O trabalho que
ora apresentamos aos leitores é uma simples contribuição
ao estudo dos Contos Folclóricos recolhidos em Olímpia.
A coleta de contos parece não ter fim. Quanto mais
os recolhemos, mais aparecem para registro. Cremos ser necessários
muitos anos de busca, para esgotar, se houver possibilidade,
essa boa fonte de tradição brasileira. Mas,
para isso, é preciso termos boa vontade, entrando no
campo da pesquisa direta, investigando e recolhendo, através
de gravação, todo o material descoberto. E mais
que isto: fugirmos do ambiente turbulento no qual vivemos,
para ouvir as gravações e passa-las, com fidelidade,
ao papel. Assim, estaremos realizando trabalho honesto e proveitoso.
Depois, cataloga-los, organizar o fichário e os apontamentos,
em pastas, a fim de facilitar a consulta.
É trabalho cansativo e ao mesmo tempo agradável.
Cada pessoa ou família visitada, no princípio
da noite, recebe-nos com satisfação e hospitalidade.
A televisão é desligada e o encontro se estende,
até as 22 horas. No decorrer das coletas, são
servidos café, chazinho, a tradicional pipoca ou
outras guloseimas.
Boa platéia nunca falta aos narradores e o ambiente
é de muita atenção e alegria. Consoante
à natureza do conto, ao ser terminado, pode provocar
uma leve tristeza aos ouvintes, ou um estrídulo de
risadas em diversas tonalidades. Muitas pessoas presentes
relembram casos interessantes e ganham ânimo para
narrá-los. Ocorre, às vezes, ser um conto
conhecido de duas ou três pessoas, com temas diferentes
e pequenas variações do assunto. Isto nos
proporciona ocasião para documentarmos as variantes,
dando-se oportunidade a todos os que queiram contar. Agindo
assim, ser-nos-á possível aquilatar o valor
dos narradores e de suas estórias.
Após essa primeira parte, voltamos a casa com a
fita carregada de palavras, para dar início à
lucubração que se prolongará até
a madrugada.
“Verba volant, scripta manent.”
Com muita admiração e respeito ao contador
de casos, bem poderíamos cognominá-lo, carinhosamente,
de Pai João, se homem e, de Mãe Maria, se
mulher, porque, no Brasil, essas duas figuras interessantes
da história africana tornaram-se símbolos
dos narradores de estórias. De fala mansa, resignados
e amáveis, se tornaram queridos de todos. Contavam
histórias e muitas patranhas. Patranha é história
não verdadeira, como a série que compõe
este trabalho, mas que também nos ensinam a conhecer
tudo quanto de habitual existe no homem. São importantes
as patranhas.
Em Contadores de Patranhas, estão unidos, num amável
consórcio, dezessete contos, recolhidos em Olímpia,
Estado de São Paulo, mas que não são
estritamente olimpienses. São contados em todo o
Brasil e alguns deles universalmente conhecidos.
Eles nos fazem voltar ao tempo de menino, porque são
emocionantes.
Divulgar a sabedoria do povo é, sem dúvida
alguma, de muito valor, porque é alicerce para a
identificação cultura da sociedade.
Os narradores podem ampliar ou esquecer pormenores, mas
os traços gerais do assunto permanecem. São
sempre os mesmos.
Ao editarmos esta coletânea de contos, conservamos
as palavras, “verbo ad verbum”, como foram pronunciadas,
e do mesmo modo, as idéias prolatadas. Com isso esperamos
estar contribuindo para um registro fiel da fala do povo
e da construção de sua idéia, além
de mantermos uma atitude de respeito aos contadores, o que
consideramos essencial.
Finalmente, desejo aconselhar a leitura deste trabalho,
para que todos possam deliciar-se com esses inconfundíveis
tesouros da Literatura Oral, deixados por nossos ancestrais.
É dever, principalmente da juventude, ler e analisar
esse manancial do saber popular, porque traz valorosas informações
que dão oportunidade de apreciação
dos valores da nossa gente. Os contos revelam informações
históricas, etnológicas, sociológicas,
jurídicas e sociais.
Não foi sem razão que o grande e imortal Luís
da Câmara Cascudo assim se expressou: “De todos
os materiais de estudos o conto popular é justamente
o mais amplo e mais expressivo. É também o
menos examinado, reunido e divulgado.”
1 – APUROS DO MATUTO
“Diz que certa vez um homem muito caipira, que morava
numa chocha, no meio de um mato, preciso fazê uma
viagem às pressa, pra visitá o pai que tava
nas úrtima.
Então ele falô pra muié:
- Pega uma muda de ropa e a botina nova e põe no
picuá, que não vai dá tempo de trocá
de ropa.
Pegô o picuá e saiu c´a ropa que tava
no corpo. Ele tinha trabaiado o dia intero e tava sujo,
a ropa tinha uns rasgado e remendo. Era a ropa de bate no
serviço.
Ele ia de trem-de-ferro e como tava já na hora do
trem passa, ele saiu correndo, ataiano o pasto pra chega
mais depressa.
Quando chegô na estação, malemá
deu tempo de comprá a passage e o guarda já
tinha dado a ordem pr´o trem saí: piiiii, piiiiiiii!
O matuto pegô o trem já em movimento. Entrô
no carro, sentô e começô a gostá
do baruinho, do chique-chique do trenzinho.
Só sei dizêe que de repente ele começôo
a senti uma cocerinha danada, nas perna. Então ele
levantôo a perna de uma carça, pra coçá,
já levo umas espetada nos dedo. É que a carça
tava cheinha de picão e carrapicho e tamém
coaiada de carrapatinho que ele pegô no pasto e uma
porção deles já tava grudado na perna
do infeliz.
O homem ficô avexado co´aquela situação
e entrôo no mitório do carro pra trocá
e mudá de ropa de ele tava levano, pra aliviá
o sofrimento.
Então, né, ele pegô o picuá e
foi pr´o mitório. Lá, ele tirô
a carça suja, rasgada, cheia de espinho e carrapato
e ia guarda. Mas, logo pensô que não devia
guardá, a carça já não valia
mais nada. Abriu a janelinha do mitório e vape! Pinxô
ela no mundo.
Áí ele abriu o picuá pra pegá
a outra carça, mas deu co´os burro nágua.
É que a muié dele, naquela afobação
pra ele não perdê a hora, esqueceu de botá
a carça. Pôs só a camisa e as botina.
A carça ficô em cima da cama.
O home, quando percebeu que tava em apuro penso:
- Tô perdido. Virô um tango! Agora o que eu
vô faze?
E, no mesmo tempo, ele rezava e xingava. Ele ficô
tão desatinado que em toda estação
que o trem parava, ele abria a janelinha, punha o pescoço
pra fora, e perguntava pr´as pessoa da plantaforma
se não queria vendê a carça. E nada!
Ninguém podia vendê a carça pra ele.
O home já tava na porta da locura, porque na outra
parada da estação ele tinha que descê.
Era a cidade pra onde ele tava indo. Como que ele ia fazÊ?
Já era a vez de ele descê. Suava frio de tanto
medo e vergonha. Enquanto ele tava fundino a cuca, teve
até a idéia de pulá a janelinha do
trem.
Então, nessa hora, o guarda-trem já preocupado
porque já fazia tempo de o mitório tava fechado
e tinha otras pessoa quereno entrá, bateu, com toda
força, na porta. O homem quase desmaiô. Abriu
a frestinha da porta, pôs a cabeça pra fora
e contô o causo pr´o guarda. Por sorte, o guarda
tinha uma carça de reserva, na maleta, a arranjô
pra ele.
Ele vestiu e saiu pr´o lugar dele. Quando o trem parô,
desceu aquele home magrinho, vestido co´aquela carça
larga e comprida e saiu andando pr´o meio das rua
feito um paiaço.
É esta a história.”
Contado por Jesus Carlos Batista, 27 anos (1990), pouca
instrução, lavrador, residente na Rua Penha,
210-Bairro São José – Olímpia.
2 – O POBRE ASTUTO
“Diz que havia uma vez um homem pobre que tinha dois
compadres muito ricos. Um dia ele disse pra mulher:
- Nossos compadres são tão ricos e nós
não possuímos nada. Temos essa tapera pra
morar e algumas bagatelas que não valem uma tutaméia.
Mas, ao falar isto pra mulher, ele se lembrou da mulinha
que possuíam e com ela ia procurar tapear os compadres,
pra ver se conseguia ganhar um dinheirinho. Deixou a mula
alguns dias sem comida pra que ela ficasse com muita fome.
Daí conseguiu arranjar, com muito custo, umas libras
esterlinas e misturar elas no farelo. Misturou bem um cocho
e pôs a mula pra comer. A mula, de tanta fome, comeu
todo, o farelo e as libras esterlinas. Quando foi chegando
na hora da mula estrumar, ele arreou ela e foi pra casa
dos compadres. Todos eles moravam vizinhos.
Chegou na casa de um deles, apeou, amarrou a mulinha na
lasca da cerca, cumprimentou o compadre e a comadre e ficaram
proseando no alpendre.
Não demorou muito, a mula estrumou. Então
ele se levantou, apanhou uma varinha e ficou mexendo no
estrume da mula pra lá e pra cá.
O compadre, indignado, perguntou:
- O que você está fazendo aí?
- Catando libra esterlina.
- Catando libra esterlina?
- É. Esta mula é milagrosa e, quando estruma,
eu cato algumas libras. Agora são poucas. Mas depois
vêm outras.
- É libra esterlina mesmo! Ó compadre, você
quer me vender essa mula?
- Não compadre, não posso. É ela que
me salva a vida de pobre, ajudando com essa pequena riqueza.
Tanto insistiu que o compadre pobre acabou por fazer o negócio.
- Quanto o senhor me dá pela mula?
- Dou dez contos de réis.
- Então pode ficar com ela, mas tenho medo de não
ter mais dinheiro nem pr´as despesinhas de casa.
Fiseram o negócio.
Ainda uma vez mais a mulinha soltou uma libras esterlinas,
mas depois só era estrume mesmo.
O compadre rico contou o fato pr´o outro compadre
rico e resolveram ir tirar satisfação com
o pobre.
Foram até a casa dele e já chegaram gritando:
- Ó seu tapeador, vendeu uma mula que só estrumou
libra esterlina naquele dia. Você me paga. Nós
vamos pôr isto a limpo.
Antes que a discussão piorasse, o pobre convidou
os dois ricaços pra um banquete que ele ia oferecer
num hotel muito chique. Era somente para eles três.
- Deixa disso compadre. Você já nos passou
a perna com o negócio feito co´a mula.
- Esqueça disso. Deixem a mula pra lá. Vamos
no banquete juntos.
Mandou preparar peru, leitoa e servir vinho dos bons. Mas,
antes que se assentassem à mesa, o pobre andou conversando
secretamente com a dona do hotel. Pagou adiantado o banquete,
e pra que ela guardasse o segredo, ainda deu uma boa gorja.
Comeram e beberam do bom e do melhor até não
poder mais. Contaram muitos casos. Na hora de irem embora,
os dois ricos disseram, um para o outro:
- Precisamos pagar as despesas. Este banquete deve ter ficado
muito caro e o compadre é tão pobre.
Quando os dois ricões foram enfiando a mão
no bolso para pegar a carteira, o pobre disse:
- Nada disso, compadres. Eu convidei e eu pago.
- Mas, você não tem dinheiro!
- Quem falou? Esta carapuça que eu trago sobre minha
cabeça é tão poderosa que paga todas
as dívidas que eu faço.
- Como assim?
- Querem ver?
Tirou a carapuça da cabeça, colocou ela sobre
a mesa e disse:
- Carapuça, pague a dona do hotel.
E de lá da portaria, a dona do hotel disse pr´os
três:
- Está tudo pago. Vocês não devem nada.
E o pobre, com muita satisfação, confirmou:
- Não falei pra vocês?
Daí um segundo compadre rico falou pr´o pobre:
- Compadre, me vende essa carapuça.
- Não, não, e depois onde é que vou
arranjar dinheiro pra viver.
- Vende, sim compadre, Põe o preço.
- Bom, eu tenho uma outra carapuça encantada lá
em casa. É mais fraquinha que essa, mas dá
pra quebrar o galho.Então, eu posso vender essa,
mas eu quero cinco conto de réis.
E recebeu o dinheiro.
Chegando em casa, ele contou pra mulher:
- Passei outra pernada nos compadres. À hora que
eles descobrirem que é mentira, eles vão vir
aqui e são capazes até de me bater. Mas, não
tem nada não. Nós temos dois coelhinhos tão
parecidos e quando eles chegarem bravos, vamos tentar pregar
outra peça neles. Você diz que eu saí
pra caçar. Estou na invernada, mas você vai
mandar o coelhinho me chamar.
Não demorou, chegaram os compadres nervosos com o
trote da carapuça.
- Cadê o compadre? Nós precisamos ajustar contas
com ele!
- O meu marido está caçando. Entrem e esperem.
Eu vou mandar o coelhinho chamar ele.
Foi ao viveiro, pegou o coelhinho, alisou ele e disse:
- Coelhinho, vai chamar o patrão.
O coelhinho desembestou numa corrida e ganhou o rumo da
invernada.
O pobre, como estava ali perto escondido, deixou passar
um tempinho e aparece com outro coelhinho nos braços,
acarinhando ele e dizendo?
- Como vão compadres? Eu estava caçando pra
passar umas hora, mas o coelhinho foi me chamar, anunciando
visita.
Os compadres se esqueceram da desforra e logo perguntaram:
- Mas este coelhinho sabe levar recado?
- Claro que sabe. Vocês não viram?Minha mulher
mandou me chamar e logo me farejou e eu vim pra ver o que
era.
- Que curioso! Ó compadre, me vende esse coelhinho.
- Não faço negócio com este coelhinho.
E depois quem me leva os recados?
- Ah! Compadre, vamos fazer o negócio. Eu pago bem
pelo coelhinho. E pago na hora. Quanto você quer por
ele?
- Bom, já que o senhor faz questão de ficar
com ele, eu quero cinco mil réis.
Acertaram o negócio e lá foram os dois compadres
embora.
O que comprou o coelho ensinou a mulher dele a mandar o
coelhinho o chamar, quando alguém viesse à
procura dele.
Não foi nada não. A primeira vez que a mulher
do fazendeiro mandou o coelho ir chamar o marido, ele entrou
numa quiçaça e até hoje não
voltou.
Aí, o compadre pobre já fazia outro plano
pra se livrar dos compadres ricos.
- Ó mulher, os compadres vêm aqui. Agora estou
perdido. Mas vou tentar uma vez mais me livrar deles e ver
se ainda pego mais uma graninha.
Então, ele combinou o seguinte com a mulher:
- Nós matamos aquele porco e guardamos o sangue numa
latinha. Eu vou colocar aquele sangue numa bexiga e você
põe dentro da roupa, na altura da cintura. Você,
então, solta aquela pombinha que está presa
no viveiro pra ela ir me chamar. Eu chego aqui e digo que
você não mandou a pombinha ir me chamar. Ferramos
numa discussão. Depois eu tiro a faca da cintura
e te sangro. Você cai, geme e tinge de morta. Eles
vão ver o sangue brotar da tua cintura. Depois eu
pego um vidrinho de cheiro que vou preparar, levo o vidrinho
no seu nariz e você ressuscita, perguntando o que
aconteceu. Eles vão ficar assombrados e vão
me perdoar mais uma vez. Combinado?
- Ah, marido, isto é perigoso! Os compadres podem
não acreditar na história e aí a porca
vai pr´o brejo. Eles te matam.
- Que nada! Os compadres são cabeças de burro.
Deixe comigo.
A mulher, então se preveniu com a bexiga de sangue
também com um vidrinho de cheiro que deixou no guarda-louça.
E ele se pôs no esconderijo.
Mal ensaiaram o pega, aparecem os compadres ricos.
- Comadre, cadê o compadre?
- Ele saiu pra ir buscar uns paus de lenha no mato.
- Ele demora, comadre?
- Acho que vai de morar um pouco, por que saiu ainda agorinha.
- Mas, nós vamos esperar ele. O compadre tem feito
nós dois de moleques. Faz tapeação
e ainda pega o nosso dinheiro. Hoje nós queremos
dar uma boa lição nele pra ele não
ficar pensando que a gente é bobo.
- Sentem um pouco, compadres. Eu vou mandar a pombinha ensinada
ir no mato chamar ele.
- Lá vem a senhora também com história,
não chega o compadre ser tapeador?
- Não é tapeação, compadres.
Quer ver?
Foi ao viveiro, pegou a pombinha e disse pra ela ir chamar
o patrão. Depois soltou ela no ar.
Depois de muita demora, ele chega, trazendo alguns gravetos
nas costa.
- Olá compadres, como vão indo? Faz tempo
que vocês estão aqui?
- Faz muito tempo e estamos aqui pra te tirar a fama de
enganador.
Então, né, o pobre vira pra mulher e diz:
- Por que você não mandou a pombinha ir me
chamar?
- Eu mandei sim. Os compadres são testemunhas.
- Não mandou, porque ela não foi onde eu estava.
E começaram uma discussão forte. Mandei, não
mandou...
Quando a discussão estava muito violente, ele arranca
a faca da cinta e dá uma facada na cintura da mulher.
A mulher dá um grito de dor e cai toda ensangüentada.
Os dois ricos, amedrontados, dizem:
- O que o senhor fez, compadre? Matar a comadre por causa
de uma teima besta. Não precisava ficar assassino
por nossa causa.
- Mas, não tem problema não. Eu tenho aqui
em casa uma aguinha cheirosa que faz milagre. Foi no guarda-louça,
pegou o vidrinho, abriu e chegou no nariz da mulher. Num
segundo, ela respirou forte, abriu os olhos, levantou meio
zonza e perguntou o que tinha acontecido.
Os dois compadres ficaram maravilhados.
- Que milagre! Compadre, nos venda esse remédio milagroso?
Vai que um dia nós brigamos com as esposas, ficamos
nervosos, acabamos matando elas. E depois, por encanto,
com esse remédio fazemos elas viver novamente.
No começo o pobre fez a mesma chanha de sempre e
por fim acabou cedendo.
- Já que é pr´os senhores, eu vendo
este vidrinho.
- Quanto o senhor pede por ele?
- Cinco mil réis.
- Está feito o negócio! Deram o dinheiro e
foram pra casa.
No caminho os dois ricos combinaram:
- Agora nós brigamos com as mulheres, matamos elas
e fazemos elas ter vida de novo.
Já chegaram em casa, combinaram uma caçada.
Pegaram os petrechos e saíram. Demoraram muito pra
voltar. Chegaram já era noite. E por isso desentenderam
com as mulheres. Conversa vai e conversa vem, e o fim foi
triste. Cada um deu uma facada na mulher só pra mostrar
o efeito do remédio milagroso.
As mulheres caem estendidas no chão. O de cá
leva remédio no nariz da esposa. Nada! O vizinho
vem buscar o vidrinho, dá o remédio pra mulher
cheirar. Nada! As ensangüentadas estavam bem mortinhas.
E eles acabaram com a água milagrosa de tanto esfregar
ela no nariz das esfaqueadas.
- Matamos nossas companheiras! Desta vez o compadre não
escapa. Ele vai pagar por esta cilada. Vamos matar ele também.
Cuidaram do velório, fizeram os enterros. Agora os
dois estavam viúvos e decidiram ir com tudo pra matar
o tapeador sem-vergonha.
Enquanto isso o compadre pobre confessa pra mulher:
- Desta vez não escapo. Eles vão me matar.
Mas, vou procurar um outro jeito pra sair dessa. Mas, mesmo
que eles me matem, já não tem importância,
você já tem algum dinheiro pra tocar a vida.
E estudou o modo de se livrar. Construiu uma armação
de bambu bem maior que o tamanho dele e costurou ela com
saco de estopa e deixou no quintal.
No outro dia, logo de manhã, lá vem vindo
os dois viúvos ricos.
- Compadre, você fez a nossa infelicidade. Confiamos
no remédio e você fez com que matássemos
nossas mulheres. Agora vamos te matar. Não tem outro
jeito. Você vai morrer também.
- Compadres, os senhores não me matem nem o tiro
nem a faca. Prefiro morrer afogado. Me afundem nas águas
do rio.
Os compadres disseram:
- Você morrendo é o que basta. Nós vamos
te afogar.
- Olhem, aqui está a armação de saco
de estopa. Eu entro nela e vocês amarrem bem amarrado
e me joguem bem no meio do rio.
Despediu da mulher que ficou chorando, entrou na armação
e os dois viúvos saíram carregando ele em
direção do rio.
No caminho eles diziam:
- Coitada da comadre! Vai ficar sozinha. Mas não
faz mal! Nós pagamos um tanto por mês pra ela
e ela servirá pelo menos pra lavar nossas roupas.
Depois de andarem um bocado, ficaram cansados. Pararam,
deixaram o pobre dentro da armação e foram
num boteco próximo tomar uns goles de vinho.
Enquanto estavam bebendo, vem pela estrada um pastor tocando
um grande rebanho de carneiros.
O pobre viu o pastor pelo vão da armação
e começou a gritar:
- Ai, eu não quero casar com a filha do rei. Eu prefiro
a morte, mas não quero casar com a filha do rei.
O pastor se interessou pelo assunto e se aproximou daquela
armação.
- O que você está dizendo? Não quer
se casar com a filha do rei. Por quê? Quer negócio
melhor que este?
- Não, não quero casar com ela. Eles estão
me levando contra minha vontade. Me tira eu daqui.
O pastor mais que depressa abriu a boca da armação
e fez a proposta:
- Eu solto você. Você me amarre aqui dentro,
eu vou no seu lugar. Ninguém fica sabendo da mudança
e eu caso com a filha do rei.
O pobre sabido saiu e bem depressa amarrou o pastor dentro
da armação.
O pastor ainda disse:
- Pode ficar com a carneirada pra você , como recompensa.
O pobre tocou apressado aquele bando de carneiros em direção
da sua casa, antes que os dois ricaços aparecessem.
Não demorou muito tempo, vêm trolados de vinho
os dois viúvos, pra darem vim ao tapeador.
Agarram a armação, dizendo:
- Está perto. Daqui a pouco você vai pr´o
inferno! Você fez nós matarmos as mulheres,
agora você vai pagar.
- Me soltem. Não fui eu, gritava o pastor.
- Não foi você? Você vai ver se foi ou
não. Você logo vira comida de Peixe.
- Pelo amor de Deus, me soltem! Eu sou o pastor. O outro
saiu daqui e eu fiquei no lugar dele.
Mas os dois estavam tão bêbados que nem entendiam
aquilo que o pastor estava dizendo.
Chegaram no rio e soltaram a armação na correnteza.
Já era noitinha. E voltaram realizados, satisfeitos,
pra casa.
No dia seguinte, ao se levantarem, viram tantos carneiros
bonitos, grandes e peludos no quintalzinho do compadre pobre.
E pensaram:
- Onde que a comadre arranjou dinheiro pra comprar tantos
carneiros?
E foram pra lá.
Assim que chegaram, foram recebidos pelo compadre pobre.
- Ué, compadre, você não morreu? Nós
te jogamos no rio, ontem.
- Jogaram sim.
- Onde você arrumou esta carneirada?
- Uai, Vocês não me jogaram na beirada do rio?
Se vocês me tivesse jogado no centro do rio eu teria
tirado gado grande: bois, cavalos e burros. Mas, vocês
me jogaram na beirada e eu só tirei essas porcarias
aí. Vocês não querem me levar lá
e me jogar bem no centro do rio?
- Não! Agora você vai levar nós, pra
tirarmos gado graúdo. Nós temos fazenda grande
e queremos bois, vacas, cavalos.
- Não! Se vocês quiserem, arrumem, então,
as armações.
- E daí você leva nós?
- Levar nós, não.Vocês vão andando.
Eu não vou fazer como vocês que me levaram.
Lá na beirada do rio eu amarro as armações
e jogo vocês no meio do rio. Nós vamos andando.
Os compadres ricos prepararam as armações
e no dia seguinte foram os três para beira do rio.
Lá, o compadre pobre amarrou bem o primeiro dentro
da armação e, depois, o outro. Aí,
então, ele amarrou, uma pedra bem pesada na boca
de cada uma delas. Os dois cismaram da mão e perguntaram:
- Pra que essa pedra, compadre?
- É pra vocês irem bem pr´o fundo . Vocês
não querem gado graúdo?
- Solte nós, compadre. Não precisa amarrar
estas pedras.
- Soltar como? Vão pr´o meio do rio. E plofe!,
lá se foram os dois.
O pobre gritava:
- E vocês vão trazer muito gado. Todo graúdo.
E com a morte dos compadres ricos, o pobre e sua mulher
ficaram milionários. Além dos carneiros que
ganharam do pastor, ainda herdaram as duas fazendas dos
compadres ricos”.
Contado por Antônio de Souza, 53 anos (1983), pouca
instrução, barbeiro, residente na Rua Júlio
Ferranti, 243, Bairro São José – Olímpia.
3 – O TOURO, O CAVALO E O PORCO
“Era um home que trabaiava na olaria e tinha um cavalo,
um toro e um porco. Então ele pagava o cavalo e judiava
do cavalo o dia inteirinho, trabaiano na pipa, massano o
barro, co´aquela coaiera no pescoço, coitado.
Ele sortava o cavalo só de tardezinha. O cavalo,
muito cansodo, foi recramá pr´o compadre Toro.
Falo pr´o compade Toro:
- Hoje eu tô quebrado. Oia, o teu dono, que é
o meu dono, me judiô demais, hoje. Massei hoje, barro
que não foi brincadeira.
Aí o compade Toro respondeu pr´o compade Cavalo:
Ah! Compade Cavalo, o senhor é bobo! Eu se fosse
o senhor, amanhã cedo, à hora que vim buscá
o senhor pra massa o barro, eu pegava e caía no chão
e fingia que tava doente. Aí eu queria vê quem
ele ia ponhá la? Porque onte ele ia tombá
terra comigo e eu fiz a mesma coisa.
- Ah! Então é, compade Toro?
- É sim, compade Cavalo. Faz o que eu to te falano
que vai dá tudo certinho.
Então, no dia seguinte, às três horas
da manhã, o dono da olaria foi pegá o cavalo,
de candeinha na mão. Chegô bem na moita de
arranha-gato e lumiano assim viu o rasto do cavalo que tinha
entrado de fasto, na moita, de tão veiaco que ele
era. Chegô lá, o cavalo tava lá deitado
na moita. Xingô, bateu no cavalo. Levanta, levanta,
vai, vai, bateu outra vez, judiô.
O compade Toro de lá dava risada, sabeno da veiacada
do cavalo.
O home judiô, judiô do cavalo e depois falô:
- Já que você não qué levantá
memo, então vô pega toro pra massá barro
hoje.
Foi lá e catô o toro. Catô o toro e o
coitado massô o dobro de barro que o cavalo tinha
massado no dia anterior.
Quando foi à tarde, ele sortô o toro no pasto
que de tão cansado tava co´os chifre no nariz.
Aí o toro falo pr´o compade Cavalo assim:
- Boa tarde, compade Cavalo.
- Boa tarde, compade Toro. Como é que passô
o dia hoje?
O compade Cavalo respondeu:
- Eu andei, andei, fui lá pr´o corgo. Fiquei
lá massano barro, feito tonto lá co´aquela
canga no pescoço.
Aí o cavalo disse:
- Digo, pois ele pegô eu mode massá barro hoje.
Enquanto isso você descanso o dia interinho na moita.
Forgado!
O compade Toro pegô e falô pra ele assim:
- Vamo fazê o seguinte: Amanhã cedo, à
hora que ele vim pegá nós, nós pega
nós dois, nós dois, heim!, nós deita
e não levanta não. Larga esse home pra lá,
o teu dono que é o meu dono.
No outro dia, o dono foi pr´o pasto e encontrô
os dois lá no pasto, deitado. Cutucô um, não
levantô. Foi co´a vara de ferrão no toro,
ferrô, ferrô, xingô, bateu e ele não
levantô.
- Ô vagabundo, hoje eu não posso faze tijolo.
Pegô foi embora. Aí o compade Toro levantô
e falô pr´o compade Cavalo:
- Ó compade cavalo, que negócio é esse?
O nosso dono só fica judiano de nós, fazeno
nós de escravo, judia, bate ni nós. E o tal
de fulano do porco? Fica lá no chiquero só
comeno. Toma seus três banho, três vez por dia,
né? Come do bão e do mió e nós
sem siqué banho não toma. Nós toma
banho quando chove e óia lá ainda. E além
disso tem que puxá a canga no pescoço e o
senhor tem que carregá coaiera.
O cavalo falo:
- É mesmo. Eu vô lá recramá com
o compade Porco. Que que é isso? Nosso dono não
pode fazê isso com nós.
Aí o cavalo foi lá chomingá co´o
porco.
Chegô lá no chiquero:
- Boa noite, compade Porco.
- Boa noite, compade Cavalo.
- Óia, eu mais o compade Toro tava conversano ali
hoje.
O porco já falô:
- Eu escutei memo. Eu bem que escutei memo vocês meteno
a boca ni mim lá, falano mal de mim.
- Não, não é falano mal. A gente ta
falano o que é certo... O senhor fica aí nesse
chiquero ó, come, toma o seu banho três vez
por dia e enquanto isso nós trabaia lá, feito
tonto, na olaria lá, feito bobo.
Aí o compade Porco falô:
- Ah! Compade Cavalo, vocês é bobo. Sabe o
que o senhor faz? Ó, hoje é que tá
bão. E o tempo tava que era só: broum! Broum!
Vai chovê muito. Amanhã cedo, à hora
que o dono vem pegá vocês, vocês, deita,
deita, não levanta não. Você já
fez isso! Deita e finge de doente. Você é bobo,
não sabe vivê.
Quando foi no outro dia cedo, o home levantô, ainda
tava choveno, e ele falô:
- E agora? Vô buscá lenha pra secáa,
pra depois queimá os tijolo.
Foi pr´o pasto. O cavalo tava correno, todo alegre,
pelo pasto: quirrirru! Quirriru!...
Quando o cavalo viu o dono co´ o cabresto na mão,
deito depressa e falo pr´o toro:
- Ó compade Toro, deita no chão que lá
vem o home.
O toro se jogo no chão: bei! Caiu pranchado no chão.
O dono foi primero no cavalo:
- Levanta alazão, levanta alazão. E nada!
Depois foi o toro:
- Levanta meu toro, levanta meu toro. E nada também.
Aí o home falô:
- Buscá lenha eu não vô, porque tá
muito moiado e os meus animal tá doente. Não
qué levantá. Na cidade eu tamém não
vô, porque meu cavalo não puxa carroça.
Eu tenho uma lenha seca que tá aí debaxo do
forno, então, eu vô aproveitá o dia
e matá aquele porco que tá lá no chiquero.
E o porco caiu na faca.
E por aqui termina minha história”.
Contado por Jesus Carlos Batista, 27 anos (1990), pouca
instrução, lavrador, residente na Rua Penha,
210, Bairro São José-Olímpia.
4 – O MENDIGO E O REI
“Numa cidade morava um rei num palácio muito
grande e nessa mesma cidade morava um velho muito pobre.
O pobre morava numa casinha de barro de um só cômodo,
quase caindo, e vivia das poucas esmolas que pedia. O coitadinho
passava até fome.
Um dia fizeram um grande roubo no palácio. Conseguiram
abrir o cofre do rei e levaram todo o tesouro.
O rei ficô desatinado. Urrava feito um leão.
Deixô todo mundo desnorteado.
Depois que o rei acalmo, ele mandô publicá
no jornal que daria uma boa recompensa, em dinheiro, pra
quem adivinhasse que tinha roubado o seu tesouro.
Ninguém se apresentô. Mas, uma pessoa que não
gostava do velho, por maldade, mandô avisá
o rei que o velho mendigo sabia quem era o ladrão.
Então o rei mandô ir buscá o velho,
pôs ele num quarto do palácio, e falô:
- Você tem três dias pra me dize o nome do ladrão
que levô meu tesouro. Se dentro de três dias
você não adivinhá, vai morrê enforcado.
O pobre velhinho disse consigo mesmo:
- Ó meu Deus, me socorra. Vim duma casa tão
pobre pra morrê num palácio tão rico.
E não vai te jeito de escapá dessa, porque
não sei dizê quem é o ladrão.
E começô a rezá muito.
O rei falô pr´os criados assim:
- Vocês tratam bem esse velho. Mande todos os dias
a melhor comida que tivé aqui, a mesma que vai na
mesa pra mim.
Então um criado foi no quarto aonde estava o velho
e falô:
- O rei mandô tratá bem você. É
pra trazê todo dia a melhor comida.
O velhinho então falô:
- Eu não estô acostumado a comê mais
do que uma vez por dia. Então, se não fô
incômodo, só traz comida quando dé meio-dia.
É só uma vez por dia.
O criado saiu do quarto e o velho começô:
- Pai Nosso que estais no céu...
E depois pensava:
- Ai, meu Deus, faça esses três dias passá
depressa. É duro ficá esperando a hora de
sê enforcado.
Quando foi meio-dia, um criado levô uma bandeja grande
com peru, leitão, batata e outra com melancia, abacaxi
e otras coisas. O velho comeu com muita vontade e falô
pr´o criado que foi a melhor comida que ele já
tinha comido.
Então o criado pegô as bandejas pra levá
pra cozinha e o velho disse com voz bem firma:
- Louvado seja Deus! Esse é o primeiro dos três
dias que estô vendo passa.
Com isso, o velho queria se referi ao primeiro dos três
dias de amargura, de sofrimento.
O criado ficô todo assustado. Chamô os otros
dois companheiros e disse:
- Esse velho sabe mesmo quem roubô o tesouro. Ele
falô, agradecendo a Deus, que o primeiro ele já
tinha visto. Ele é mesmo um adivinhado.
E, pra tirá a prova, no segundo dia, foi o outro
criado que participô do roubo, que levô a comida.
O mendigo comeu, comeu, comeu até enjoá.
Quando o criado retirô as vasilhas pra levá
pra cozinha, ele agradeceu:
- Louvado seja Deus! Esse é o segundo dos três
que está passando.
O criado saiu apressado pra cozinha. Estava tão nervoso
que nem podia falá. Chamô os dois companheiros
e disse:
- Nós estamos perdidos. O velho sabe mesmo que somos
nós. O que devemos fazer?
Então, no terceiro dia, foi leva a comida pr´o
velho o terceiro dos ladrões.
O velho quis comê tudo o que tinha nas bandejas porque
era a última vez que ele ia comê na vida. Deixô
as bandejas limpinhas. Entregô elas pr´o criado
e falô:
- Louvado seja Deus! Este é o terceiro e o último
que eu vejo passando.
O criado não agüentô o que ouviu. Caiu
de joelhos nos pés do velho e disse:
- Já que o senhor sabe que fomos nós os ladrões
do tesouro, nós pedimos pelo amor de Deus que o senhor
não fale isso pr´o rei. Nós vamos devolver
o tesouro pr´o senhor entregá pr´o rei,
mas o senhor tem que jurá que não vai contá
pra ele.
O velho, que já se sentia aliviado, porque não
ia morrê enforcado, jurô que não ia falá
o nome deles pr´o rei, mas fez um pedido:
- Vocês pegam o tesouro e, com muito cuidado, sem
que ninguém veja, enterre debaixo daquele pé
de cedro que tem perto do riozinho, lá na ponte do
Tatu.
O criado respondeu:
- É pra já. Nós vamos faze como o senhor
está pedindo, mas o senhor não fale pr´o
rei que fomos nós.
Saiu e combinô com um deles pra fazê o serviço.
Quando bateu seis horas da tarde, o rei falô pra um
dos criados:
- Deixa a forca no jeito. Se esse velho não adivinha,
já fica tudo pronto pra enforcá ele.
E depois deu ordem pra outro criado ir chama o velho.
O velho saiu do quarto, muito calmo, foi ao salão
e disse:
- Majestade, eu não vô consegui adivinhá
o nome do ladrão, mas sô capaz de dizê
aonde ele enterrô o seu tesouro. O tesouro, majestade,
ele escondeu num buraco que ele fez debaixo daquele pé
de cedro que tem lá na ponte do Rio Tatu. Pode mandá
alguém lá pra vê.
O rei mandô dois criados pra lá, com enxada
e enxadão. Não demorô quase nada, eles
voltarem trazendo o rico tesouro do rei.
O rei ficô tão agradecido que deu uma boa quantia
de dinheiro pr´o velho. Ele ficô rico. Comprô
uma boa casa e viveu feliz pr´o resto da vida. Os
três criados nunca mais pensaram em roubá o
rei”.
Contado por José de Sousa Junior, 61 anos (1990),
pouca instrução, comerciante, residente na
Rua Dr. Otávio Lopes Ferraz, 419, Bairro São
José – Olímpia
5 – O RELHO MÁGICO
“Tinha dois compadres que moravam numa mesma cidade.
Um era rico e o outro muito pobre, pai de muitos filhos.
O compadre pobre já não sabia mais o que fazer
pra tratar dos filhos que estavam com muita fome.
Então, ele saiu, muito triste, para o meio de um
pasto, sentou em cima de uma pedra e ficô chorando.
Então apareceu Nosso Senhor, disfarçado num
velhinho, e perguntou pra ele:
- O que é que você tem, meu filho? Por que
está chorando?
O pobre contou pra ele o que estava se passando.
Nosso Senhor então falou:
- Não precisa ficar triste. Leve esta varinha de
condão e chegando em sua casa, estenda uma toalha
sobre uma mesa e fale: valei-me varinha de condão
que Deus me deu, me dê tudo de bom.
O pobre pegou a varinha de condão, agradeceu o velho
e foi depressa para casa.
Estendeu uma toalha sobre a mesa e fez direitinho o que
aquele velho mandou. Em cima da toalha apareceram as comidas
mais gostosas. Ele e a família comeram até
não poder mais. E assim, todos os dias, ele dava
boa comida para os filhos. Um dia, o compadre pobre resolveu
convidar o compadre rico pra ir almoçar na casa dele.
Sobre a toalha apareceu tanta comida boa, coisas que o rico
comia só nos dias de festa.
Então, o rico perguntou pr´o pobre como foi
que ele tinha conseguido aquela varinha tão misteriosa.
O pobre contou tudo como foi.
Quando foi à noite, à hora que o pobre estava
dormindo, o rico foi na casa dele, tirou a varinha de condão
e pôs uma varinha comum no lugar dela.
À hora do almoço, o pobre apanhou a varinha
e disse:
- Valei-me, varinha de condão que Deus me deu, me
dê tudo de bom.
E sobre a toalha não apareceu nada. Aquela varinha
era falsa.
O pobre ficou muito triste e saiu novamente para o pasto
e foi sentar sobre aquela pedra, chorando.
Nosso Senhor, disfarçado em velhinho, apareceu novamente
ao pobre. O pobre contou o que tinha acontecido.
Nosso Senhor disse:
- Não precisa chorar, meu filho. Eu vou dar pra você
este burrinho. Quando você precisar de dinheiro, é
só bater na anca dele e dizer: ponha ouro, meu burrinho.
O pobre foi, contente, para casa, puxando o burrinho pela
corda.
Chegando em casa, disse:
- Burrinho que Deus me deu, ponha moedas de ouro para compra
o que eu preciso.
E o chão ficou forrado de tantas moedas.
Passados uns dias, o rico ficou sabendo da existência
daquele burrinho lá na casa do compadre e, como era
muito invejoso, muito ambicioso, foi durante a noite, na
casa do pobre, levou um burrinho simples e trocou por aquele
que punha moedas de ouro.
Quando o pobre precisou das moedas, foi até o burrinho,
bateu na anca dele e pediu que pusesse moedas de ouro. E
nada!
O pobre logo compreendeu que tinha sido logrado, outra vez,
pelo compadre rico.
Ficou muito triste e saiu novamente pelo pasto, indo sentar
naquela mesma pedra. Sentou e pôs-se a chorar.
Nisso, apareceu aquele velhinho, que era Nosso senhor, e
o pobre contou o que tinha acontecido.
Nosso Senhor, então disse:
- Não precisa chorar, meu filho. Esta vez eu vou
lhe dar um relho. Você vai até a casa do seu
compadre rico e peça pra ele devolver a varinha de
condão e o burrinho que põe moedas de ouro.
Ele vai dizer que não tem nada disso com ele. Então
você peça para o relho bater nele.
O pobre pegou e relho e foi direto para a casa do compadre
rico.
Chegando lá, falou pr´o compadre:
- Compadre, eu quero minha varinha de condão e o
meu burrinho que põe moedas de ouro.
O rico respondeu:
- Eu não tenho nada disso, nem varinha e nem burrinho.
Então, o pobre falou:
- Valei-me, meu relho, que Deus me deu, dê uma surra
bem dada neste invejoso, neste ladrão sem-vergonha.
E o relho, sozinho, saiu dando lambadas no malandro. Era
só: pá, pá, pá, pá!
Quando o compadre rico percebeu que ia morrer de tantas
relhadas, disse para o pobre:
- Manda este relho parar, compadre, senão eu morro.
Eu vou buscar a varinha e o burrinho.
Com isto, o compadre pobre ficou muito mais rico do que
o seu compadre rico.
Acabou a história e morreu a Vitória”.
Contado por Nair de Lima, 65 anos (1990), pouca instrução,
do lar, residente no Abrigo São José, rua
Benjamim Constant, 1505, Bairro da Santa Casa – Olímpia.
6 – O PESCADOR E SEUS FILHOS
“Num dia, um homem pobre, um pescadô, saiu
bem de manhã pra pescá. Levô a tralha
e foi pra beira do rio. Armô a vara de pesca e não
demorô tempo nenhum, ela começô a envergá.
Fisgô e tirô da água um peixe bonito,
de bom tamanho. Quando ele tirô o anzol da boca do
peixe, o peixe disse pra ele:
- Não quero que você me coma. Eu te peço
pra me corta em oito pedaços iguais. Dois pedaços
você dá pra tua égua, dois pra tua mulher,
dois pra tua cadela e os otros dois você enterra no
fundo do quintal.
O pescadô foi pra casa e fez tudo conforme o peixe
mandô.
Passado o tempo certo, a égua deu cria dois potrinhos,
a mulher teve filhos gêmeos, a cadela teve dois cachorrinhos
e, no fundo do quintal, onde tinha enterrado os pedaços
do peixe, apareceram duas lindas espadas.
O pescadô pensô:
- Aqui tem coisa! Parece um mistério. Parece que
o peixe indicô alguma coisa pra mim. Vô espera
pra vê o que vai acontecê.
O tempo foi passando e os dois meninos ficaram moços
e decidiram saí de casa pra procurá serviço,
ganhá a vida.
Falaram com o pai e o pai disse:
- Está bem, filhos. Vocês podem saí
de casa, mas tomem muito cuidado. Vocês são
gêmeos, muito parecidos e um pode pagá pelo
erro do outro. Andem bem corretos para nada de mau acontecê.
Eu não tenho dinheiro pra dá pra vocês
leva, mas vô dá um cavalo bom pra cada um,
um cachorro valente e uma espada das melhores. Siga cada
um o destino que Deus der e que Ele abençoe muito
vocês.
Os rapazes se prepararam, montaram seus cavalos, pegaram
as espadas e se mandaram, seguidos dos dois cachorros.
Viajaram, viajaram. Conheceram muitos lugares. Um dia, indo
por uma estrada, eles encontraram uma árvore muito
grande que estava sobre um barranco. Descansaram na sombra
da árvore e trocaram umas idéias.
Um disse pr´o outro:
- Eu acho que não dá certo nós dois
fica andando juntos. Nós somos gêmeos, um muito
parecido com o outro e isso pode não dá certo.
Então, o melhor é nos se separá. Cada
um deve segui um rumo diferente.
O irmão concordô e combinô com ele o
seguinte:
- Então nós vamos quebrá um galho dessa
árvore. Cada um de nós planta o galho nesse
barranco. Um galho me representa e o outro representa você.
Eu planto um galho do lado direito da árvore e você
planta outro do lado esquerdo de quem vai pr´as bandas
do riozinho que fica ali abaixo. Quando um quisé
sabê notícia do outro e só voltá
aqui e olhá o galho. Se ele estive verde, viçoso,
é sinal de que o que planto está vivo e com
saúde. Se estive murchando, indica que está
doente, passando mal. E se estive seco é porque já
morreu.
Combinaram, plantaram os galhos, se despedirem e cada um
seguiu pr´um lado.
O que seguiu o caminho do riozinho, viajô, viajô
muitos dias até chegá numa grande cidade.
Lá, ele leu no jornal o anúncio que o rei
mando publicá. O anúncio dizia que se alguém
conseguisse salvá a filha dele, a princesa, que tinha
sido sorteada pra sê engolida por um bicho-de-sete-cabeças,
se casaria com ela.
Esse bicho vivia naquelas bandas, de cidade em cidade, pra
se alimentá. Se as autoridades não oferecessem
uma pessoa pra ele comê, ele destruía a cidade
inteira.
O moço ficô entusiasmado em conhecê a
princesa. Tomô informações e saiu à
procura dela. Andô pela estrada e encontrô a
coitadinha sentada num barranco, perto de uma mata, esperando
a hora de sê engolida pelo enorme bicho. Era a princesa
mais linda deste mundo. A roupa dela era maravilhosa. O
vestido tinha sete saias. Os cabelos dela eram loiros e
os olhos azuis. Era até um pecado deixá o
bicho engoli uma moça tão linda.
O moço foi chegando de mansinho e, com muita delicadeza,
disse:
- Como vai, princesa? O que está fazendo aqui, sozinha?
Ela, com ar muito triste, respondeu:
- O meu fim é triste. Estô aqui esperando a
hora de sê engolida por um bicho medonho, de sete
cabeças. Fui destinada para isto.
O moço, com muito jeito, chegô rentinho dela
e sentô. A princesa, muito preocupada, disse:
- Eu acho bom você não ficá aqui. O
bicho pode chegá agora e engoli você também.
Mas, o moço não deu muita importância
pr´a conversa da princesa e não saiu de lá.
Alisava os cabelos dela e dava muita coragem pra ela. Ela
também começô a fazê cafuné
no moço. E, de repente, ela adormeceu. Então,
ele aproveitô a oportunidade e corto um pedaço
de cada uma das sete saias e guardo no bolso do paletó
dele. Fico ali mais um tempinho e nisso a princesa acordô.
Nesse momento eles começaram a ouvi um barulho que
vinha por perto: chué, chué, chué!
Era o bicho faminto que se aproximava da princesa.
O moço deu um beijo na testa da princesa e correu
pra junto do cavalo. Quando o bicho estava pertinho dela,
ele gritô:
- Pula na garupa do meu cavalo, que eu te salvo.
Imediatamente ela pulô e o moço gritô:
- Pisa meu cavalo, corta minha espada e avança meu
Leão (nome do cachorro).
Num instante deram fim ao monstro. Aí o moço
pegô a espada e cortô a metade da língua
de cada cabeça do bicho e guardô dentro de
um embornal. Deixô o bichão mortinho, na estrada,
e foi levá a princesa pr´o palácio.
Ninguém viu os dois indo pra lá. Quando eles
se separô, a princesa deu pr´o moço um
cachorrinho bem ensinado, que obedecia todas as ordens.
O moço arrumô hospedagem bem perto do palácio.
Depois de pouco tempo, passô naquela estada um carroceiro
preto, com a roupa toda suja de carvão. Viu o bicho-de-sete-cabeças
morto, estendido no chão, e teve uma brilhante idéia.
Ele também tinha lido no jornal a notícia
que o rei publicô: casamento da princesa com quem
conseguisse livrá ela do monstro perigoso.
Não pensô duas vezes. Apanhou um facão
que levava, cortô as sete cabeças, pôs
na carroça e foi pr´o palácio.
No caminho ele pensava:
- Vô mudá a minha vida. Vô casá
co´a filha do rei.
Chegô no palácio, pediu pr´o criado ir
chama o rei e se apresentô como salvador da princesa.
E entregô as provas, as sete cabeças.
O rei disse pr´o criado:
- Prepare um banho e melhores roupas para este moço.
Ele vai sê meu genro. Palavra de rei não volta
atrás. E já mandô prepará uma
grande festa pr´o noivado e casamento da filha.
A princesa, muito tristonha, falo pr´o rei:
- Papai, não foi este moço que me salvô.
Foi outro. Eu não quero casáa com este. Ele
está mentindo.
O rei respondeu pra ela:
- Como não foi este? Ele trouxe a prova, as sete
cabeças do monstro que ele matôo. Você
não qué casá com ele, porque ele é
preto. Mas, vai te que casá, porque eu dei a minha
palavra.
A princesa tentava explicáa, mas o pai não
mudava de idéia. Então o único consolo
dela era chorá.
No dia seguinte, logo de manhã, começô
a grande festa.
O moço convidô o cachorrinho e foram pra porta
do palácio. Quando foi servida a primeira mesada
de comidas e bebidas, o noivo negro pôs muita comida
no prato, mas quando foi levá a primeira garfada
na boca, o moço deu ordem pr´o cachorrinho:
- Vai lá e derruba o prato dele no chão.
O cachorro atendeu. O noivo já estava soltando fogo
pelos olhos, de tão nervoso. E gritava:
- Não tem ninguém neste palácio pra
tomá conta e não deixá este cachorro
vagabundo entrá no salão de banquete?
Mas, o cachorrinho fez otras, otras e otras, obedecendo
às ordens do moço.
A noiva, inconformada com o noivo que não era do
gosto dela, chorava o tempo todo, de tanto desespero.
O rei começô a ficá desconfiado da situação.
Na hora de saí o casamento, o rapaz entrô no
palácio, gritando:
- Pára, pára, pára com esse casamento
falso!
Aí, o rei, embora já tivesse dado a sua palavra,
percebeu que alguma coisa estava errada, voltô atrás
e mandô pará a cerimônia.
O moço perguntô:
- O que está acontecendo aqui?
O rei falô:
- É que este noivo mato o bicho-de-sete-cabeças,
então ele vai casá com a princesa, minha filha.
O moço perguntô:
- Vossa Majestade tem a prova de que foi ele mesmo que matô
o bicho?
- Sim, tenho.
- E o que é?
- São as sete cabeças do bicho.
- E nas sete cabeças as línguas estão
inteiras?
O rei mandô verifica e viu que não estavam.
O moço respondeu:
- São estas as partes da língua que faltam.
E, estão aqui todas as sete.
Então o moço tirô do embornal as sete
pontas das línguas e pediu pra ir verificá
se elas completam as línguas do monstro.
E eram mesmo as pontas das línguas dele.
A princesa continuava dizendo pr´o pai:
- É esse moço aí, papai, que me salvô.
O noivo negro bufava de raiva.Queria matá o moço
visitante.
Mas, o moço fez outra pergunta pr´o rei:
- O vestido da princesa, naquele dia que ela ia sê
devorada pelo bicho, quantas saias ela usava?
O rei respondeu:
- Eram sete saias.
Então, o moço tirô no bolso do meu paletó
os sete pedacinhos das saias e pediu pr´o rei mandá
ir verificá se não estava faltando um pedaço
de cada uma delas.
O rei chegou à conclusão de que tudo o que
o moço falava era a pura verdade. Virô pr´o
moço e perguntô:
- O que que você qué que eu faça com
este noivo mentiroso?
O moço respondeu:
- Quero que asse ele numa fornalha.
E foi isto que o rei mandô fazê.
A festa no palácio continuô, mas desta vez
com o noivo verdadeiro. O casamento foi maravilhoso e a
festa durô três dias.
Terminada a festa, o rei deu um palácio muito chique
para o novo casal.
No dia seguinte, o esposo da princesa se levantô e
foi para a área do palácio. De lá ele
avistô uma torre, muito distante, e perguntô
pra mulher:
- O que é aquela torre lá longe?
Ela respondeu:
- É a torre da Babilônia. Quem fô lá
não retorna nunca mais.
O marido ficô curioso por sabê o que tinha lá,
queria descobri aquele mistério, mas não disse
nada pra esposa.
No dia seguinte, de manhã, ele pediu pra esposa prepará
uma merenda, que ele ia viajá, mas voltava logo.
Montô no cavalo, levô a espada e o Leão
e foi pará na torre da Babilônia.
Quando foi chegando, uma velhinha foguetera, assanhada,
foi dizendo:
- Chega pra cá, meu filho, vamos dançá.
Ela balançava os braços, requebrava-se toda
e sorria muito contente: quié, quié, quié!
Depois, ela arrancô um fio de cabelo e disse pr´o
moço.
- Vai lá e amarra o teu cavalo!
Em seguida, ela tirô outro fio e mandô ele ir
amarrá o cachorro. E com outro fio, mandô amarrá
a espada. O bobo do moço obedeceu todas as ordens
da velha.
Aí ela chamô ele pra continuá dançando.
Ele foi. A velhinha se rebolava, fazia graça, girava
o corpo dele, cantava, ria. O moço quis acompanhá
os movimentos da velha, mas percebeu que estava ficando
fora de si e gritô:
- Pisa meu cavalo, corta minha espada e avança meu
Leão.
E a velha falo:
- Engrossa, meu cabelão!
Nisso os cabelos dela viraram grossas correntes de aço
que ninguém dava conta de rompê-las. Foi nessa
hora que a velha encantô o moço, o cavalo,
a espada e o cachorro. Saiu vitoriosa. E o moço lá
ficô, sem podê retorná.
A princesa, no palácio, aguardava ansiosa a volta
do esposo.
Nesse meio de tempo, o outro irmão gêmeo, que
estava pras otras bandas, sentiu saudades do irmão
e resolveu ir naquele barranco e vê como estava o
galho que o irmão plantô. Chegô e encontrô
o galho murcho, quase secando. Pensô:
- Ele está muito mal. Vô atrás dele.
Tomô a direção que o irmão tinha
tomado e saiu galopando o seu cavalo: placatá, placatá,
placatá.
Andô, andô, andô até chegá
numa cidade grande. Quando ele ia passando perto do palácio,
ele viu na área uma moça sorridente que acenava
um lenço branco pra ele. Ela estava muito contente.
Falô pra ele mesmo:
- Deve sê da família.
E a moça falava bem alto:
- Vem pra cá logo, meu bem.
Aí, ele já não tinha mais dúvida.
E dizia:
- Esta é a noiva ou mulher de mau irmão. Ela
está pensando que eu sô o meu irmão.
E ela tem razão, nós somos gêmeos.
E resolveu ir no palácio.
Chegô, entrô e a princesa disse:
- Eu já estava morrendo de saudade de você.
Por que se demorô tanto pra voltá?
O moço entrô meio ressabiado. Logo a princesa
serviu o almoço. Ele comeu pouco. Conversô
pouco também.
A princesa achou o marido meio diferente, muito preocupado.
Quando chegô a hora de ir dormir, o moço estava
desapontado. Mas, pra não deixá-la aborrecida,
foi se deita co´ela. Deitô e botô a espada
separando um do outro. A princesa achô aquilo estranho,
ficô aborrecida com a atitude do esposo e até
chorô pelo desprezo que ele estava dando.
No outro dia, ele levantô muito cedo. A princesa também
se levantô e foi prepara o café. Tomaram o
café e o moço saiu pra área. De lá
ele viu a torre muito distante e perguntô:
- O que é aquela torre lá longe?
A princesa respondeu:
- Não te disse, ainda ontem, que é a torre
da Babilônia e que toda a pessoa que fô lá
nunca mais retorna?
O moço logo compreendeu que o irmão devia
estar lá.
Pediu pr´a princesa arrumá uma merenda, porque
ele ia dá um passeio pelos campos, mas não
ia demorá.
Montô no cavalo, já com a espada, e foi acompanhado
pelo cachorro, também chamado Leão. Andô
muito e chegô na torre da Babilônia.
A velhinha, quando viu o rapaz, já foi dizendo:
- Vem chegando, meu filho. Vamos dançá, vem,
vem. E cantava: lá, lá,lá,lá...
E ria demais. Pegô ele pelos braços e rodava,
dançava, pulava.
De repente, ela parô de dançá, tirô
um fio de cabelo dela e pediu pra ele ir amarrá o
cavalo. O moço fez que amarrô, mas não
amarrô. Do mesmo jeito ele fez quando ela pediu pra
ele ir amarrá a espada e o cachorro.
Depois ela falô pro moço:
- Vamos continuá dançando. O moço dançô
mais um pouco, mas quando ele percebeu que ia se transformá,
ele gritô:
- Pisa meu cavalo, corta minha espada e avança meu
Leão.
E a velhinha pediu:
- Engrossa meu cabelão.
Nessa hora uma voz respondeu:
- Como eu posso engrossá, se eu estô no chão?
E o cavalo pisô, a espada cortô e o cachorro
avançô contra a velhinha.
Ela gritava:
- Parem, parem, Eu vô morrê.
Então o moço disse pra ela:
- Eu só mando pará se a senhora dé
conta do meu irmão que a senhora encantô, senão
a senhora vai morrê.
A velha não teve outro jeito. Pra não morrê,
ela desencantô o moço, a espada e os animais.
Quando os dois se viram, ficaram muito alegres, se abraçaram.
Na conversa o moço falô pr´o moço
desencantado:
- Eu fui no palácio e a princesa me confundiu. Eu
até dormi com ela, separado pela minha espada.
O marido da princesa não esperô por otras palavras.
Ergueu a espada e cortô o pescoço do irmão,
dizendo:
- Irmão injusto. Dormiu com minha esposa e ainda
veio me contá.
Deixô o irmão morto, cabeça separada
do corpo, lá na torre, e voltô pr´o palácio.
Quando ele chegô, a espada toda alegre veio recebê-lo
e disse:
- Ontem você parecia um estranho, desanimado. Comeu
pouquinho e não conversô comigo, Na hora de
dormir, botô a espada separando nós dois. Hoje
você está diferente, alegre e conversado. Graças
a Deus.
Na hora ele pensô:
- Oi, meu Deus, matei meu próprio irmão, injustamente.
Ele era fiel e inocente.
E montô a cavalo e saiu correndo lá pra torre.
Chegô e já foi falando pra velhinha:
- Eu matei injustamente o meu irmão. Eu quero que
a senhora junte a cabeça no corpo e faça ele
vivê novamente.
A velha, com muito medo do moço deu um remédio
e pediu pra ele passá nas partes cortadas e juntá
elas outra vez. Ele viveu.
Então eles se abraçaram novamente. O que cortô
a cabeça do outro pediu perdão. Conversaram
muito tempo e um contô pr´o outro tudo o que
aconteceu durante a separação. Depois tiveram
uma idéia.
- Vamos matá essa velhinha? Assim ela não
faz maldade pra mais ninguém, encantando as pessoas
que por aqui passam.
Amarraram um braço e uma perna da velha num cavalo
e o outro braço e a outra perna notro cavalo. Montaram
nos animais e cortaram eles na espora. Arrebentaram a feiticeira
em muitos pedaços.
Depois voltaram pr´o palácio. Lá chegando
um deles perguntô pra princesa:
- Quem de nós é o seu marido?
Ela falô:
- Quem é o meu marido, dê um passo adiante.
Aí, todos se abraçaram. Viveram juntos e feliz
no palácio por muitos anos”.
Contado por José de Sousa Júnior, 61 anos
(1990), pouca instrução, comerciante, residente
na Rua Dr. Otávio Lopes Ferraz, 419 – Bairro
São José – Olímpia.
7 – A VAQUINHA AMARELA
“Num povoado vivia uma mulher que tinha dois filhos:
uma moça e um mocinho. Era uma família pobre,
mas criava uma vaquinha amarela, no quintal. Um dia a moça
ficô noiva e marcô casamento. O menino gostava
muito da irmã e falô pra mãe:
- Mãe, eu vô vendê a vaquinha amarela
e com o dinheiro, vamos fazê uma festinha no dia do
casamento da minha irmã. Falta alguns meses pro´o
casamento, mas já é bom ir pensando o que
vamos fazê.
A mãe falô pra ele:
- Não, meu filho, nós somos pobres e não
precisamos fazê festa no dia do casamento. Nós
temos só essa vaquinha, se você vendê
fica pior. Aí nós ficamos mais pobre ainda.
Mas o menino queria porque queria fazê a festa e disse
pra mãe:
- Eu vô vendê a vaquinha amarela e depois eu
trabalho e compro outra vaca pra nós.
A mãe viu que não dava pé insistir
c´o filho e deu consentimento pra ele vendê-la.
O menino amarrô uma corda no pescoço da vaca
e saiu puxando ela pra rua, pra vendê.
Quando ele ia passando diante da casa de três ladrões,
três irmãos, um deles perguntô:
- Ó menino, você está vendendo essa
vaca?
Ele respondeu:
- Estou vendendo sim.
- Então nós queremos compra, mas você
vem buscá o dinheiro amanhã.
O menino concordo, entrego a vaca e foi pra casa.
Chegando em casa, ele contô pra mãe que já
tinha vendido a vaquinha, mas só no outro dia ele
ia recebê o dinheiro.
No outro dia, logo que o sol nasceu, ele foi na casa dos
três ladrões pra recebê o dinheiro.Cobrô,
cobrô, cobrô e os ladrões nem deram importância.
Então ele foi pra casa e ficô estudando um
jeito pra recebê o dinheiro.
O tempo foi passando e nesse meio tempo um dos ladrões
ficou muito adoentado. Depois de muito pensar, o mocinho
teve uma idéia. Arrumô uma roupa de médico
e saiu, a pé, pela ruas. Quando estava passando na
frente da casa dos três caloteiros, um deles disse:
- Aí, está passando um médico. Nosso
irmão está passando tão mal. Vamos
chamá-lo.
O médico entrô na casa e disse:
- Eu vô atende, só que eu estô sem o
equipamento.
Um deles disse:
- Diga onde está que eu vô buscá-lo.
Saiu apressado. Mal ele se retirô da casa, o médico
disse:
- Ó, meu Deus, a peça que eu mais preciso
esqueci de dizê aonde ela está.
O outro ladrão disse:
- Diga aonde está que eu vou buscá-la.
Quando o médico se viu só com o doente, passô
a mão num relho e deu uma boa tunda no doente, dizendo:
- Eu quero o dinheiro da vaquinha amarela, senão
vô te matá de tanto te bate.
Então o ladrão doente disse:
- Pára, pára, pára, o dinheiro está
aqui.
Catô o dinheiro e foi-se embora.
Quando os dois ladrões chegaram, não encontraram
o médico.
O doente disse:
- Que médico, que nada, aquele rapaz era o dono da
vaquinha amarela. Me deu uma surra tão grande e eu
tive que pagá-lo.
O menino chegô em casa, entregô o dinheiro pra
mãe e disse:
- Mãe, o primeiro pagamento está aqui, mas
tem mais.
No dia seguinte, o mocinho se vestiu de padre , e foi, de
propósito, passá na frente da casa dos ladrões.
Um deles disse:
- Aí, vai passando um padre. Nosso irmão está
muito mal e precisa de recebê a extrema-unção.
Vamos chamá-lo.
- Pare, padre, dê uma chegada aqui em casa. O senhor
pode dá a extrema-unção pr´o
meu irmão? Ele está muito mal.
- Posso sim, mas eu não estô c´os apetrechos
de serviço.
- Diga onde estão que eu vô buscá-los,
disse um deles.
Depois que ele saiu, o padre falo:
- É só me dizê onde ela está
que eu vô buscá-la.
E saiu bem rápido.
Mal o padre se viu só com o doente, arrancô
o chicote de dentro da batina e lepe, lepe,lepe! No doente.
Eu sô o menino da vaquinha amarela e quero recebê
o dinheiro.
- Chega, menino, chega de me batê. O dinheiro está
aqui.
O menino pegô o dinheiro e se mandô.
Quando os dois irmãos chegaram em casa e não
viram o padre, perguntaro:
- Onde está o padre?
- Que padre. Era outra vez o rapazinho da vaquinha amarela.
Me bateu demais, quase me matô e levô o dinheiro.
O menino chegô em casa, entregô o dinheiro da
mãe, dizendo:
- Este é o segundo pagamento, mãe. Mas tem
mais.
Os ladrões ficaram com muito medo do menino e acharam
que não deviam fica morando ali. Eles tinham que
se mudá pra outro lugá senão o mocinho
acabava com a vida deles.
Arranjaram uma outra casa, bem longe daquele lugá.
O mocinho da vaquinha amarela ficôo sabendo o dia
da mudança e combinô com outro menino, um colega
dele, o seguinte:
- Nessa estrada aqui perto dessa mata, vão passá
dois homens carregando um doente.
Eu te dô um tanto pra você ficá por aqui
e, na hora que eles estivé passando, você grita:
- Paga minha vaquinha amarela, cambada de sem-vergonhas.
E sai depressa pra dentro do mato, mas não deixe
eles te pegá. Se eles te pega eles te mata.
Dito e feito. Eles iam passando, carregando o doente num
bangolê (bangüê) e o menino gritô.
Os dois ladrões deixaram o doente sozinho e se puseram
a corrê atrás do menino.
O menino da vaquinha estava escondido ali por perto e, quando
os ladrões estavam atrás do menino que xingô,
ele foi pra junto do doente e deu umas boas guascadas nele,
falando:
- Paga a minha vaquinha amarela! Paga a minha vaquinha amarela!
E pá, pá, pá! No ladrão doente.
O doente disse:
- Não precisa me bate tanto assim. Você acaba
me matando. O dinheiro está aqui.
Quando os dois ladrões chegaram do meio do mato,
sem te alcançado o menino que estavam atrás,
o doente falo:
- Na hora que vocês saíram correndo atrás
daquele menino que tapeô nós, o rapazinho da
vaquinha amarela veio aqui, me deu uma sova que quase morri
e ainda levo o resto do dinheiro que nós trazia.
Recebeu novamente o preço da vaquinha. Agora não
temos mais nem um réis.
O menino deu um pouco do dinheiro pr´o ajudante dele
e o restante levô pra mãe.
A mãe falou admirada:
- Meu filho, pra que tanto dinheiro? Nossa vaquinha não
valia tudo isso.
- Não tem importância, mãe. Deu muito
trabalho pra recebê dos três ladrões
que compraram a vaquinha. O dinheiro que passá é
o juro que eles tiveram que me pagá.
Aí, né, os dois irmãos resolvero ir
pra cidade, levá o irmão todo espancado pra
fazê curativo e também roubá mais alguma
coisa pra tê algum dinheirinho pra vivê.
Chegando na cidade, resolvero fazê um roubo num prédio.
Mas o mocinho, que era o dono da vaca amarelinha, escutô
o assunto quando eles estavam combinando. E disse consigo:
- Deixa estar que eu vô pegá vocês mais
uma vez.
Os dois ladrões, depois que o irmão melhorô
da grande surra, combinaro o dia, a hora e o prédio
onde iam robá.
O mocinho, meio afastado, tomava conhecimento de tudo o
que eles tavam planejando.
Quando tudo ficô certo entre eles, o mocinho da vaca
amarelinha foi na casa do dono do prédio e contô
tudo que tava se passando.
O dono do prédio perguntô:
- Como você sabe disso?
Ele respondeu:
- Eu escutei tudo. E tem mais: eu não gosto deles.
Se o senhor quisé, eu fico de guarda esta noite,
vigiando o seu prédio.
- Tudo combinado, disse o homem. Pode ir.
Então, o mocinho mandô fazê três
marcas de ferráa boi: uma com o número um,
a segunda com o número dois e a outro com o número
três.
Arrumou um feixe de lenha, fez uma fogueirinha na altura
do andar onde eles iam roubá e deixô as marcas
queimando nas brasas.
Tarde da noite, sobe o primeiro ladrão, o que estava
doente, ainda muito fraco, puxado por duas grossas cordas,
numa carretilha. Quando ia chegando, o mocinho ferrô-lhe
na perna a marca número um. Ele gritô de dor,
dizendo que estava sendo queimado e os irmãos desceram
a corda. Um deles disse:
- Você é um covarde. Deixa que agora vô
eu.
Subiu. O mocinho agiu da mesma forma. Ferrô na perna
dele a marca número dois.
Ele gritou que estava sendo queimado na perna e pediu pra
descê.
Quando chegô cá embaixo, o outro irmão
disse:
- O que está acontecendo? Você do dia pra noite
virô medroso. Sai daí que agora vô eu.
Subiu. Com ele aconteceu a mesma coisa. Ficô ferrado
a fogo, na perna com a marca de número três.
Também gritô e pediu pra descê.
Então, perceberam que estavam sendo perseguidos,
que nem ladrões podiam ser. E resolveram ir trabalhar.
Legalizaram os documentos e foram trabalhar como polícia.
O roubo não aconteceu e o mocinho ganhô uma
boa gratificação.
Nesse meio tempo, o menino descobriu o nome de cada um deles,
foi ao cartório e fez o registro como se os três
lhe pertencessem como escravos e que traziam o número
na barriga da perna, do lado esquerdo.
Pegou o documento, foi na delegacia e disse pr´o delegado:
- Aqui tem três polícias que me pertencem,
porque são meus escravos. São aqueles três
que estão ali.
O delegado chamou os três e eles responderam:
- Nós nunca fomos escravos de ninguém
O delegado então falô:
- Deixe eu examiná a perna esquerda de cada um.
E ficô comprovado o que estava no documento. Eram
escravos do mocinho. Naquele tempo existia isso.
O mocinho falô pro delegado:
- A partir de hoje, eles não me pertencem, porque
eu vendi pra um grande fazendeiro daqui e peço pr´o
senhor mandá levá-los pra lá. Até
já recebi o dinheiro pelo negócio. E deu o
endereço.
Com isso, ficô vingado o caso da vaca amarelinha.
Passado tudo isso, quase meio ano, com o dinheiro que o
mocinho conseguiu, organizô uma bela festa de casamento
pra irmã e ainda comprô uma vaquinha pra ficá
no lugá da vaca amarela.
Convidô gente de todos os lados pra festança
do casório.
Acabô a estória com muita vitória”.
Contado por Antônio de Sousa, 53 anos (1983), pouca
instrução, barbeiro, residente na Rua Júlio
Ferranti, 243 – Bairro São José –
Olímpia.
8 – PACUERA! CUERA! CUERA!
“Diz que numa sexta-feira santa, o Seu Militão,
home de muita corage, mas sem religião, convidô
seu compadre, o Seu Zé, home religioso e de bão
coração, pra fazê uma caçada.
Seu Zé respondeu pra ele:
- Não, compadre, eu num posso i. Hoje é dia
santo, é a sexta-feira maior. É dia de rezá
e ficá em casa co´a famia. É muito perigoso
abusá desse dia. Por isso eu num quero i.
- Mas larga de bestera compade! Sexta-fera da Paxão
é dia igual os outro. Além do mais, nós
vamo caçá coisa de comê. E isso num
é pecado.
Seu Militão falô tanto que dexô o compade
Zé muito aborrecido. Então, o Seu Zé,
pra num ficá agüentano a tentação
do compade, topô de i, mas com muito medo. Num quis
fazê desfeita ao compade. E foi co´ele.
Arrearo dois cavalo bão, ajuntaro toda a traia da
caçada e foro acompanhado por dois cachorro perdiguero.
Chegaro no meio de uma grande mata. Seu Militão já
começô a atirá e num perdia um tiro.
Era só ave e otros animal que caía. O coitado
do Seu Zé, medroso, nem apontava a espingarda, com
receio de sê castigado.
Já estava chegano a noite e Seu Militão nem
sabia o que fazê pra levá tanta caça
pra casa. C´a ajuda do clarão da lua, pusero
toda a caça debaxo duma grande arve, enquanto pensava
num jeito pra saí dali. Mas já começaro
a sofrê, pois eles perdero a idéia de onde
estava. Num sabia nem mais o rumo da casa deles. Mas, num
incomodô co´isso não. Ele não
tinha medo de nada.
Seu Zé, coitado, só tremia e rezava. Nisso,
escutaro uma voz de muito longe:
- Pacuera! Cuera! Cuera!
Seu Militão respondia:
- Pode chega seu Pacuera, aqui tem muita carne pr´ocê
comê.
- E a voz falava mais forte:
- Pacuera! Cuera! Cuera!.
Seu Militão continuava insurtano.
De repente, apareceu diante deles um bruta bicho, um monstro,
feio, peludo, que sortava sangue pra boca e pr´o nariz.
Chegô, deu no monte de caça e começô
a devorá. Comeu, comeu, comeu, até vê
o fim. Depois falô:
- Quero maaaais! Tô com muita fome!.
Cumo não tinha mais caça, então o bicho
Pacuera comeu os dois cavalos e os cachorro de caça.
Seu Zé quase desmaiô de medo e teve a idéia
de subí naquela arvona.
Seu Militão nem se abalo. Muito metido, ficô
embaxo pra enfrentá o bicho esganado.
Quando Seu Zé subiu na arve, o chapéu dele
caiu no chão e ficô de boca pra cima. Mas,
quem diz dele desce pra panhá o chapéu.
Seu Militão começô a zombá do
compade Zé.
- Desce daí, seu porcaria, medroso. Vem busca o teu
chapéu. Larga de sê covarde. Dexa esse bicho
faminto por minha conta. Ele vai morrê na mira da
minha espingarda.
Aí, né, o bicho arregala aqueles oião
dele e fala mais gritado ainda:
- Pacuera! Cuera! Cuera! Eu quero mais carne. Tô com
muita foome!
- Num diga? Ah! Ocê ainda tá com fome? Espera
mais um poquinho que eu te vô dá de comê!
E apontô a espingarda pra ele.
Num foi preciso mais nada. O bicho deu um sarto e comeu
o Seu Militão, dexando só a cabeça
dele no chão.
Seu Zé, de cima da arve, quase morreu de arrependimento
de tê ido caçá. Tremia e rezava, rezava
e tremia de fazê dó. Só não caiu
da arve, porque pedia proteção pra tudo que
é santo.
Foi nessa hora que apareceu uma véia, muito pobrezinha,
e falô pra ele:
- Dá três guspida na boca do teu chapéu
e despois desce daí e sai correno, correno como um
corisco, pra fora dessa mata. Corre sem pará e sem
oiá pra trás.
Falô e desapareceu. Essa véia era Nossa Senhora.
Também nessa hora o bicho Paxuera foi s´embora,
gritano:
- Pacuera! Cuera! Cuera! Pacuera...
Quando o bicho desapareceu, a cabeça do Seu Militão
falô:
- Agora ocê pode desce daí, medroso. O perigo
já passo.
E o guspe de dentro do chapéu respondeu:
- Eu num posso descê, tô cum nó nas tripa.
Tá doeno demais.
Mas, Seu Zé desceu da arve e saiu correno igual uma
ventania. Corria, corria, corria e a cabeça do Seu
Militão acompanhava ele.
Depois de muito corrê, Seu Zé encontrô
uma capela que tava co´a porta aberta e entrô
dentro dela.
Mas, quando chegô na porta da capela, a cabeça
parô de rolá, deu um estorô, ficô
aquele chero fedido de enxofre. Virô diabo e foi pr´os
inferno.
Depois de passado o susto, Seu Zé, guiado por Nossa
Senhora, vortô pra casa. Dessa vez ele escapô
de te um castigo maior.
Num presta abusá de sexta-fera santa. Cruz, Credo!”.
Contado pela Srª Fátima Aparecida Provásio
de Miranda, 26 anos (1980), pouca instrução,
do lar,residente na Rua Marreto, 191 – Vila Nova –
Olímpia.
9 – O MÉDICO APRENDIZ
“Era uma vez um médico que não era
lá grande coisa. Sabia muito pouco de medicina.
Apesar de pouco inteligente, sempre teve uma boa clientela,
porque quem ficava doente queria sarar e por isso procurava
aquele doutor.
E assim vivia o médico receitando chazinhos, garrafadas,
suadores, dietas, coisas que qualquer curandeiro era capaz
de fazer. Mas, tinha boa vontade, queria curar todos os
doentes que o procuravam.
Tinha uma caderneta para anotar os remédios que receitava
e os resultados que obtinha. Sempre que era visitado por
um novo doente, perguntava o que ele estava sentindo e depois
da descrição, com muita calma, fazia uma consulta
à caderneta pra ver se já tinha curado caso
igual. Se tinha, receitava o mesmo remédio que estava
anotado e produzido efeito.
Certo dia apareceu no consultório um senhor já
meio idoso, atacado de maleita e o doutor lhe receitou muitos
comprimidos e xaropes. Mas, o doente cada vez estava mais
magro. Ia de mal a pior. Ficou tão fraquinho que
dava para enxergar até os ossinhos. Ficou em pêlo
e ossos.
O doutor, cansado de receitar tantos remédios, sem
alcançar nenhum resultado, chegou a ficar desanimado.
O doente sentia tanta fraqueza, mas tinha uma fome de leão.
Sentindo que ia morrer, mandou chamar o médico e
com voz fraquinha disse:
- Doutor será que eu posso comer sardinha assada
de que eu tanto gosto e tomar um copo de vinho.
O médico, percebendo que o caso não tinha
jeito mesmo, quis satisfazer a última vontade do
doente.
- Pode comer sim. Quem sabe isto até lhe faça
bem.
A mulher do doente preparou uma pratada de sardinha assada.
O homem comeu todo feito um esganado que há muito
tempo não comia. Depois tomou um belo copo de bom
vinho tinto. Em seguida deitou e dormiu um sono tranqüilo,
durante muitas horas.
No dia seguinte, o médico foi visitar o paciente,
na certeza de que fosse encontrá-lo morto.
Mas, ficou surpreso, pois o encontrou sentado na cama, conversando,
rindo e contando anedotas.
O doutor ficou abobalhado. Quem diria que a sardinha pudesse
curar o seu paciente desenganado.
Vitorioso, tirou a caderneta do bolso e anotou:
Contra maleita, um prato de sardinha assada e um copo de
vinho tinto. E foi-se embora.
Passado algum tempo, o médico foi chamado à
casa de um outro doente, o alfaiate do lugar. Chegando a
casa encontrou o alfaiate na cama com maleita, muita febre
e calafrios. Caso igualzinho ao do outro doente que ficou
bom.
Ouviu o paciente demoradamente. Tirou do bolso a caderneta,
folheou e viu a anotação. Não teve
dúvida. Receitou uma pratada de muita sardinha assada
e um copo grande de vinho tinto. E foi embora.
No outro dia, bem cedo, foi um mensageiro a sua casa pedindo
que fosse depressa à casa do alfaiate, que parecia
estar morto.
O médico foi depressa e quando chegou viu que, de
fato, tinha morrido, durante a noite, logo depois que comeu
sardinhas e tomou vinho.
Ficou muito sem graça. Pois tinha a certeza de que
o paciente ficaria são e que iria encontra-lo costurando
calças, colete e paletó. E estava morto, sem
nenhuma explicação. Não podia compreender.
E perguntava para si mesmo:
- Por que deu certo ao primeiro doente e a este não?
Ali havia alguma coisa!
Pensou, pensou, pensou. Pediu à mulher que fosse
buscar a sobra de sardinha e do vinho. Examinou, provou
fazendo caretas. O caso estava mesmo complicado.
Mas, como nada mais podia fazer, ele se conformou.
Enfiou a mão no bolso, tirou a caderneta, abriu na
página onde estava a receita, releu-a vagarosamente:
Contra maleita, um prato de sardinha assada e um copo de
vinho tinto. E, muito convencido, acrescentou na mesma linha:
Mas, não dá resultado se o doente for alfaiate.
Acabou a história
E viva a vitória.”
Contado por Sebastião Jesus de Oliveira, 54 anos
(1975), instrução primária, pecuarista,
residente na Rua Bernardino de Campos, 900 – Olímpia-SP
10 – ANTRECOSTO
“Era uma vez um moço chamado Antrecosto. Era
um moço bonito, mas não tinha as pernas. Era
encantado. Então a mãe dele conduzia ele numa
bandeja, daqui pra ali. Dava muito trabaio.
Então um dia, um vizinho foi passeá na casa
dele e uma moça foi junto. A moça acho o moço
muito bonito e gosto muito do Antrecosto.
Aí ela falo pra mãe do Antrecosto que ela
estava apaxonada pelo moço e que queria namora e
casa co´ele. E pediu consentimento pra mãe
do moço.
A mãe do Antrecosto falô:
- Mas não pode. Meu filho é desse jeito e
dá muito trabaio. Só eu sei como é
que cuida dele. Dá muito trabaio.
A moça respondeu:
- Não tem importância. A senhora consentino
eu sujeito a fazê pr´ele tudo o que a senhora
tem feito. Eu gosto muito dele.
Então ficaro namorano bastante tempo e quando foi
um dia decidiro. Marcaro o casamento, tudo certinho. Aí
no dia do casamento, antes de i pra igreja, ele falô
pra noiva:
- Você leva um lenço no seu bolso. Lá
na igreja, à hora que o padre falá o teu nome
e o meu, você joga o lenço no chão e
chama três vez: Antrecosto, Antrecosto, Antrecosto.
Eu transformo num moço perfeito, nós casa
e vamo pra casa. Depois nós vamo pra casa tudo de
cavalo. Só que na hora que nós chegá
em casa co´aquele bando de gente esperano, você
não fala pra ninguém quem sô eu, enquanto
eu não pusé os dois pé no chão,
senão eu torno a encantá de novo e, desta
vez, vô virá um urubu de uma perna só
e desaparecê no mundo.
O padre fez o casamento e a noiva fez tudo do jeito que
o noivo explicô.
Terminô o casamento e foro tudo em acompanhamento
montado a cavalo pra casa.
Na hora que chego em casa, tinha um montão de gente
esperano, tudo curioso pra sabê quem era o noivo,
porque ninguém conhecia ele.
Quando o noivo pôs um pé no chão e tava
ainda c´o outro no estrivo, argúem pertuntô:
- Quem é o noivo?
A noiva muito contente, respondeu:
- Meu noivo é este aqui.
O noivo falô pra ela:
- Ô, ingrata! Eu falei pra vocês não
fala antes da hora certa.
E já se transformô num urubu de uma perna só
e desapareceu para junto da mãe dele, dizendo:
- Se um dia você quisé me achá, você
só vai me achá na Ilha da Aldeia dos Urubu.
E sumiu.
Aí a moça ficô suzinha, desesperada,
pensano no noivo e saiu andano no mundo, caçano vê
se achava a Ilha dos Urubu.
Aí, um dia ela chegô numa casinha muito pobrezinha,
muito feinha e encontrô uma veinha (velhinha) fazendo
comida. Aí ela perguntô pra ela se ela não
sabia onde era a Ilha dos Urubu.
A veinha falô pra ela:
- Ó minha fia, o que é que você veio
fazê aqui? Aqui é a casa do Ventão.
À hora que ele chegá aqui ele te devora, porque
ele vai senti chero de carne humana.
Aí ela contô toda a história pra veinha
e a veinha pediu pra ela se amoitá atrás da
porta. E falô assim, quando o meu fio chegá,
ele já vai senti o teu chero. A moça foi pra
detrás da porta.
Quando foi de tardezinha, o Ventão chegô todo
brabo, falano pra mãe dele que tinha carne humana
e sangue real e que ele queria comê.
A mãe falo:
- Não, meu fio, não é isso. Hoje eu
matei um frango pra fazê tua janta. É esse
chero que você tá sentino.
Quando ela pôs a janta na mesa, ela falô pro
Ventão:
- Ó, meu fio, se aparecesse uma moça procurano
o noivo dela que sumiu no dia do casamento, você podia
conversá co´ela e ensiná onde fica a
aldeia que procura ou dizê se você conhece o
moço que ela tá procurano?
- Ah! Mãe, pode chamá ela. Se eu subé,
eu posso expricá pra ela.
Aí chamô a moça e ela contô a
história pr´o Ventão.
O Ventão falô:
- Óia, eu não sei aonde fica essa Ilha dos
Urubu. Eu já andei por todos os lado, mas nunca achei
ela. Quem pode achá é o Ventinho. O Ventinho
em tudo quando é buraco entra. Amanhã cedo,
se quisé, eu levo você na casa do Ventinho
e você pergunta pra ele se ele sabe onde é.
A moça jantô e dormiu na casa do Ventão.
No dia seguinte, ela montô no Ventão e foi.
Chegô perto da casa do Ventinho, o Ventão parô
pra ela descê e falô:
- Ali é a casa do Ventinho. Você vai lá
pra vê se consegue descobri onde é essa tal
Ilha dos Urubu.
A moça foi pra lá e encontrô outra veinha
fazeno comida. Cumprimentô e já foi contano
a história dela.
A véia falô:
- Minha fia, meu fio é tão brabo. O que é
que você veio fazê aqui? Se meu fio chegá,
ele te mata e te devora.
A moça, com muita tristeza, contô que no dia
do casamento o noivo dela se encantô e virô
urubu e tinha sumido. Agora ela tava procurando ele e queria
a ajuda do Ventinho.
A veia ficô com dó e falô pra ela se
amoitá atrás da porta. À hora que meu
fio vié jantá, eu falo co´ele. Então
eu acarmo ele, depois peço pra ele te ajudá.
A moça obedeceu e se amoitô atrás da
porta. De tardezinha o Ventinho chegô nervoso e gritano:
- Ô, minha mãe, aqui tem carne humana e sangue
real e eu quero comê.
- Não é não, meu fio. Hoje eu fiz um
frango pra você jantá.
Então o Ventinho se acarmô.
Quando ele foi jantá, a veinha falô:
- Ô meu fio, se aparecesse uma moça procurano
o noivo que sumiu no dia do casamento, será que você
podia ensiná pra ela, se subé, onde é
o lugá que ele tá.
- Ó minha mãe, se eu subé, eu ensino.
Chama ela.
Aí a moça veio e contô o caso pr´o
Ventinho.
Ele respondeu:
- Óia, eu ando por todo lado, mas não sei
onde é essa Ilha. Mas, hoje eu passei perto de um
buraco e não cheguei entrá. Às vez
pode sê lá. Hoje a senhora janta e posa aqui
com nós. Amanhã cedo eu vô lá
vê. Se fô, eu venho te buscá pra te levá.
No outro dia cedo, o Ventinho foi lá, entrô
no buraquinho, desceu e viu uma veinha acendendo o fogo.
Então ele entrô dentro do fogão e tacô
cinza nos óio da veinha.
A veinha falô, esfregano os óio:
- Ai, meu Deus, nunca ventô aqui nesse lugá.
Será que hoje vai acabá a Ilha dos Urubu.
Tá apareceno até vento aqui. Isso é
siná que a ilha vai acabá.
O Ventinho falô:
- É aqui mesmo.
Pegô e vortô pra trás. Chegô na
casa da mãe dele e falô pra moça:
- Achei a Ilha. Pode amontá aqui em mim que já
te levo pra lá A Ilha dos Urubu vai acabá
até meio-dia, em água.
Aí o Ventinho levô ela até lá
perto e falô:
- A Ilha dos Urubu é aquela ali. Lá é
a casa da veinha.
A veinha falô:
- Minha fia do céu, aqui é a Ilha dos Urubu,
mas meu fio é encantado. No dia do casamento, ele
encantô e veio pra cá, mas aqui é uma
cidade linda. E ele encantô tudo em gado. Hoje, ao
meio-dia, vai transformá tudo em água e pexe.
E o meu fio é o toro mais bonito que tem na invernada.
Então, ao meio-dia, ele vai reuní todo o gado
debaxo daquela figuera pra transformá em água.
Então, minha fia, pra você desencantá
ele, você fica em cima da figuera. Então, à
hora que ele chegá, você pula no pescoço
dele e chama, três vez: Antecosto, Antecosto, Antecosto.
Aí ele vai se transformá no seu noivo outra
vez. O gado vorta a sê gente e a cidade vorta a sê
o que era antigamente.
Então a moça foi pra cima da figuera e ficô.
No meio-dia, o toro veio na frente. Veio urrano, cavano
terra, bufano com o gadão muito bonito, seguino ele.
Chegô e ficôo bem embaxo do gaio da figuera
que ela tava. Ela pulô bem em cima do pescoço
dele e chamô:
- Antecosto, Antecosto, Antecosto, meu marido.
Ele transformô em home. Foro morá junto, o
lugá vortô a sê cidade de novo, o gado
virô tudo gente. E tá tudo em paz, até
hoje.”
Contado por Benedito Batista de Carvalho, 44 anos (1990),
pouca instrução, sapateiro, residente na Rua
Antônio Rebelato, 489 – Bairro São José
– Olímpia.
11 – O FAZENDEIRO QUE TENTOU TAPEAR A MORTE
“Era uma vez um fazendero muito rico. Tinha dinhero
que nem água. Era dono de uma grande fazenda, morava
num palacete mito bacana e tinha muitos empregado. Ele não
tinha famia e só queria levá a vida. Por ele
tê muito dinhero, era um forgadão. Fazia festa
pelo menos duas vez por semana. E dexava a vida corrê.
Num dia ele tava sentado no banco do jardim do palacete,
viu na frente dele um esqueleto, a coisa mais feia que se
pode imaginá. Era a Morte. Ela falô pra ele
assim:
- Os seus dia tão contado! Ouviu? Daqui um mês,
ao meio-dia, eu venho te buscá.
Falô essas coisa pr´o fazendero e desapareceu.
O fazendero começô, né, a se atrapaiá
todo, porque o que ele mais gostava era de vivê. Daquele
dia pra frente nem dormia mais. Ele tava com tanto medo
que nem contô pra ninguém. Mas tinha que dá
um jeito de enganã a fulana. Pensô até
em mudá de casa, pra morte não descobri ele
e dexá ele vivê mais um bom tempo. Quando fartava
um dia pra Morte vim, ele combinô com um empregado
assim:
- Amanhã, bem cedinho, você vem aqui pra casa
que eu preciso muito de você. Não vai esquecê.
Quando fô seis hora, já quero você aqui.
Naquela noite ele pegô o carro mais chique, todo cheio
de nove hora e foi guardá na casa de um amigo. E
depois ficô em casa o resto da noite, sem dormi, esperano
a esquifosa.
No outro dia, às seis hora, o empregado chegô
no palacete. E ele combinô co´o empregado o
que tinha que fazê.
- Você vai vesti a minha mió ropa, pô
paletó, gravata e chapéu e vai fica aqui dentro
de casa, co´as porta fechada, até depois de
mei-dia. Não atende ninguém, memo que chamá.
Fica bem quetinho. Não põe a cabeça
nem na janela. Depois eu exprico tudo pr´ocê.
Agora ocê vai me empresta a sua ropa, os carçado
e o chapéu.
Tudo foi feito.
Como o empregado tinha bigode e ele não, então
ele arranjô, né, um bigode postiço pra
ficá mais parecido co´ele. E foi lá
pr´o jardim do palacete, aguá as pranta.
Quando deu mei-dia em ponto, a Morte apareceu e falô
pra ele:
- O seu patrão tá? Eu quero falá co´ele.
Ele respondeu:
- Não, meu patrão precisô saí
pra fazê um grande negócio, comprá uma
boiada. Ele saiu de automove.
A Morte não gostô disso. Ficô muito contrariada,
mas falô pra ele:
- Eu vim pra mode levá seu patrão, mas como
ele não tá, pra mim não perdê
a viagem, eu levo você memo. Vamo-s´embora.”
Contado por Jesus Carlos Batista, 27 anos (1990), pouca
instrução, lavrador, residente na Rua Penha,
210 – Bairro São José – Olímpia
12 – O BOBO E O POTE DE OURO
“Havia uma mulher que tinha um filho bobo. Apesar
de atrapalhado, o menino era trabalhadô. Essa mulher
tinha muitas galinhas e colhia muitos ovos.
Certa vez ela ajuntô tantos ovos que já não
tinha mais lugá pra guardá eles. O menino
viu aquela grande quantidade de ovos em casa e pediu pra
mãe:
- Mãe, eu vô vendê esses ovos.
A mulher respondeu:
- Não, meu filho. Deixe os ovos aí. Você
não sabe negociá e vão querê
tapeá você.
O menino insistiu:
- Vô vendê sim, mãe. Tá sobrando
tanto ovo aqui em casa que não tem mais lugá
pra pô. Vô botá numa cesta uma porção
deles e vô saí vendendo pelas ruas.
A mãe viu que não tinha jeito de proibi o
menino, concordô co´a idéia, mas recomendô:
- Está bem, meu filho, pode i vendê os ovos,
mas vende eles pra quem conversá menos.
O menino ficô alegrão, pegô a cesta e
saiu pra rua.
Andô uns dois quarteirões e encontrô
um cachorro que veio pr´o lado dele, todo contente,
sacudindo o rabo. Então o menino perguntô pra
ele:
- Cachorro, você qué me comprá os ovos?
O cachorro fez agrado pr´o menino, botando duas patas
nos joelhos dele. O menino compreendeu que o cachorro estava
querendo comprá os ovos, e perguntô:
- Mas, você me paga amanhã?
O cachorro continuô fazendo agrado ao menino e ele,
então, entendeu que no outro dia o cachorro daria
o dinheiro pra ele.
Jogô os ovos no chão e o cachorro livrô
a barriga da miséria. Comeu todos os ovos.
O menino voltô pra casa e disse pra mãe que
tinha vendido os ovos e ia buscá o dinheiro no outro
dia.
Levantô bem de manhã e foi atrás do
cachorro.
Encontrô o cachorro deitado na porta da sala do dono
e foi logo falando:
- Vim recebê o dinheiro dos ovos!
Mas, desta vez o cachorro não se manifestô,
não fez nenhum agrado pr´o menino.
Ele tornô a falá, mas o cachorro continuô
quieto, nem se levantô do lugá.
O menino perdeu a paciência e disse:
- Cachorro vagabundo, sem-vergonha! Ontem você estava
com fome, me comprô os ovos e prometeu que ia me pagá.
Hoje, só porque ainda está co´a barriga
cheia, não me dá nem satisfação.
Espera aí que eu vô te ensiná.
Passô a mão num chicote de duas pernas e deu
uma tremenda surra no calotero. O coitado ganiu forte de
tanta dor que sentiu da sova que levô, que chamo a
atenção do dono.
O dono do cachorro se aproximô do menino e perguntô:
- Ó rapaz, o que você está fazendo aqui?
O menino explicô:
- Ontem eu vendi os ovos pra este cachorro. Ele comeu todos
ele e me prometeu pagá hoje, mas nem me deu atenção.
O homem disse:
- Por isso não precisa espancá o coitado.
Qual é o preço dos ovos.
O menino disse:
- É tanto.
O homem abriu a carteira, tirô o dinheiro e pagô
o menino.
Ele saiu correndo pra casa e foi levá o dinheiro
pra mãe.
A mãe ficô contente e falô pro menino:
- Parabéns, meu filho. Você está ficando
esperto.
O menino se sentiu um grande negociante. No outro dia ele
percebeu que tinha muita roupa que já não
servia mais pra ele e disse pra mãe que ia vendê-la.
A mãe tornô a recomendá:
- Cuidado, meu filho, Vende pra quem conversa menos.
Saiu com aquelas roupas debaixo do braço e, quando
ia passando num caminho estreito, um ramo de unha-de-gato
enroscô na trouxa que ele levava.
Ele virô depressa pra moita e perguntô:
- Oi, você qué comprá a roupa?
Os ramos da moita estavam balançando com o vento
e ele entendeu que ela queria comprá.
- Mas, você me paga amanhã?
Os ramos sacudiram que sim.
Então ele jogo a trouxa de roupa na moita e foi-s´embora.
No outro dia ele voltô lá e já foi dizendo
- Vim recebê!
Mas, o vento estava parado, os ramos não balançavam
e ele achô que a moita não queria pagá-lo
e disse:
- Não faz mal. Eu vô te ensiná como
é que se faz com quem faz a gente de bobo.
Passô a mão num enxadão e começô
a cavoucá no pé da moita pra derrubá-la.
Nisso ele encontrô um pote de bom tamanho. Quebrô
o pote e viu que ele estava cheio de ouro. Ele gritô:
- Opa! A minha riqueza estava escondida aqui. E saiu feito
um capeta, correndo pra casa pra levá a notícia.
- Está aqui o ouro, mãe. Vale muito dinheiro.
A mãe ficô tão satisfeita que até
falô:
- Meu filho, pra que tanta riqueza?
E, para comemorá o achado, ela fez uma janta muito
especial: macarrão com queijo.
Comeram muito e o que sobrô, de tanta alegria, ela
jogô sobre o menino.
No dia seguinte, o dono do pote de ouro descobriu que tinha
sido roubado e ficô sabendo que o menino era quem
tinha achado a riqueza.
Partiu pra casa dele. Foi recebido pela mãe. E fez
a pergunta:
- Senhora, o seu filho achô um pote de ouro?
- Não! Ele nunca achô pote de ouro. Esse meu
filho, o único que tenho, é um menino bobo.
De lá de dentro o menino ouviu a pergunta que o homem
fez e foi pra junto da mãe.
- Mãe, a senhora disse que eu não achei um
pote de ouro? Achei sim, mãe.
A mãe, então, perguntô:
- Mas meu filho, quando foi que você achô esse
pote de ouro?
O menino completô:
- Achei sim, mãe. A senhora não se lembra
daquele dia que choveu macarrão com queijo?
O homem, ouvindo aquela resposta tão atrapalhada
do menino, percebeu que ele era mesmo bobo e foi-s´embora
dando risada”.
Contada por José de Sousa Júnior, 61 anos
(1990), pouca instrução, comerciante, residente
na rua Dr. Otávio Lopes Ferraz, 419 – Bairro
São José – Olímpia.
13 – MAIS VALE QUEM DEUS AJUDA
“Havia dois compadres, um rico e outro muito pobre.
O rico era ambicioso. Vivia só trabalhando, aproveitando-se
dos mais fracos para o seu enriquecimento. Levantava-se
de madrugada e tinha uma ganância enorme pra cada
vez se enriquecer mais.
O outro, pobre, pai de muitos filhos, já não
era ligado ao trabalho e sempre repetia: mais vale quem
Deus ajuda do que quem cedo madruga. Por isso, levantava
com o sol já alto e depois armava sua rede à
sombra de uma árvore e ficava tocando viola, com
os filhos todos ao seu redor.
O compadre rico implicou com essa atitude do pobre e sempre
passava uma reprimenda nela.
- Qual nada compadre. Não é preciso ser tão
ganancioso assim. A gente vive do mesmo jeito. Eu toco a
viola o dia inteiro e com isso meus filhos ficam alimentado
do mesmo jeito que os seus. A dia tem que ser assim. As
pessoas precisam de paz, alegria e muito amor. Por isso
Deus ajuda.
Um dia, o compadre rico arranjou uma caixa de marimbondos,
daqueles bem bravos e, ao passar pelo compadre que já
estava na rede, tocando viola, às escondidas, atirou-lhe
a caixa com os bichinhos.
Quando caíram no chão, eles se transformou
em ouro.
O pobre deu uma olhada, quase com desinteresse e disse aos
filhos:
- Ajunte isso aí, meninos. Isso tudo é ouro.
Caiu lá do céu. Foi Deus quem mandou.
Era muito ouro. Dava para comprar tudo o que o rico possuía
e ainda sobrar muita coisa.
Então, o compadre pobre disse aos filhos:
- Vocês vão à casa do compadre e pede
emprestado uma medida para a gente ficar sabendo quanto
tem de ouro aqui. Mas, não fala para que é
a medida. Se ele perguntar, vocês dizem que não
sabem por quê.
As crianças saíram e foram à casa do
rico.
Chegando, disseram que o pai estava precisando de uma medida
e se ele podia emprestar.
- Para que o seu pai quer medida? Ele não tem nada
para medir. Não trabalha. Vive o dia todo tocando
viola. Só se for para pesar areia.
- Nós não sabemos. Ele apenas mandou pedir
uma, emprestada, para o senhor.
O fazendeiro logo desconfiou de alguma coisa. Esperto e
curioso como era, escolheu uma medida e passou uma cerinha,
de leve, no fundo dela. Com isso ficaria sabendo o que é
que ele pesaria.
Dito e feito. Quando o compadre devolveu a medida, o rico
logo percebeu que era ouro.
Ficou desesperado. Foi à casa do compadre. E logo
interrogou:
- Compadre, onde foi que o senhor arrumou tanto ouro?
O compadre respondeu:
- Veio lá do céu. Foi Deus que me mandou.
Não falei pr´o senhor que não adianta
trabalhar tanto. Deus não gosta de gente muito ambiciosa.
O homem não pode ser escravo dos outros e que dirá
de si mesmo. Eu tocava viola. Sempre vivi alegre. Deus ficou
satisfeito e me ajudou. Por isso que eu sempre lhe disse
que não é preciso madrugar pra vencer. Deus
ajuda os bons de coração. Compreendeu?
O compadre rico voltou para casa e disse à mulher:
- O compadre ficou mais rico do que nós. E vivia
só tocando viola. Eu passei por lá e joguei
uma caixa de marimbondo nele. E em vez de ele ser picado
pelos insetos, ele só recebeu ouro. Daqui para frente,
vou deixar de trabalhar. Isto me serviu de lição.
Vou comprar uma viola, aprender a tocar e só vou
fazer isso para ver se eu também vou receber ouro.
Não fiquei sabendo o fim que ele levou”.
Contado por Gumercindo Moreira da Silva, 65 anos (1990),
pouca instrução, funcionário municipal,
residente na Rua Caetano Gotardi, 998 – Vila Di Marco
- Olímpia
14 – A MULHER RICA E A POBRE
“Eram duas mulheres vizinhas, comadres. Uma era muito
rica e a outra muito pobre.
Um dia a mulher pobre estava muito desesperada porque não
tinha um pedacinho de pão para dar aos filhinhos
que estavam com muita fome.
Então foi à casa da comadre rica pedir uma
sobra de comida pra dar aos filhinhos.
A rica expulsou ela, dizendo que não era obrigada
a ajudar a tratar de ninguém. Que a sobre da comida
ela dava aos cachorros, aos porcos e não pra vagabundos.
A pobre saiu tristinha, sem saber o que podia fazer. Chegou
em casa, entrou no quarto e pôs-se a rezar.
Depois ela teve uma idéia. Acendeu o forno a lenha
e deixou ficar bem quente. Foi ao pasto do gado da vizinha
e colheu um pedaço de estrume de vaca e levou pra
casa. Limpou o forno, forrou ele com folha de bananeira,
botou aquele estrume, fechou o forno e disse aos filhos:
- Eu vou sair um pouquinho. Volto já. Vocês
fiquem brincando perto do portão de casa. Não
mexam no forno.
Saiu e foi direto pra igreja. Chegou perto da imagem de
Nosso Senhor, e fez o convite:
- Nosso Senhor, vá lá em casa pra comer um
pedaço de pão que estou assando.
A imagem balançou a cabeça, dizendo que sim.
Ela saiu apressada e voltou pra casa.
Logo depois que ela chegou, pôs os filhos dentro do
casebre, e ouviu alguém batendo palmas.
Foi atender. Era um mendigo todo esfarrapado, com uma bengala
na mão, pedindo um pedaço de pão em
nome de Deus.
A mulher disse:
- Entre, meu senhor.
Forrou uma mesinha com uma toalha limpa, mas também
esfarrapada, e foi abrir o forno.
Que surpresa! O forno estava lotado de pão, bonito,
cheiroso.
Ela levou um pão pra mesa, mas o velho não
quis comer, dizendo que passaria outro dia, porque tinha
que voltar muito depressa pra casa.
Agradeceu muito aquela mulher e disse:
- De hoje em diante, nunca faltará pão para
você e seus filhos. Faça sempre do mesmo jeito
que você fez hoje. E saiu.
A criançada fez uma festa. Comeu até falar
chega.
E assim, todos os dias. Cada vez a fornada de pão
aumentava mais.
A vizinha rica, vendo que a comadre pobre estava melhorando
a situação, foi à casa dela pra descobrir
o segredo.
A comadre pobre, com muita educação, contou
direitinho tudo o que tinha acontecido. Que Nosso Senhor
foi à casa dela. Mas, não contou que ele foi
disfarçado em mendigo.
Como a mulher rica era muito egoísta, voltou pra
casa com a idéia de fazer um convite pra Nosso Senhor
ir almoçar com ela, pensando em ficar mais rica ainda.
No dia seguinte, preparou um banquete de primeira: leitoa,
peru, frango, enfim, muita comida gostosa. Enquanto as empregadas
arrumavam a mesa, ela saiu apressada e foi à igreja
convidar Nosso Senhor para ir almoçar na casa dela.
Nosso Senhor acenou com a cabeça que iria. Então
ela voltou para casa.
Não demorou quase nada, batem palma no portão.
Ela foi atender.
Era um mendigo esfarrapado que pedia um prato de comida
em nome de Deus.
A mulher rica atiçou os cachorros contra o velhinho,
fazendo desaparecer dali num segundo.
O marido não aceitou a atitude dela, dizendo que
não era nada demais dar um prato de comida ao velhinho.
E ainda falou: quem sabe este velhinho é Nosso Senhor
que aqui apareceu para ver se você é uma mulher
caridosa.
A mulher falou:
- Que Nosso senhor o quê? Você acha que ele
apareceria aqui como um velho sujo, esfarrapado, fedido?
E ela se pôs na sala, esperando a visita de Nosso
Senhor, como ele era na imagem lá da igreja.
Esperou, esperou e nada.
Então ela disse:
- Aquele velho nojento veio aqui para atrapalhar a visita
de Nosso Senhor, no banquete que fiz pra ele.
Se ele voltar aqui, não deixo por menos, ponho a
cachorrada toda em cima dele, até dar fim naquele
infeliz.
Disse e saiu para o quintal. Todas as criações
que ela tinha, desapareceram. E com o tempo, ela caiu na
miséria. Perdeu tudo o que tinha.
A comadre pobre começou a prosperar e, em pouco tempo,
ficou muito rica.
No fim da vida daquela mulher ambiciosa aconteceu o contrário.
Era ela que ia mendigar comida na casa da comadre que era
pobre. E sempre foi atendida.
Acabou a história, morreu a Vitória.”
Contado por Nair de Lima, 65 anos (1990), pouca instrução,
do lar, residente no Abrigo São José, Rua
Benjamim Cosntant, 1505 – Bairro Santa Casa - Olímpia
15 – O PRATO DE PAU
“Dizem que havia uma senhora já idosa, mãe
de um único filho, solteirão. Um dia o moço
arrumou casamento. Casou com uma moça bem mais nova
do que ele.
O moço era pobre e por isso convenceu a esposa a
ir morar a casa da mãe dele. A mãe era uma
mulher doente e de idade avançada e não podia
morar sozinha. Morando juntos, o casal não precisava
pagar aluguel e servia de companhia para a velha. Nos primeiros
anos, tudo correu às mil maravilhas. A velha ajudava
nos trabalhos caseiros e era muito bem tratada pela nora.
Passado um ano, nasceu uma linda menina, que encheu de alegria
a casa. A menina ia crescendo e se apegou muito à
avó. Todos eram felizes. À hora das refeições,
sentavam-se todos à mesa para a alimentação.
Mas, com o passar dos anos, a menina completou seis anos
de idade e a velha já andava com dificuldade e não
tinha muita firmeza nos braços. À mesa, deixava
cair um pouco de comida na toalha e no chão, pois
já estava muito trêmula e não era possível
controlar o movimento das mãos.
A nora já não estava gostando que a velha
participasse da mesa de comida. Pensou um pouco e logo descobriu
a solução. Foi a uma feira de móveis
e comprou uma mesa pequena e um prato de pau, parecido com
uma gamelinha.
No outro dia, à hora do almoço, a nora levou
a mesinha para debaixo de uma árvore, no quintal,
bem próximo à cozinha, pediu à velha
que fosse sentar-se lá e entregou a comida dentro
daquele novo prato. A velhinha não se queixou, compreendeu
a situação. O marido da mulher, filho da velha,
não dizia nada. Ficava de boca calada.
Quando foi servido o almoço lá dentro, para
as outras pessoas da família, a menina sentiu a ausência
da avó e perguntou:
- Cadê a vovó, mamãe? Por que não
veio sentar-se à mesa?
A mãe explicou que ela já estava velha, com
as mãos trêmulas e que derrubava comida na
mesa e no chão e que, de vez em quando, deixava cair
o prato, que acabava se quebrando. Então, pra ela
ficar mais à vontade, pôs a mesa dela lá
fora.
A menina parece que não quis entender a explicação
e disse à mãe:
- Eu queria ir comer pertinho da minha avó. E já
se levantou com o prato na mão.
A mãe quis impedir, mas não conseguiu. E lá
se foi a netinha juntar-se à avó.
Mas, quando a garotinha olhou para o prato, focou pensativa
e depois falou:
- Credo vovó, que prato esquisito que a mamãe
deu para a senhora. Por quê?
A avó, carinhosamente, explicou à netinha
que o prato era de madeira e demorava mais tempo pra ser
quebrado. A menininha compreendeu, mas ficou triste porque
o dela era bonitinho e o da avó era feio. Mas, mesmo
assim, a menina foi uma grande companheira da avó,
nas horas das refeições, debaixo daquela árvore,
no quintal.
Depois de decorrido um ano, a velha sofreu um violento derrame
e faleceu.
A menina chorou muito a ausência da avó.
Passado um bom tempo, a mãe da menina fez uma boa
limpeza na casa, atirando ao lixo coisas que já não
serviam. E, entre essas coisas, foi jogado o prato de pau.
A menina quando achou aquilo no lixo, apanhou-o depressa
e foi pra paia lavar. Nisto entrou a mãe na cozinha
e perguntou à menina:
- Para que você quer esse prato, que eu já
tinha jogado no lixo?
A menina respondeu:
- Esse era o prato da vovó. Eu vou guardá-lo.
Quando a senhora ficar velha e trêmula, e se for morar
comigo, então, vou dar comida nele para a senhora.
A mãe não disse mais nada pra filha. Compreendeu
tudo e se pôs a chorar.”
Contado por Sebastião Jesus de Oliveira, 54 anos
(1975), instrução primária, pecuarista,
residente na Rua Bernardino de Campos, 900 – Olímpia
16 – O TRISTE FIM DOS DOIS COMPADRES
“Num lugarejo moravam dois compadres, dois homens
que se davam tanto, que pareciam dois irmãos. Num
dia eles ficaram sabendo que perto de outro lugarejo tinha
uma mata assombrada, que nem um homem desse mundo tinha
coragem de entrar. E nessa mata tinha uma riqueza muito
grande enterrada, mas a mata era vigiada por uma alma do
outro mundo.
Como os dois eram muito corajosos e também muito
gananciosos, eles combinaram ir à procura dessa grande
riqueza guardada em segredo.
Arrearam dois bons cavalos, pegaram uma lanterna, uma enxada,
um enxadão, uma boa carabina, uma garrafa de pinga
e foram co´a coragem. Tiraram informação
com um e com outro e partiram pra tal mata assombrada.
De fato, essa tal mata ficava perto de um povoado, que o
povo de lá, quando anoitecia, nem saía de
casa.
Nesse povoado, numa venda, eles tomaram mais informação.
E o pessoal dizia:
- É muito perigoso ir nessa mata. Toda pessoa que
se atreveu entrar lá, lá mesmo ficou. Lá
tem alma penada. Diz o povo que tem uma grande riqueza enterrada
nela.
Os homens queriam saber mesmo era da riqueza enterrada.
Com alma penada eles estavam pouco somando.
Chegaram na boca da mata, já era mais de dez hora
da noite. Tomaram meio litro de pinga cada um e foram entrando
mata adentro, co´a cara e coragem.
No momento que eles entraram eles escutaram uma voz esquisita,
muito alta, que dizia:
- Podem chegar, seus infelizes! Podem chegar, seus infelizes!
Os dois compadres olharam um pr´o outro e não
ficaram com medo. Toparam a parada. Foram andando em direção
daquela voz. À meia-noite em ponto, eles estavam
no meio da mata. Desceram, amarraram os animais numa árvore
e, nessa hora, a voz disse mais forte ainda:
- Podem cavar onde vocês estão! É aí
que está enterrado o ouro. O que vocês acharem
é tudo de vocês.
Aí, então, os dois garraram a cavoucar: um
com a enxada e o outro com o enxadão. Cavoucaram,
cavoucaram, cavoucaram e acharam um enorme caixão,
cheinho de ouro. Quase caíram mortos de alegria.
Depois ficaram pensando como é que eles iam levar
aquela ourama pra casa. Não dava pra levar dentro
do caixão. Então tiveram uma idéia.
Amarram o caixão c´uma grossa corda que eles
tinham levado e prenderam nos dois cavalos. Levaram o caixão
até na boca da mata, por onde eles tinham entrado.
Nisso, o dia já estava clareando. Aí, um dos
compadres teve uma idéia melhor e falou pr´o
outro:
- Você fica aqui vigiando e ouro e eu vou lá
no povoado que num fica longe, comprar dois sacos pra ensacar
esse ouro e nós podemos levar mais fácil pra
casa. Assim, eu já aproveito e compro pão
com manteiga, leite e café pra nós dois.
Saiu a galope no cavalo. O que ficou vigiando o ouro era
muito ganancioso e ficou engenhando uma idéia pra
ficar co´aquele ouro só pra ele.
- Quando o compadre chegar, eu i recebo com um tiro de carabina
bem no coração. Aí eu fico dono de
tudo, sozinho. E depois eu falo pra comadre que ele sumiu
no meio da mata.
Mas o compadre que foi comprar os sacos e a merenda teve
também a idéia de cocar co´a riqueza
só pra ele.
Chegou na venda, comprou os sacos, tomou a merenda e mandou
preparar uma outra pra levar pr´o compadre. E comprou
também um veneno muito forte.
No caminha, ele misturou o veneno no leite com café
e tampou muito bem a garrafa.
Quando ele chegou na mata, antes de descer no animal, foi
recebido com um tiro certeiro bem no meio do coração.
Rolou morto no chão, na hora.
Aí o compadre assassino arrastou o morto pra debaixo
de uma árvore e foi no bolso da baldrana pra pegar
a merenda dele, porque estava com muita fome.
Comeu o pão, feito um porco esfomeado, e virou aquela
garrafa de leite pr´o estômago que nem sentiu
o gosto. Depois de um minuto, começou a rolar feito
frango mal destroncado e morreu esticadinho.
Passado uns sete dia, ia passando por ali perto da mata,
uns boiadeiros tangendo uma grande boiada. Ficaram todos
curiosos co´a quantidade de urubus que ali fazia uma
grande festa. Foram logo ver. Encontraram os esqueletos
dos dois gananciosos e um caixão de ouro que dava
gosto.
Ensacaram tudo aquilo e seguiram tocando a boiada pela estrada
afora.
Viu que castigo os dois compadres receberam. Foram pr´o
beleléu!
Acabou a estória.
E viva a vitória.”
Contada por Gumercindo Moreira da Silva, 65 anos (1990),
pouca instrução, funcionário municipal,
residente na Rua Caetano Gotardi, 998 – Vila Di Marco
– Olímpia.
17 – O PRÍNCIPE LOBO
“Era um rei e uma rainha que morava num palácio,
na beira do mar. Um dia eles tava debruçado na janela
do palácio e viro um bicho descendo pr´o mar
abaxo. Aí a rainha falô pr´o rei:
- Vem vindo um bicho rodando o mar abaxo.
- É um lobo, falô o rei.
- Ocê tá enganado. É um veado, falô
a rainha.
Aí eles comecaro uma tema: é lobo, é
veado, é lobo, é veado. Pr´o causa disso
acabô virando uma briga. E pra acabá co´a
bestemação, fizero uma aposta:
A rainha falô pr´o rei:
- Se fô um lobo, ocê me mata, mas se fô
veado, eu mato ocê.
Então o rei mandô um criado nadá no
mar, laçá o bicho e trazê pra eles vê.
O criado laçô o bicho e troxe pr´o rei
e a rainha. Era um lobo.
O rei ganhô a aposta e tinha que cumpri o trato. Antão
ele falô pra rainha:
- Eu ganhei e tenho que te matá, mas como ocê
ta grávida eu não tenho corage de te matá.
Eu vô mandá faze um barco do tamanho de uma
casinha inté com cobertura, pô tudo o que é
preciso dentro dele: cama, ropa, comida, de um tudo, e vô
sortá ocê dentro do barco, rodando pelo mar
abaxo.
Então a rainha ficô muitos dias descendo o
mar, mas já tava ficando com jeriza da vida dentro
do barco. Adepois de três mês, o barco bateu
numa rocha. Bateu e parô. E aí a rainha saiu
dele. Ela saiu e abandonô o barco. Andando em cima
da rocha, ela pisô na terra, só co´a
ropa do corpo e uns remedinho.
Na praia, ela encontrô um leão c´uma
grande machucadura no pé. Antão a rainha tirô
o remédio da mala e fez um curativo nele. O leão
ficô tão agradecido e foi empurrando a rainha
pr´o meio de uma mata. Na mata tinha uma gruta com
repartição que até parecia uma casa.
Ele logo ocupô a gruta pra ela se abrigá. E
ficô morando nela. O leão caçava e levava
a caça pra alimento da rainha.
Passado uns dia, a rainha teve um fio (filho), um meninão
sacudido.
Apareceu na gruta um casal de macaco e dois macaquinho.
O macaco ia buscá fruta pra rainha e o menino, e
a macaca ajudava a rainha a amamenta a criança.
O tempo foi passando e logo o menino compretô quatorze
ano. Já era um rapaz.
Um dia ele foi brincá na praia do mar e encontrô
duas pedrinha: uma branca e outra amarela.
Nisto, apareceu uma visão pr´o menino e falô:
- Ocê guarda muito bem guardada essas duas pedrinha.
Se ocê qué continuá menino, ocê
dexa a pedrinha branca na boca. Mas se ocê qué
fica véio, é a pedra amarela que ocê
vai pô na boca.
O menino disse:
- Agora eu quero sê um véio. Pôs a pedra
amarela na boca e se tranformô num véio.
Adepois guardô as duas pedra no borso.
Nisso chegô um passarim e perguntô:
- O que é que ocê tàa fazendo, príncipe
Lobo? Munta aqui na minha costa e fecha bem os óio.
E só abre eles quando eu mandá.
O véio ficô levim, muntô no passarim,
fechô os óio e o passarim vôo co´ele.
Num demorô nem um minuto, o passarim falô:
- Agora, prinspe Lobo, pode abrí os óio.
Ele abriu os óio e já tava no jardim do palácio
do rei, o pai dele. E sentô num dos banco.
O criado viro aquele véio sentado ali e foro contá
pr´o rei:
- Aqui no jardim do seu palácio, tem um véio
sentado no banco. Nós que achemo ele.
O rei falô pr´os criado:
- Traz ele aqui na minha sala.
O véio entrô, cumprimentô o rei. O rei
mandô ele sentá. Adepois preguntô se
ele sabia contá história.
O velho disse:
- Sei sim, majestade.
O rei, antão, pediu pra ele contá uma história.
Ele começô:
- Há muitos ano, um rei e uma rainha tava na janela
do palácio oiando pr´o mar.
O rei já foi dizendo:
- Uai! Mas isso aconteceu comigo.
O véio falô:
- Isso é tão verdade como eu tenho quatorze
ano. E continuô:
- Tinha um bicho descendo mar abaxo e a rainha falô
que ele era um veado e o rei falô que era um lobo.
Aí o rei falô de novo:
- Mas isso aconteceu comigo.
O véio respondeu:
- Isso é tão verdade como eu tenho quatorze
ano.
O rei antão já tava começando a ficá
desconfiado.
Antão, o véio tirô a pedra branca do
borso e colocô ela na boca. Na hora ele se transformô
num menino de quatorze anos.
Nisto ele deu conhecimento pr´o rei de que era fio
dele.
O rei mandô prepará um bom armoço pr´o
menimo.
Adepois do armoço ele preguntô pr´o menino:
- Adondé que tá sua mãe?
O menino respondeu:
- Ta lá numa gruta, no meio de uma grande mata.
Aí, então, o rei mandô pegá um
barco, pôs um criado pra conduzi e o fio junto pra
ensiná adonde era a gruta e trazê a rainha
pr´o palácio.
Quando ela chegô, o rei mandô fazê uma
festa tão grande que continuô durante cinco
dia. Vei gente de tudo quanto é parte. Festaro demais.
Adepois da festa, o rei falô pra rainha que tava muito
arrependido do que fez. Sentia muita farta e sodade dela.
Só que pensava que ela tinha morrido. Daqui pr´o
resto da vida eu, ocê e o nosso fio Lobo vamo vivê
junto pr´o resto de nossa vida.
E vivero muito feliz.
É essa a história que eu acho linda.”
Contado por Antônio José da Silva, 90 anos
(1990), sem instrução, vendedor ambulante
aposentado, residente no Abrigo São José,
Rua Benjamin Constant, 1505, Bairro Santa Casa – Olímpia
(sabe o conto há 80 anos, contado por sua mãe).
18 – FESTA DA BICHARADA
“A bicharada do mato fez uma festa. Aí o Macaco
disse:
Nós precisa de dois cantor. Aquele que cantá
melhor vai sê muito aplaudido e ganhá um prêmio.
A Onça falô:
- Vamo chamá o Lagartinho Verde e o Sapo pra cantá.
Quem cantá melhor sai vitorioso.
Uns falava:
- Canta primeiro o Lagartinho Verde.
Outros falava:
- Deixa o Sapo cantá primeiro.
O Elefante disse:
- Deixa o Lagartinho Verde cantá em primeiro lugá.
O Lagartinho Verde cantô:
Bulitate minha manga
Buludundu não sô ioiô.
A bicharada bateu muita palma.
E o Sapo:
Xaxate, xaxate
Combuco curiaque!
Ninguém bateu palma.
E a bicharada falô pr´o Lagartinho Verde:
- Canta, Lagartinho. Canta outra vez.
Todos batero palma, levantaro a mão e dissero:
- O Sapo perdeu.
Aí o Sapo fico com raiva e fez uma foguera. O Sapo
pensô assim:
- Lagartinho Verde não sabe nadá. Agora eu
não sei se eu jogo ele dentro do fogo ou se jogo
dentro do rio.
- Se eu jogá ele n´água, ele não
sabe nadá e morre afogado. E se eu jogá ele
no fogo, ele morre queimado.
O Sapo perguntô pra ele:
- O que você prefere? Eu te jogo na água ou
te jogo no fogo?
- Me joga no fogo. Não me joga na água.
Então o Sapo pensô:
- Eu vô jogá ele dentro da água, porque
ele não sabê nada e assim ele morre afogado.
O Sapo continuô insistindo:
- Qual que você qué? Na água ou no fogo.
- Me joga no fogo, pelo amor de Deus.
O Sapo passô a mão no Lagartinho Verde e tacô
dentro do rio.
Quando o Lagartinho Verde se piô dentro da água,
nadô e atravessô o rio.
Lá da outra banda do rio, ele disso pr´o Sapo:
- Tiau, bobo!
E o Sapo levô uma vaia da bicharada e de tanta vergonha
se pinxô dentro do fogo. Morreu queimado.”
Contado por Rosa Pereira dos Santos, 70 anos (1983), sem
instrução, do lar,residente na Avenida do
Folclore, nº 566 – Jardim Santa Ifigênia
– Olímpia.