poderosa, cercada
de bichos peçonhentos. Dada a fora da propagação
televisiva, quando se fala em Cuca, a imagem que se nos afigura
é a da jacaroa da referida série.
CURAGANGA
Tal qual
ocorre com o Lobisomem, a Curaganga ou Cumanganga, é no
que se torna a sétima filha de um casal. É uma errante
cabeça de fogo, em forma de bola.
Nas horas mortas, a cabeça da portadora desse mal separa-se-lhe
do corpo e sai em chamas a vagar pelas matas. Apavora os que a
encontram. Às vezes ataca a dentadas.
É chamada Curacanga, no Maranhão, e Cumacanga, no
Pará.
Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”)
nos informa que para evitar esse horrível fadário
“’e tomar a mãe a filha mais velha para madrinha
da ultimogênita.
CURUPIRA
De procedência
tupi-guarani (de curu, curruptela de curumim + pira, corpo = corpo
de menino), o Curupira tem ligações originárias
com o homem primitivo e atributos heróicos na proteção
da fauna e da flora.
Ele tem como principal característica a direção
contrária dos pés em relação ao próprio
corpo, o que constitui um artifício natural para despistar
os caçadores, colocando-nos numa perseguição
a falsos rastros.
Possui extraordinários poderes e é implacável
com os caçadores que matam pelo puro prazer de faze-lo;
quando estes não acabam mortos, ficam loucos.
Dizem também que quando os caçadores não
acertam seu alvo ou quando se perdem na mata, é certo que
foi uma intervenção do Curupira.
É descrito de várias maneiras: como um curumim,
um duende, um anão, um caboclinho, dentes verdes, cabelos
vermelhos, mas sempre com os pés contrário (calcanhares
para a frente).
Existem, no entanto, variantes que divergem dessas idéias,
em que o Curupira é um ser medonho e perverso. “O
demônio das Florestas”. Mas sobrelevam as lendas que
fazem dele o protetor das matas.
FAMALIÁ
Originário
da tradição européia de fabricar uma espécie
de demônio caseiro, “familiar” (acabou famaliá
para os sertanejos) é um pequenino diabinho guardado dentro
de uma garrafa. Para cria-lo é preciso chocar na axila
esquerda, durante toda a quaresma, um ovo de galo (!), que, segundo
o povo, com muita persistência pode ser encontrado (às
vezes leva anos). Desse ovo nascerá, ao final da quarentena,
um diabinho que atenderá a todos os pedidos de quem o produziu.
Não se pode, todavia, dar esmolas aos pobres com dinheiro
vindo do Famaliá.
Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios
obtidos, pois criar um Famaliá.
Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios
obtidos, pois criar um Famaliá não deixa de ser
um pacto com o Diabo.
Já registrado como mito e como lenda, essa história
muito se popularizou quando da exibição, e da reprise,
da telenovela global “Paraíso”, em que um dos
protagonistas, - dizia a população da fictícia
cidade de Paraíso – tinha um diabinho guardado em
uma garrafa, produzindo tal como aqui dissemos.
GORJALA
Negro gigantesco,
com um único e grande olho, que habita as serras cearenses.
Implacável perseguidor dos humanos, coloca-os sob o braço,
quando os captura, devorando-os a dentadas.
GRALHA AZUL
Para o povo
paranaense a gralha azul é a responsável pelo agrupado
reflorestamento de pinheiros, tendo-se em vista a estranheza que
causava o fato de estes aparecerem em grupos, em pontos afastados,
sem que o homem os plantasse.
Diz o povo que essa ave encontrada nos planaltos do Paraná
se alimenta de sementes dos pinheiros, e que, precavida, enterra-os,
em pontos diversos e em considerável quantidade, para posteriormente
saciar sua fome. Como nem todos os pinhões enterrados se
consomem, estes germinam e fazem surgir os amplos pinhais agrupados.
Assim se explicam as grandes florestas só de pinheiros.
Por isso, as armas dos caçadores negam fogo, ou, pior,
os tiros saem pela culatra, se a ave contra a qual miram é
a gralha azul.
Lenda paranaense.
IARA
Outra celebridade
nacional, a Iara é apresentada como uma esplêndida
sereia das águas amazônicas (mulher cujo corpo, da
cintura para baixo é uma cauda de peixe) linda, de pele
alva, olhos verdes e cabelos cor de ouro. Seu canto, de uma encantadora
voz, enfeitiça e atrai índios e pescadores enamorados
que, sem a menor possibilidade de lhe resistirem, mergulham nos
rios e são por ela arrastados para o fundo das águas.
Nem seus corpos são encontrados.
Deve-se fechar os olhos e tapar os ouvidos assim que se notar
a presença da Iara nos rios e lagos. Um talismã
feito com escama de boto vermelho também pode livrar seu
portador da sedução da Iara.
No entanto, nem toda as narrativas sobre a Iara retratam-na dessa
forma. Em algumas, há finais felizes, como essa registrada
por Theobaldo Miranda dos Santos em “Lendas e Mitos do Brasil”,
na qual o índio Jaraguari desaparecera depois de mergulhar
num rio encantado pela linda sereia. Foi ele posteriormente visto
abraçado com ela a namorar.
“Tia Regina”, em “Histórias e Lendas
do Brasil”, conta uma versão semelhante, na qual
a Iara vive um forte romance com o índio Jaraguari e acaba
por leva-lo para viver com ela em seus palácios subaquáticos.
Seus poderes sobrenaturais mantê-lo-iam vivo debaixo d’água.
Outras lendas falam de índios que com a Iara mantinham
relacionamentos amorosos, a exemplo de Inaiê:
“Diziam-no manorado da Iara, pois desprezava as belas cunhantãs,
que lhe ofereciam seu amor” (Gilda Helena em “Lendas
da Nossa Terra”).
Luiz Caldas Tibiriçá, em “Contos e Lendas
Brasileiras”, narra até um casamento da Mãe
D’Água com um índio no conto “O Marido
da Mãe D’Água”.
Domingos Vieira Filho, em “Folclore do Maranhão”,
ao falar da lenda da Praio do Olho-d’água, cujas
nascentes de água teriam se originado das lágrimas
de uma índia que perdera o seu amor para a linda sereia,
relata:
“Sucede que pelo mesmo índio se apaixonara a mãe-d’água.
Um belo dia, a iara traiçoeira empolga o rapaz e o leva
para o fundo das águas, deixando o cunhatã alucinada
de dor”.
Pescadores, que garantem que ela existe, costumam contar que já
houve casos de se fisgarem chumaços de cabelos louros com
mais de um metro de comprimento.
Obs: A Iara ou Uiara é também comumente
chamada “Mãe d’Água”, mas preferimos
a denominação Iara, tendo em vista que quando se
fala em “Mãe d’Água”, nas inúmeras
lendas, há outros aspectos além da sensualidade
e da sedução (as grandes marcas desse mito), enquanto
que tais características representam o cerne das descrições
narrativas se o nome mencionado for Iara
.
JOÃO GALAFOICE
Semelhante
ao Papa-Figo, é um preto velho. Ele ronda as residências
à procura de crianças que se encontram fora de suas
casas pra leva-las embora consigo.
Alfredo Brandão (“Os Negros na História de
Alagoas” ) informa que a lenda do João Galafuz (veja
abaixo), em Alagoas, foi alterada na história de João
Galafoice, esse “nego véio”raptor de crianças.
JOÃO GALAFUZ
Duende que
habita as águas dos mares e se manifesta como um facho
luminoso e colorido que rutila sobre as ondas.
Os pescadores acreditam que é o espírito de um caboclo
que morreu sem ser batizado.
De Pernambuco e Sergipe.
LABATUT
Homenzarrão
monstruoso, de pés redondos, conhecido nos Estados do Ceará
e Rio Grande do Norte. Tem pés redondos, longos e revoltos
cabelos, só um olho na testa, mãos compridas, corpo
cabeludo como o do porco-espinho, dentes como as presas de elefante.
Devora crianças.
Conta-se que se transformou nesse monstro um sanguinário
general francês que, no Ceará, promoveu uma verdadeira
carnificina quando da repressão à insurreição
de Joaquim Pinto Madeira.
LOIRA DO BANHEIRO
O horror
das crianças nas escolas era uma mulher que, diziam, costumava
aparecer nos banheiros. Era loira, cabelos compridos, com as cores
próprias dos defuntos e com algodões em suas narinas:
um cadáver ambulante, distinguindo-se o aspecto deste apenas
pelo fato de escorrer sangue de seus lábios.
O encontro de pedaços de algodão no chão
do banheiro, sujos de sangue, era sinal de que a “Loira”
estivera por ali. O medo de encontrá-la era tanto que as
crianças não iam ao banheiro desacompanhadas.
Quem conta sobre a “Loira”diz que ela era uma jovem
que foi violentada e morta num banheiro de uma escola pública.
(Lenda?)
LOBISOMEM
Meio bicho,
meio humano, o Lobisomem é mito universal que protagoniza
muitas narrativas populares desde a Antiguidade, trazido às
terras brasileiras pelos europeus, que morriam de medo dos lobos.
O lobisomem abrasileirado pode ser o sétimo filho homem
de um casal; o que nasceu depois de sete filhas; o que não
foi batizado; o filho de comadre e compadre, padrinho e afilhada,
ou de união incestuosa.
Enquanto homem é sempre magro, pálido, que nunca
adquire aspecto de pessoa saudável.
A transformação acontece nas noites de lua cheia
e nas noites de quinta para sexta-feira: seu corpo começa
a se cobrir de pêlos espessos; seu semblante toma a forma
do de um morcego; suas orelhas crescem; as mãos se tornam
garras; corre com os joelhos e cotovelos, que, pela manhã,
após a transformação, se vêem feridos
e ensangüentados.
Ao metamorfosear-se, sai em busca de sangue. Suas vítimas,
se viverem, podem contagiar-se dessa maldição.
O lobisomem é morto através de uma bala de prata.
O encanto do monstro, por sua vez, pode ser desfeito por meio
de algum ferimento que lhe arranque sangue, mas o autor do ferimento
que evite se sujar com o sangue; senão se contagiará
da triste sina.
Segundo Oliveira Martins (em “Sistema dos Mitos”)
“os sacerdotes do Sorano Sabino, nos bosques da Itália
primitiva, vestiam-se com as peles do lobo, animal do deus; a
imagem confunde-se com o objeto da imaginação infantil,
o sacerdote com o deus, a profissão com o fado. Por ventura
o mito nasceu do rito”.
MÃE-DO-OURO
Senhora das
minas, a Mãe-do-Ouro é um mito multiforme: no Paraná,
é uma mulher sem cabeça; “no Rio Grande do
Sul é informe, agindo com trovões, fogo, vento,
dando o rumo da mudança (...) a Mãe-do-Ouro passeia
luminosa, pelos ares, mas vive debaixo d’água, num
palácio” (Câmara Cascudo, em “Mitos Brasileiros”);
formosa mulher, de pele branca como a neve e com uma linda cabeleira
cor de fogo, segundo Ruth Guimarães, em “Lendas e
Fábulas do Brasil”; “fada formosíssima,
filha do sol e irmã da aurora” (Luiz Caldas Tibirçá,
“Folclore – Contos e Lendas Brasileiras”); em
São Paulo é descrita como uma grande bola de fogo
de ouro que atravessa o céu; onde ela cair, há ouro
(Alceu Maynard Araújo, em “Folclore Nacional”).
“Mito ígneo, informe, pertence ao número dos
fenômenos metereológicos, confundindo com a estrela
cadente (...)esconjurada e tida, num só tempo, como capaz
de satisfazer votos formulados durante sua trajetória cintilante”(Câmara
Cascudo, op. Cit.).
De acordo com o consagrado autor, esse mito também infiltrou-se
no ciclo das Mães-d’Água, assimilando-lhe
o poder sensual: “os homens deixam a família e amigos,
arrastados pela Mãe-do-Ouro”(talqualmente as perigosas
sedutoras Iara e Alamoa).
Há muitas lendas sobre a Mãe-do-Ouro, uma das mais
conhecidas fala de sua intervenção para ajudar um
escravo a encontrar ouro para entregar ao seu senhor, homem mau
e ganancioso, a fim de assim evitar duro castigo. A Mãe-do-Ouro,
no entanto, lhe impôs a condição de não
revelar a ninguém o lugar onde encontrou ouro. O Fazendeiro
torturava-o no tronco para lhe arrancar o segredo, até
que a Mãe-do-Ouro permitiu ao escravo que o revelasse.
O fazendeiro, fascinado diante de tanta riqueza, começou
ele próprio a cavar aquela vastidão de ouro. Tanto
cavou que morreu soterrado.
MANI (A LENDA DA MANDIOCA)
Numa tribo
indígena, uma mulher deu à luz uma menina de pele
muito alva. Seu marido, desconfiado e com raiva, queria matar
a ambas. O feiticeiro da tribo, no entanto, interveio, e disse
ao índio que a mulher era inocente, o que seria muito castigo
se tentasse qualquer coisa contra as duas.
A criança, a que deram o nome Mani, cresceu, linda, inteligente,
querida por todos na tribo. Mas ela não viveu muito tempo.
Seus pais a sepultaram dentro de sua própria maloca e a
regavam todos os dias com suas lágrimas.
No local, nasceu uma planta que, descascada, era branca como a
pele de Mani. Os índios julgaram ter sido um milagre de
Tupã (deus dos índios), pois a planta revelou-se
saboroso e nutritivo alimento, e de suas raízes se vez
um vinho delicioso.
Deram-lhe, então, o nome “mandioca” ou “manioca”,
que significa “corpo de mani”.
MÃO-DE-CABELO
Fantasma
que assombra, em Minas Gerais e em São Paulo, as crianças
que uniram na cama. Tem forma humana, envolta num lençol
branco. Suas mãos são feixes de cabelos louros,
que passa pelo órgão sexual das crianças
que urinaram enquanto dormiam, acordando-as, ameaçando
mutilá-lo. É comum a advertência de que “se
mijar na cama, a Mão-de-cabelo vem te pegar”.
Há uma variante, bem menos conhecida, apesar de registrada
por Alceu Maynard Araújo (“Folclore Nacional”,
vol. 1): “Quando não se consegue dormir, uma velha
magra, alta, vestida de branco, cujos dedos são macios
como cabelo, vem passar as mãos no rosto para que se concilie
o sono”.
Prevalece, no entanto, o propósito disciplinador, visto
que a versão assombrosa é, de longe, a mais conhecida.
Acrescente-se, ainda, que esse mito foi mencionado por Gilberto
Freyre no Clássico “Casa Grande e Senzala”.
MÃO-PELADA
É
um fantástico animal que espalha o medo nas matas e florestas
do Estado de Minas Gerais.
É uma espécie de um lobo avermelhado, com a altura
de um bezerro novo, de cujos olhos sai uma luz parecendo um fogo
azulado. Uma de suas patas dianteiras é deformada e “pelada”.
MÃOZINHA-PRETA
Assombração
corrente no Sudeste Brasileiro, conhecida também por “Mãozinha-de-Justiça”,
trata-se de uma mão negra, pequena, solta pelo ar, que
efetua os trabalhos domésticos com assombrosa velocidade
e perfeição.
Mas, a Mãozinha-Preta também é capaz de bater
e castigar, se necessário, concluindo, porém, a
tarefa quando lhe dizem “Chega, Mãozinha de Justiça”.
De acordo com o preclaro folclorólogo Câmara Cascudo,
“como a mão é negra, não castigava
nem atormentava os escravos. Daí sua popularidade entre
eles”.
MAPINGUARI
É um macaco grande, muito peludo, com uma bocarra verticalizada,
que vai do nariz ao estômago, num medonho rasco que ostenta
lábios vermelhecidos de sangue, por onde engole cabeças
humanas (só come a cabeça). Ele atrai suas vítimas
por meio de seus gritos, que parecem humanos.
Os pés do Mapinguari são como os de burro, e sua
pele é semelhante ao casco de jacaré.
Sempre faminto, assombra o Amazonas, o Acre e o Pará. Até
os mais valentes guerreiros morrem de medo do Mapinguari.
É também vulnerável em seu umbigo.
MATINTA
PERERA
Uma velha feia, assombrosa,
toda vestida de negro, cujo rosto é ocultado por uma cabeleira
negra e revolta, que anda acompanhada de um pássaro agourento.
Existe também a versão da Matinta Perera com asas,
capaz de voar, e que se transforma nesse pássaro, chamado
“rasga-mortalha”. O assobio estridente dessa ave assusta
as crianças e não deixa ninguém dormir.
Mulheres idosas da região amazônica teriam a sina
de se tornar essa criatura.
Quando está prestes a morrer, ela pergunta: “Quem
quer? Quem quer? Quem quer?
Quem responder, acreditando tratar-se de algo valioso, transformar-se-á
em Matinta Perera.
Walcyr Monteiro, em “Visagens e Assombrações
de Belém”, explica que para “prender”
a Matinta Perera é preciso enterrar uma tesoura virgem,
aberta, colocar-lhe no meio uma chave e por cima desta um terço
e rezar algumas orações. Assim ela fica presa ao
local.
MENINO DOURADO
Menino loiro
que em noites enluaradas aparece no Rio São Francisco,
emergindo desse rio e mergulhando em suas águas, sucessivamente,
montado nas costas de um enorme e mágico peixe dourado,
que o teria salvo do afogamento e se encarregado de sua criação.
MOÇA DE BRANCO
Moça vestida
de branco que à noite aparecia pedindo carona aos caminhoneiros
na antiga estrada Rio-São Paulo.
Os motoristas de caminhão, sempre solícitos com
mulheres, estacionavam o veículo e abriam a porta para
o ingresso da bela jovem.
A viagem prosseguia. A moça, retraída, estranha,
sombria, calada; limitava-se a responder com monossílabos
ao que lhe perguntavam.
Entretanto, algum tempo depois, os motoristas se arrepiavam de
pavor ao notares que a moça havia simplesmente desaparecido.
Contavam os caminhoneiros que ela fora morta atropelada por um
caminhão ao dirigir-se à igreja no dia de seu casamento.
Lenda paulista, segundo Alceu Maynard Araújo (op. Cit.).
MULA-SEM-CABEÇA
É
uma enorme mula, acéfala como diz o próprio nome,
que solta fogo pelo pescoço.
O estrondoso galopar da Mula-sem-cabeça faz tremer o chão,
ouvindo-se de longe seu mórbido e estridente relincho.
Seus possantes coices que cortam como navalha ferem mortalmente
os homens e animais que cruzam seu caminho. Pela madrugada, volta
à forma humana, suja, desgrenhada, toda machucada.
Quem defrontar com a Mula-sem-cabeça deve esconder as unha,
pois estas têm para o monstro grande brilho, atraindo-o.
A mais tradicional das versões sobre esse mito nacionalmente
conhecido conta que a Mula-sem-cabeça é aquilo em
que se transformam, como punição, as amantes de
padres católicos, Estes, para evitar que o seu amor sofra
essa triste sina devem amaldiçoa-lo sete vezes antes de
celebrar a missa. Já o desencantamento da Mula-sem-cabeça,
a exemplo do Lobisomem, requer um ferimento que lhe tire sangue.
O encanto também pode ser desfeito se lhe for tirado o
freio de ferro que traz no pescoço.
Outras há, entretanto, que dizem ter sido o costume de
passear de madrugada pelo cemitério. Esse estranho hábito
despertou a curiosidade do rei, que numa ocasião a seguiu
e a flagrou comendo o cadáver de uma criança que
havia morrido na noite anterior. Vendo-se descoberta, transformou-se
naquele bicho (Theobaldo Miranda dos Santos, “Lendas e Mitos
do Brasil”).
Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”)
acrescenta outras causas para a malsinada transformação:
as moças namorarem na Sexta-feira santa; moças solteiras
terem relação sexual antes do casamento.
O mesmo autor pontifica que a versão mais tradicional,
no passado, “era uma forma de proibição, de
sanção que se inventou para que as mulheres não
‘tentassem’ os padres”, considerando interessante
que “esse castigo é só para a mulher”.
O padre “representa o sagrado, ela , a tentação,
o demônio”.
Entretanto, é oportuno mencionar que o Prof. José
Sant´anna (criador do Festival do Folclore”, a exemplo
de Câmara Cascudo (“Dicionário do Folclore
Brasileiro”), registra a figura do CAVALO-SEM-CABEÇA
(São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais) que representaria
a sanção contra o padre, sendo “uma réplica
à mula-sem-cabeça”, diferenciando-se desta
“pela morfologia do corpo”.
Como se pode constatar, o problema, na realidade, não eram
só as mulheres, tanto que foi preciso que criassem outra
fantástica figura.
NEGRINHO DO PASTOREIO
Um escravo,
ainda menino, sem pais, sem padrinhos, que se dizia afilhado de
Nossa Senhora, e a quem chamavam Negrinho, era encarregado de
pastorear o rebanho de um cruel estancieiro, seu senhor.
Numa noite em que estava a exercer esse mister, com medo do som
das corujas, acabou adormecendo.
O filho do malvado senhor, tão perverso como o pai, fez
com que os cavalos escapassem, pondo a culpa no Negrinho.
Depois de ter mandado que seus feitores açoitassem o Negrinho,
o senhor ordenou a este que no escuro da noite reunisse os cavalos.
Nossa Senhora, então, atendendo ao pedido de ajuda de seu
afilhado, iluminou as coxilhas por onde ele cavalgava à
procura dos animais, fazendo com que estes pudessem ser vistos
e finalmente reunidos no potreiro pelo Negrinho.
O filho do estancieiro, não satisfeito, soltou novamente
os cavalos.
Dessa vez, a surra foi impiedosa e o Negrinho, depois de atirado
num formigueiro, acabou morrendo.
Salvo por Nossa Senhora, e usufruindo da liberdade que lhe trouxe
a morte, dizem que ele cavalga até hoje pela terra e pelo
céu.
“Quem acender uma vela para o Negrinho do Pastoreio encontrará
o que perdeu: amor, felicidade ou objetos”, diz Alceu Maynard
Araújo, em “Lendas Brasileiras”.
Do sul do Brasil.
“OS OLHOS DO MENINO”
(A LENDA DO GUARANÁ)
Um casal
de índios que não conseguia ter filhos implorou
a Tupã que lhes concedesse essa graça.
O pedido foi atendido. Tiveram um lindo, bondoso e inteligente
menino, que logo conquistou a amizade de todos da aldeia.
O espírito do mal ficou com inveja e com ódio do
menino e acabou matando-o ao tomar a forma de uma cobra.
Ao darem sua falta, toda a tribo saiu à sua procura até
encontrá-lo morto, caído ao lado de uma árvore.
Nesse momento, a mãe da criança ouviu Tupã
lhe dizer para plantar ali os olhos do menino, que deles nasceria
um fruto maravilhoso.
Assim nasceu o guaraná, cujas sementes negras, envoltas
numa película branca, realmente se assemelham a um olho
humano.
PAI-DO-MATO
Bicho gigantesco,
de corpo todo piloso, cabelos até o chão, barbicha,
mão de macaco, pé de cabra e orelhas de cavalo.
Seus urros e seu riso macabro reverberam por toda a mata.
Tiros e facadas não o matam, exceto se lhe atingir o umbigo.
É também comedor de gente.
PAPA-FIGO
Um preto
velho carregando um saco de estopa nas costas, muito feio, banguela,
barbudo, esmolambado, leproso, que para se tratar desse terrível
enfermidade mata crianças mentirosas para lhes comer o
fígado.
A gente simples do povo acredita que a lepra altera os caracteres
do sangue, sendo por isso chamada também de mal de fígado
ou mal do sangue. Para se purificar é preciso um novo fígado,
cru, de criança sadia e forte.
Esse foi o ponto de partida para o surgimento do temível
Papa-figo, o comedor de fígado, que atemoriza as crianças
nas narrativas dos pais.
Dizem que ele costuma rondar as escola, jardins e parques, atraindo
as crianças, jardins e parques, atraindo as crianças
desobedientes e mentirosas com doces e brinquedos, aí as
mata arrancando lhes o fígado (“fico para o povo”).
De acordo com uma versão de que o Papa-figo teria sido
uma pessoa rica que contraiu a terrível doença,
ele costuma deixar dentro da barrida da vítima uma grande
quantia em dinheiro para os familiares e para o sepultamento.
Mito conhecido em todo o Brasil.
PISADEIRA
Acredita-se
que o pesadelo resulta da ação maléfica de
um demônio ou espírito ruim.
A Pisadeira seria, então, para o povo, a personificação
do pesadelo numa velha feia, gorda, pesada, que sentaria na boca
do estômago de quem está a dormir, oprimindo-lhe
o tórax de modo a dificultar a respiração.
A ela atribuem a causa de malfadados sonhos. Suas presas mais
fáceis, dizem, são as pessoas que dormem de costas
ou com o estômago cheio.
É curioso notar que o vocábulo pesadelo deriva de
“peso”, “pesado”.
PORCA DOS SETE LEITÕES
É
uma porca, que costuma aparecer atrás de igrejas antigas
e de cruzeiros de estadas, acompanhada de sete leitões.
É branca e solta fogo pelos olhos, pelo focinho e pela
boca. Ela teria sido uma rainha que, com seus filhos pequenos,
sofreu essa transformação por vingança de
um horrível feiticeiro.
De acordo com outra versão, seria a alma de uma mulher
que praticara sete abortos.
(Chamada de lenda, mito, e até mesmo de superstição).
A PRINCESA DA CIDADE ENCANTADA
Em Jericoacara,
os moradores contam que existe uma cidade encanta, perto da praia,
sob o farol, onde só se pode chegar na maré baixa.
A entrada, numa caverna, é fechada por uma enorme grade
de ferro.
Nessa cidade vive uma linda princesa, que por um feitiço
de um bruxo malvado com quem ela não quis se casar teve
o seu corpo transformado numa espécie de serpente de escamas
douradas. Apenas seu rosto e seus pés se mantiveram a salvo
da terrível bruxaria.
Dizem que para quebrar esse encanto, é preciso banhá-la
com sangue humano e que o herói que a salvar ficará
com ela e com todo o ouro que existe na cidade, a qual também
renascerá.
Mas, os que até hoje tentaram, correm aterrorizados ao
ouvirem, logo na entrada da cidade, os sons apavorantes de fantasmas,
de gemidos e gritos humanos, e de urros de monstros ferozes.
Lenda mais conhecida do Ceará.
QUIBUNGO
Bicho-papão,
meio homem, meio maçado, cabeça muito grande e uma
enorme boca nas costas – por onde devora as crianças
– a qual se abre e fecha à medida que ele movimenta
sua cabeça para cima ou para baixo.
Acredita-se que os negros, quando ficam muito velhos, “viram”
Quibungo.
Diversamente dos outros que integram o chamado ciclo dos monstros,
como o Pai-do-Mato e o Mapinguari, o Qujibungo não é
invulnerável às armas do homem, de modo que pode
ser ele abatido à faca, tiro ou pauladas.
Mito baiano, de origem africana.
SACI-PERERÊ
De acordo
com a configuração mais popular, o Saci-Pererê
é representado por um negrinho de uma perna só,
com orelhas de morcego e a mão furada, que usa uma carapuça
vermelha na cabeça, cujo poder mágico lhe confere
a prerrogativa de ficar invisível e de aparecer e desaparecer
como fumaça. Se lhe for tirada a carapuça ele perde
seus poderes.
Ele se faz anunciar por um assobio estridente e adora fumar, sendo
esta uma forte característica do Saci, pois é difícil
imagina-lo sem seu cachimbo.
O Saci é daqueles fumantes que nunca trazem consigo palitos
de fósforos ou isqueiro e, por isso, sempre assombra os
viajantes pedindo-lhes fogo para seu pito.
Matreiro, traquinas, o Saci pratica todo tipo de diabruras: da
nó nos rabos dos cavalos, faz queimar a comida, esparrama
as brasas do fogão, joga farinha em toda a cozinha, derruba
o chapéu dos viajantes (depois de quase matá-lo
de susto ao montar na garupa de seus cavalos), faz cócegas
e puxa as cobertas de quem está dormindo e outras molecagens
ainda piores.
O remédio mais eficaz para espantar o Saci é rezar
o Credo.
Amadeu Amaral, (em “Tradições Populares”)
pontifica que “o Saci, que é certamente indígena
em parte, revelando amálgama de elementos de outros mitos
aborígines (Curupira, Caapora, etc), sofreu influência
do negro, patente na transformação do personagem
num moleque travesso, e ao mesmo tempo incorporou não pouca
coisa de procedência européia. De modo que o Saci
marca um momento importante, uma encruzilhada da nossa viagem
histórica. O Saci é talvez um símbolo...”
UIRAPURU
“O
que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
que fique a escutar quando outro canta”.
Segundo a lenda, duas índias muito amigas se apaixonaram
pelo mesmo homem, o novo cacique da tribo onde viviam. Como eram
amicíssimas, deixaram para que o cacique decidisse com
qual das duas iria ficar. Ele, porém, gostava de ambas
as rivais, e não se decidia. Para solucionar o impasse,
propôs um duelo, uma competição de arco e
flecha: a pretendente que acertasse um pássaro, indicado
por ele, em pleno vôo, seria sua mulher.
As duas amigas dispararam, então, suas flechas. Uma delas
acertou o alvo e se casou com o cacique, A outra, embora se mostrasse
conformada, derramava seu prato de dor às ocultas. Suas
lágrimas formaram um rio.
Tupã, o deus dos índios, vendo nascer aquele rio
que desconhecia, foi saber o que se passava. A índia lhe
contou e pediu que a transformasse num pássaro a fim de
que dessa forma pudesse matas as saudades de seu amor.
Ao ver que o cacique e sua amiga formavam um casal muito feliz,
ficou ainda mais triste. A índia, então, voando
de volta para sua tribo, começou a cantar um canto tão
lindo que toda a mata parou para ouvi-lo. Tupã, ao surpreender-se
com o silêncio da mata, encantado com o canto, deu à
índia o nome de Uirapuru (pássaro que não
é pássaro), e lhe disse que quando se sentisse triste,
que cantasse, que a tristeza passava.
URUTAU (ou Mãe-da-Lua)
“À
noite, na mudez da mata escura, solta o Urutau seu grito de saudade.
Pranto ou soluço, pleno de amargura, de quem a nostalgia
à noite invade”.
Orlando de Almeida Sales
Pássaro
sinistro, estranho, esquivo, que nas sombras e no escuro da noite
se refugia, com seu triste canto, tão triste que parece
ressoar um plangente e desesperado grito de dor, uma dor que nada
cura.
É cercado de mistérios e de lendas (“personalizando
fantasmas e visagens pavorosas”, segundo Luís da
Câmara Cascudo) dentre as quais ficamos com três,
que convergem num ponto: transformaram-se em Urutau enamorados
que à dor sucumbiram, por causa de um amor perdido:
- a índia Imaeró, preterida pela irmã Denaquê,
na disputa pelo coração de Tainá-Can;
- a guarani Nheambiu, derrotada pela morte, que levou seu namorado
Quimbae (registradas por Câmara Cascudo, em “Dicionário
do Folclore Brasileiro”);
- um jovem caboclo que na mata se entranhou tentando encontrar,
sem jamais conseguir, a linda moça que lhe dissera ser
o seu grande amor, antes de desaparecer (registrada por Benedicto
Pires de Almeida, em “Folclore de Tietê”).
VAQUEIRO
MISTERIOSO
Por todo
o Nordeste brasileiro contam histórias sobre um vaqueiro
muito humilde, aparentemente frágil, mal vestido, montado
num cavalo velho, com um chapéu gasto a lhe ocultar o rosto.
Não se sabe de onde vem, nem seu verdadeiro nome.
Ninguém lhe dá atenção nem dá
nada por ele.
Quando se oferece para participar de vaquejadas ou outros certames
com gado, zombam e caçoam do forasteiro.
Acontece, porém, que na hora das disputas ele se revela
um vaqueiro hábil como ninguém, conhecedor de grandes
segredos. Seu cavalo torna-se então, um veloz e belígero
ginete. Ele reúne todo o gado, no curral, sozinho e em
pouco tempo. Domina facilmente os mais ferozes touros. Nas vaquejadas,
não há novilho, não há garrote, que
escape à derrubada do vaqueiro misterioso. Enfim, acaba
sendo ele o grande campeão.
Terminados os torneios e as festas, ele, alegre, bom garfo e grande
bebedor, recusa os sedutores convites das mulheres, assim como
as ofertas dos fazendeiros de bem remunerados trabalhos; apenas
recebe os prêmios e se vai, para reaparecer depois em outras
paragens.
Câmara Cascudo o registrou como mito (“Mitos Brasileiros”);
Alceu Maynard Araújo, como lenda (“20 Lendas Brasileiras”).
VITÓRIA-RÉGIA
Era uma vez
uma jovem e muito bonita índia, chamada Naiá, que
se apaixonou pela lua ao ouvir as histórias de que esta
era um belíssimo e poderoso guerreiro que, quando se enamorava
de alguma índia, levava-a consigo para o céu e a
transformava numa linda estrela.
Naiá, depois de se apaixonar pela lua, passou a não
se interessar por nenhum dos seus inúmeros pretendentes,
mantendo-se fiel a seu sonhado guerreiro.
Numa das noites em que vagava pelas matas, ao ver a imagem da
lua refletida num lago, acreditando ser o seu amado, atirou-se
nas águas profundas do lago e morreu afogada.
A lua, então, que não fizera de Naiá uma
estrela no céu, transformou-a numa estrela das águas,
fazendo com que seu corpo de índia se tornasse uma imensa
e linda flor, cujas pétalas à noite se abrem, para
que o luar ilumine sua corola rosada.
Essa flor é a vitória-régia.