Das mais remotas
manifestações culturais da humanidade, a dança,
nos primórdios, era integrante de rituais religiosos
e mágicos, de cuja prática existem milenares
registros arqueológicos.
Ainda hoje, verifica-se o uso da dança como manifestação
de devoção, com caráter religioso,
a exemplo de algumas que logo veremos no decorrer deste
artigo.
Com o tempo, a dança deixou de ter apenas motivação
religiosa e passou a adquirir função recreativa
e estética, fazendo-se presente em todas as sociedades
humanas.
Atualmente, é usada inclusive com finalidade terapêutica.
DANÇA FOLCLÓRICA
Diversamente das danças "da moda", fomentadas
pelos meios de comunicação de massa, ou da
dança clássica, erudita, a dança folclórica
caracteriza-se por se situar e se desenvolver dentro da
cultura espontânea, informal, ou seja, é aprendida
pela observação e imitação direta,
pela repetição e pela tradição,
sem a intervenção da cultura erudita, sem
a direção de coreógrafos.
Os estudiosos do tema classificam-nas de diversas maneiras.
Alguns as enfeixam em três grupos: danças "religiosas"
(São Gonçalo, por exemplo), "guerreiras"
(Quilombo, Maculelê) e "profanas" (Lundu,
Coco). Outros o fazem, segmentando-as de acordo com sua
"forma" (par solto ou unido, fileiras, roda);
"possível origem" ou influência (européia,
indígena); e sua "finalidade" (de intenção
religiosa ou profana). Outras formas de sistematização
são também apresentadas, tais como, "quanto
ao período em que são celebradas"; "quanto
ao espaço de realização" (dança
de salão, dança de terreiro); "quanto
à indumentária"; "quanto à
área geográfica", entre outras.
FOLGUEDOS
"Considerados pelos estudiosos como a principal característica
das festas tradicionais, religiosas ou não, os folguedos
populares englobam brincadeiras, diversões, artes
e artesanato, danças e bailes, músicas e cantorias,
jogos e sortes, o comércio de artigos regionais,
os autos e as representações teatrais (...),
as pantomimas e os teatros de bonecos, entre muitos outros",
ensina Emília Biancardi, em "Raízes Musicais
da Bahia" (pág. 55, grifamos).
O termo "folguedo" tem, portanto, várias
acepções, mas a tendência entre a maior
parte dos folclo-ristas é de usá-lo restritivamente,
num sentido mais específico, para designar as manifestações
em que existe alguma representação dramática,
com personagens definidos.
Segundo Maria de Lourdes Borges Ribeiro, a dança
folclórica "é a manifestação
de um grupo de estrutura simples, apenas mestre e dançadores,
com coreografia própria, sem texto dramático,
com ou sem indumentária determinada"; "o
grupo de folguedo tem uma estrutura complexa, com mestre,
dançadores, per¬sonagens com hierarquia e atuação
definida, indumentária determinada, elementos tradicionais,
ensaios, parte dramática" (em "Folclore",
Biblioteca Educação e Cultura, MEC).
Veríssimo de Melo, por sua vez, diverge, considerando
equivalentes os termos danças e íolguedos
populares, apresentando uma outra distinção
entre folguedos e autos): "Entre as danças folclóricas,
em geral, há que se separar os autos populares ou
danças dramáticas (...) das outras danças
ou folguedos populares. Os autos apresentam um enredo, uma
estória. Os folguedos circunscrevem-se à coreografia,
ritmo e música" ("Folclore Brasileiro -
Rio Grande do Norte").
Muitos folcloristas, entretanto, referem-se ao "bumba-meu-boi",
por exemplo, como auto ou como folguedo, indistintamente.
São, enfim, amplas a diversificação
terminológica e as distinções entre
os fenômenos denominados. Usam-se "dança
dramática", "auto", "folgança",
"bailado", "cortejo".
Para Maria Amália Corrêa Giffoni em "Experiência
de Pesquisa e Aplicação Didática de
Danças Folclóricas", folguedos, ou bailados,
danças-dramáticas e autos constituem denominações
diferentes do mesmo fato folclórico, incluindo cortejo,
danças, cantorias e declamação (Anuário
do 28° Festival do Folclore).
Não obstante as divergências, é oportuno
ressaltar que a grande mai¬oria dos autores utiliza
os termos "danças" e "folguedos"
quando tratam do assunto. Do mesmo modo, consta do Capítulo
IX do texto resultante da "Releitura" da Carta
do Folclore Brasileiro, produzido no VUI Congresso Brasileiro
de Folclore, em dezembro de 1995, em Salvador, Bahia: "Grupos
Parafolclóricos - São assim chamados os grupos
que apresentam folguedos e danças folclóricas
(...)".
Poderíamos, então, estabelecer esta distinção:
a existência de dramatização e de personagens
específicos, presentes no folguedo, o distingue da
dança.
Há, no entanto, manifestações em que
a dança é apenas parte, mas não essencial,
de determinado "folguedo", podendo inclusive nem
ocorrer, assim como, em alguns "Bois", por exemplo,
o episódio da morte e da ressurreição
do animal pode também não ser encenado.
Sendo assim, consideramos oportunas as conceituações
de Américo Pellegrini Filho, segundo o qual Dança
Folclórica é "forma de expressão
tradicionalmente popular que se baseia em movimentos rítmicos
do corpo ou parte dele (especialmente os pés), em
geral acompanhados por música e canto, e aprendida
de modo informal por contatos interpessoais" ("Danças
Folclóricas", pág. 26, 2a edição,
Ed. Esperança); e Folguedo é "forma folclórica
com estrutura, personagens e às vezes enredo, incluindo
comumente danças ou coreografias reduzidas. E integrado,
geralmente, por pessoas mais ou menos constantes que mantêm
um tema central tradicional. Pode não ocorrer a representação
teatral (o desenvolvimento de um enredo), mas pelo menos
se observam a organização de cortejo, a estrutura
coletiva, os trajes especiais. Desse modo, o folguedo popular
é uma forma folclórica mais ampla e complexa
que a dança e chega mesmo a incluir danças"
(op. cit. pág. 27).
PARAFOLCLORE
O termo "parafolclore", formado pelo prefixo grego
para ("perto de", "ao lado de") e folclore
(cultura popular), foi criado para designar o aproveitamento
de produtos da cultura popular pelos meios eruditos.
Nesta modesta abordagem do assunto, trataremos apenas superficialmente
da utilização das danças folclóricas
com propósito estético.
GRUPOS PARAFOLCLÓRICOS
Dança parafolclórica é aquela baseada
ou inspirada em uma dança folclórica, diferenciando-se
desta por ser desenvolvida por dançarinos profissionais
ou estudantes, sob a direção de um coreógrafo,
com motivação estética e propósito
artístico-espetacular. (Esse é o conceito
comum, mormente entre os mais tradicionalistas. No entanto,
há que se ressaltar a existência de grupos
parafolclóricos que têm também outros
propósitos, especialmente no sentido de difundir
tradições folclóricas para fins didáticos).
São apresentadas pelos denominados Grupos Parafolclóricos,
que pesquisam e reelaboram as danças e folguedos
folclóricos, adaptando-os, a seu critério,
para apresentá-los nos palcos. A dança é
artisticamente reinterpretada. O figurino é enriquecido.
A coreografia é reelaborada. Modificam-se alguns
passos das danças tradicionais, acrescentam-se outros,
tudo em conformidade com os efeitos cênicos almejados.
E o folclore "estilizado".
Alguns grupos parafolclóricos orgulham-se de serem
"o mais fiéis possível ao 'autêntico'".
Outros discordam, argumentando que, se o objetivo for simplesmente
imitar e copiar passo a passo a manifestação
que se pretende projetar, nada de artístico se lhe
acrescentará.
Também é usada a expressão "projeção
folclórica", preferida por alguns folcloristas.
"Uma dança folclórica é folclore
autêntico quando executada pelo grupo folk que a guarda
em seu contexto cultural. Executada por alunos de um estabelecimento,
respeitado o modelo folclórico, é folclore
aplicado. Apresentada em teatro, por profissionais, modificada
num ou noutro ponto para satisfação estética
de uma determinada clientela, é projeção
do folclore", ensina Maria de Lourdes Borges Ribeiro
(op. cit).
Rogers Ayres, referindo-se aos diversos eventos de que
participou como Balé Folclórico de Alagoas
- Grupo Transart, declara que em todos eles "a marca
do novo estava presente. Estudiosos, coreógrafos,
professores e ensaiadores estão dando um novo formato
desses eventos para que eles sobrevivam. Renovar para se
eternizar. E isso o que fazemos quando restauramos uma obra
de arte".
"Os parafolclóricos surgiram para homenagear
os folclóricos de raiz. Os grupos nascem nas escolas,
nas academias e também nas comunidades simples ou
ricas para continuarem uma tradição que não
deverá desaparecer totalmente" (Anuário
do 40a Festival do Folclore, pág. 31).
Segundo o Capítulo IX do texto resultante da "Releitura"
da Carta do Folclore Brasileiro, produzido no VIII Congresso
Brasileiro de Folclore, em dezembro de 1995, em Salvador,
Bahia:
"(...) GRUPOS PARAFOLCLÓRICOS"
1.São assim chamados os grupos que apresentam folguedos
e danças folclóricas, cujos integrantes, em
sua maioria, não são portadores das tradições
representadas, organizam-se formalmente e aprendem as danças
e os folguedos através do estudo regular, em alguns
casos, exclusivamente bibliográfico e de modo não
espontâneo.
2.Recomenda-se que tais grupos não concorram em
nenhuma circunstância com os grupos populares e que,
em suas apresentações, seja esclarecido aos
espectadores que seus espetáculos constituem recriações
e aproveitamento das manifestações folclóricas.
3.Os grupos parafolclóricos consti¬tuem uma
alternativa para a prática de ensino e para a divulgação
das tradições folclóricas, tanto para
fins educativos como para atendimento a eventos turísticos
e culturais".
Bastante oportunos os comentários de Gustavo Cortes
sobre o item 2 do Capítulo IX da Releitura da Carta
do Folclore Brasileiro: "O que me parece mais importante
é refletir o parafolclore como questão relacionada
à arte e à educação. Por se
tratar também de manifestação artística
na forma e conteúdo, o artista que utilizar da projeção
folclórica terá a liberdade de expressar o
seu trabalho com caráter único, pois a visão
da arte é específica e vai de acordo com as
experiências vividas pelo seu autor. Contudo, a expressão
artística deverá ter o cuidado de ser baseada
em estudos que não agridam a manifestação
autêntica, sendo coerente com a pesquisa realizada,
sem perder a particularidade na criação do
trabalho. Se a intenção da projeção
folclórica for apenas copiar o fato existente, não
trará nada a acrescentar em termos de arte. E importante
ficar claro para o público qual o tipo de trabalho
a que ele irá assistir. Assim, não haverá
a ocorrência de competição entre as
manifestações que já são diferentes
entre si, como ficou registrado no 2a item da carta"
(Boletim da Comissão Mineira de Folclore n° 25).
Vejamos alguns folguedos e danças, ecoando antes,
as sábias palavras do eminente Alceu Maynard Araújo,
segundo o qual "uma das mais sérias dificuldades
encontradas em nosso país, com referência aos
estudos da demopsicologia, é a denominação
dada às danças, às cerimônias
religiosas populares e aos instrumentos musicais, pois variam
de região para região" ("Folclore
Nacional", Vol. II, "Danças * Recreação
* Música", pág. 231, Ed. Melhoramentos).
BOI
Animal cultuado pelo mundo e também entre nós,
em torno da fi¬gura do boi (uma importante fonte de
trabalho e de renda), existem lendas e outras narrativas
que marcaram no Brasil sua presença em nosso folclore.
Uma das versões sobre sua origem é a de que
estaria relacionada a um antigo culto ao deus egípcio
da fertilidade (Apis), representado por um boi, que morria
e ressuscitava, também praticado em outras regiões
da Africa. Esse culto então teria sido trazido ao
Brasil pelos escravos africanos.
O auto do boi apresenta um enredo básico em quase
todo o país: a negra Catirina, grávida, com
desejo de comer língua de boi, mas a do mais belo
da fazenda. Seu marido, o "Pai Francisco" ou "Pai
Chico", trabalhador na fazenda, mata o animal pertencente
a seu patrão para atendê-la. O boi é
morto. O patrão por ele reclama, e depois de muitos
entre¬meios de personagens caricaturados da sociedade,
que vêm opinar sobre o ocorrido, o criminoso é
descoberto. Rezas, rituais má¬gicos e remédios
se seguem. O boi ressuscita e tudo vira festa.
Das diversas formas em que esse folguedo é apresentado
em todas as regiões brasileiras, exemplifiquemos
com os seguintes:
BOI-DE-MÁSCARA
Essa difere dos tradicionais bois do Norte brasileiro por
seu ritmo e pelo uso de máscaras e "cabeções"
pelos dançarinos. Não há a encena¬ção
do enredo. Teria surgido no município paraense de
São Caetano de Oliva.
BOI-BUMBA de Parintins, Amazonas
Megaevento, dos maiores do país, a festa do boi-bumbá
de Parintins, Amazonas, é ali realizada há
mais de oito décadas, no mês de junho, atualmente
no "Bumbó-dromo", a grande arena onde ocorrem
as apresentações.
Há um destaque maior para a presença de elementos
indígenas, que o distingue do Bumba-meu-boi mara¬nhense
(ressalte-se, porém, que o boi-bumbá é
filho direto do bumba-meu-boi do Nordeste). Também
se diferencia de outros bois pelo ritmo, pela indumentária,
pela coreografia e per¬sonagens utilizados. Monumentais
carros alegóricos e ricos figurinos fazem parte das
apresentações, nas quais são evocados
fatos, lendas e qualidades da Amazônia.
Uma acirrada disputa se trava entre os bois "Garantido",
em que prevalece a cor vermelha, e "Caprichoso",
em que predomina a cor azul.
BUMBA-MEU-BOI
Do Nordeste, especialmente no Maranhão, onde é
um dos maiores festejos brasileiros, o Bumba-meu-boi prima
pela riqueza e diversidade do figurino e dos elementos rítmicos
e coreográficos. É usado o termo "sotaque"
para as músicas que acompanham os bois maranhenses.
O que os distingue são os instrumentos musicais utilizados
e a cadência do ritmo imprimido a cada espécie.
Dentre as figuras se destacam o Pai Francisco, a Catirina,
Dona Maria (mulher do amo), pajé, índios,
vaqueiros, cazumbás (espé¬cies de palhaços,
mascarados). Em outros Estados nordestinos, há variantes
como o Boi-de-Reis, no Rio Grande do Norte, e o "Cavalo-
Marinho", especialmente em Pernam¬buco e Paraíba.
Neste último, além da figura do boi, se destaca,
entre várias outras, a do Cavalo-Marinho, espécie
em torno da qual o povo criou diversas lendas. No Boi-de-Reis,
há também outras, como os Galantes (ricamente
vestidos, adornados com fitas coloridas e espe¬lhos);
os Mascarados (trajando rou¬pas surradas, com os rostos
pinta¬dos de tisna) e outras figuras de bi¬chos
e assombrações.
REIS-DE-BOI
E um folguedo que homenageia os Santos Reis, no qual se
realiza o auto do boi, de grande ocorrência no Estado
do Espírito Santo, especialmente nos municípios
de Conceição da Barra e de São Mateus,
estendendo-se a alguns do sul da Bahia. Compõe-se
de vários elementos: o Boi, personagem principal,
o Vaqueiro, Pai Francisco e a Catirina, João Mole
(um boneco desengonçado), um grupo de marujos e outras
figuras representando animais, monstros e fantasmas.
BOI DO NATAL
Na região Centro-Oeste, ocorre também o folguedo
chamado "Boi do Natal", com o mesmo tema dos outros
"bois", qual seja, o animal morto e ressuscitado.
O que muda são alguns personagens, informa Carlos
Felipe de Melo Marques, havendo lugar "para um caboclo,
o Gregório; para um negro, o Mateus; e para um índio,
o Caipora. Entre cantos, danças e palavras, o boi
e seus companheiros, a mulinha, o cavalo de fogo e o jacaré
brincam no meio do povo" ("O Grande Livro do Folclore",
pág. 197, 2a Edição, Ed. Leitura).
BOI-DE-MAMÃO
Na região sul, especialmente em Santa Catarina, o
"Boi" é o Boi-de-mamão. O conhecido
enredo é encenado, mas outras figuras são
nele introduzidas, como as de bonecos gigantes e outros
animais. O nome "boi-de-mamão", segundo
alguns autores, se referiria a um mamão verde que
teria sido usado, às pressas, na confecção
da figura do boi para mostrá-la a umas crianças.
MARUJADA
Antigo folguedo, de origem portuguesa, que retrata tanto
os dramas enfrentados pelos marujos como os seus heróicos
feitos em alto-mar, descobrindo terras, vencendo batalhas,
em especial contra os mouros. Esse folguedo conserva vestígios
dos antigos autos portugueses da Nau Catarineta (antigo
romance oral, de origem ibérica, cuja narrativa trata
do desaparecimento de um navio português regressando
de colônias). Vários personagens fazem parte
desse folguedo: o Almirante, o Capitão-de-mar-e-guerra,
Capitão-de-fragata, marujos, cristãos, mouros,
entre outros. O figurino dos membros do grupo lembra o dos
antigos marinheiros.
A denominação varia ao longo das regiões
em que aparece no Brasil:
Marujada, Marujos, Fragata, Barca, Chegança, Chegança
de Marujos. No Nordeste, alguns se denominam, curiosamente,
"Fandango", o qual, segundo Rogers Ayres, diretor
do Balé Folclórico de Alagoas - Grupo Tran-sart,
"corresponde à Marujada de outros Estados brasileiros".
Rogers acrescenta que "o único grupo existente
atualmente em Alagoas está localizado no Pontal da
Barra e é dirigido pelo mestre Aminadab". Em
Minas Gerais, informa Gustavo Cortes, há os "Marujos",
que se apresentam nas festividades de Nossa Senhora do Rosário,
de São Benedito e de Santa Efigênia, vestidos
com os trajes típicos de marinheiros, ostentando
o ro¬sário de lágrimas na cintura.
A Marujada de Bragança/PA, no entanto, muito difere
dos demais folguedos existentes no Brasil. E composta por
mulheres, às quais cabe o comando e a organização
da festividade; os homens são apenas acompanhantes
e tocadores. Não há muitas personagens além
da Capitoa e da Sub-capitoa. As marujas vestem blusa branca,
toda rendada e saia comprida rodada, vermelha ou azul. Usam
uma fita, a tiracolo, azul ou encarnada, de acordo com a
cor da saia, bem como um chapéu cheio de plumas e
de fitas de várias cores. E realizada no dia de São
Benedito, no dia de Natal, no mês de dezembro e no
dia Ia de janeiro. Não há dramatização
na Marujada de Bragança nem alusões à
Nau Catarineta oú a feitos marítimos.
PAU-DE-FITA
Considerada uma dança universal, é a sobrevivência
de antigos rituais de cultos às árvores. Muitos
povos dançaram em torno delas, que são símbolos
de fertilidade, adornando-as de várias cores. Um
dia, alguém a enfeitou com fitas. Mais tarde, alguém
tomou dessas fitas enquanto dançava. O exemplo foi
imitado e a coordenação de movimentos deu
origem à dança. Do topo de um mastro de cerca
de três metros de comprimento, partem fitas coloridas.
Os dançadores, em torno do mastro, cada um segurando
uma fita, vão trançando-as, formando figuras.
O número de dançantes deve ser sempre par
para que as "tramas" ou "tranças"
possam ser levadas a bom termo. Dançada em quase
todas as regiões do Brasil, recebe diferentes nomes,
conforme o local: Tipiti, Dança-das-fitas, Dança
de trançar, Folguedo-da-trança, Trança-fitas,
entre outros.
QUADRILHA
Típica de festejos juninos, a Quadrilha surgiu como
dança aristocrática, proveniente dos salões
da França, divulgada depois entre os europeus. Introduzida
no Brasil como dança de salão, ela foi apropriada
e reelaborada ao sabor popular. Dos salões nobres,
foi levada à zona rural, de cujas festividades é
normalmente parte. Propagou-se pelas cidades e hoje é
tradicionalmente dançada nas festas juninas. Há
competições de Quadrilhas nas grandes festas.
Um "casamento na roça" é às
vezes encenado. Várias são as figurações
que os dançarinos desenvolvem, sob o comando de um
mestre, o "marcante" ou "marcador":
CANA-VERDE
E uma dança proveniente da província portuguesa
do Minho, Portugal, que por aqui muito se disseminou. Encontram-se
diferentes versões dessa dança em vários
Estados brasileiros, quanto à coreo¬grafia e
à música. Também chamada Caninha-verde.
Outros folcloris-tas discordam, a exemplo de Alceu Maynard
Araújo (op. cit, pág. 182), que cita também
Corné¬lio Pires, para os quais "não
se deve confundir a dança portuguesa da 'Caninha-verde'
com a nossa 'Cana-verde'".
Entretanto, a confusão já está feita.
Na "Caninha-verde" do Ceará, único
local em que a dança se apresenta da forma a seguir
descrita, a indumentária, aliás, se baseia
em trajes da corte portuguesa no Brasil, mas com um exagero
carnavalesco bem próprio dos brasileiros. No decorrer
da coreografia, os "nobres" saem dançando,
envolvidos pelos súditos, todos muito festivos, "a
cantar" e "a dançar" ao som de pandeiros,
bandolim, violão e cavaquinho. Na Cana-verde gaúcha,
a dança é mais lenta, predominando a alternância
de passos de juntar e de recuo, com giros dos cavalheiros
e damas, ora com seus respectivos braços direitos
entrelaçados, ora com os esquerdos (frentes dos corpos
ao contrário), ao som da conhecida música
"Eu plantei a cana-verde, sete palmos de fundura (...)
não levou nem sete dias, a cana estava madura".
Da "Cana-verde de passagem", paulista, trataremos
oportunamente, no rol das danças da região
Sudeste.
XOTE
E uma dança de salão, aristocrática,
que saiu das "altas rodas", incorporando-se aos
bailes populares. São usuais as pronúncias
xote e xotes. Alguns dizem que a origem dessa dança
é alemã; outros, escocesa; outros, ainda,
holandesa. Alceu Maynard preferiu dizer que é de
origem européia (schotisch). No Norte do Brasil,
há o Xote Bragantino (de Bragança Paraense,
Pará), que também faz parte da Marujada em
Bragança, dançado por pares, sempre em roda,
em meio a volteios e batidas fortes dos pés contra
o chão, na cadência da música, cujo
passo principal é a saudação entre
os cavalheiros e as damas (estas, com os braços esticados,
sustém levemente, com as pontas dos dedos, parte
de seus vestidos, próxima à barra, fazendo
uma ligeira genuflexão; aqueles fazem uma flexão
de tronco, à frente delas, cumprimen-tando-as).
No Nordeste, região do país em que é
mais executado, ao som das sanfonas ou foles nos bailes
populares, o xote é dançado de diversas maneiras,
havendo muitas variantes: xote pé-de-serra, xote
batido, xote pé-de-parede. Xote, aliás, é
um dos ritmos de forró na região mais festeira
do Brasil, valendo lembrar que não há um tipo
especial de música denominada "forró";
este termo designa o local e a reunião de dançadores,
onde são tocados xotes, xaxa-dos, baiões,
entre outros ritmos. No Rio Grande do Sul, onde se amoldou
à instrumentação típica, mormente
a "cordeona", há também algumas
variantes, dentre as quais se destacam o Xote-carreirinho
variante cuja maior característica é um movimento
coreográfico em que os pares, enlaçados, dão
passos ligeiramente "arrastados" e sapateados,
numa "cor-ridinha" bem como uma outra muito curiosa,
o "Xote de duas damas".
Nessa última modalidade coreográfica "realmente
excepcional", "não só no meio rio-grandense,
como no meio universal", no dizer de Paixão
Cortes e Barbosa Lessa cada cavalheiro dança com
duas damas, executando os passos da dança, ladeado
por cada uma delas, de mãos dadas os peões
segurando, com cada uma das suas, as respectivas mãos,
direita e esquerda, de suas "duas damas" elevadas
próximo à altura de seus ombros. Segundo referidos
autores, não se sabe "por que milagre veio surgir
entre os gaúchos" essa variante do xote. "Influência
dos platinos, através do 'palito'? Ou influência
dos imigrantes alemães, numa reminiscência
das antigas danças germânicas desse gênero?",
indagam eles em "Manual de Danças Gaúchas"
(pág. 91, Irmãos Vitale Editores).
CIRANDA
Essa dança de origem portuguesa também apresenta
variações pelo Brasil afora. "Ciranda"
é designação para as rodas infantis
em diversas partes do Brasil. Em outras, não é
especificamente dança de crianças. No Nordeste,
em especial nos Estados de Pernambuco e Paraíba,
é dança de roda em que os dançarinos
se dão as mãos e ba¬lançam o corpo
enquanto se movimentam em sentido anti-horário, dando
passos para dentro e para fora do círculo, ao som
de músicas produzidas com o uso de instru¬mentos
de percussão, como tarol, bumbo, ganzá, e
de sopro (pistons, trombone). Na região do Tapajós,
Pará, existe a "Ciranda do Norte", que
se distingue pela mistura de vários ritmos, como
o xote, a valsa e outros, que tornam a dança ora
suave, ora acelerada. É dançada ao som de
banjo, flauta, curimbós, maracás, reco-recos,
seguindo-se a marcação do compasso feita pelo
pandeiro, violão e apito.
FANDANGO
Usa-se o termo "Fandango" para designar uma série
de danças populares. Em São Paulo, no litoral,
informa Caseia Frade, Fanpescadores, realizadas na faixa
litorânea do Estado.
Vejamos mais alguns folguedos e danças, doravante
segmentados de acordo com as regiões do país.
DANÇA DE SÃO GONÇALO
Dança de intenção religiosa, praticada
geralmente em cumprimento de promessa, por devoção
a São Gonçalo. E repleta de variantes pelo
Brasil. No Mato Grosso, por exemplo, é dançada
aos pares, e a imagem do santo é passada de mão
em mão; em São Paulo, em forma de cortejo,
uma fileira de mulheres, outra de homens; em Goiás,
dançam apenas homens; em Minas Gerais, só
mulheres, portando arcos, com apenas um homem representando
o santo.
Dango compreende uma série de danças de pares
mistos; no interior, é uma dança que muito
se aproxima da catira ou cateretê, por causa do sapateado,
dançada só por homens, que usam chapéu
e lenço ao pescoço e botas com chilenas de
duas rosetas. No Nordeste, como vimos, é o nome que
em algumas localidades se dá à Marujada. Na
região Sul, significa festa que reúne diversas
danças regionais. No Paraná, especificamente,
merecem relevo o conjunto de "marcas", nome com
que se designam as danças apresentadas em festas
típicas de caboclos e da Região Norte.
LUNDU MARAJÓ
Trata-se de uma autêntica representação
coreográfica de uma conquista amorosa, empreendida
com sedutores passos e movimentos. De origem africana, essa
é a mais sensual das nossas danças populares.
Na música que a acompanha, predominam instrumentos
de sopro e atabaque, num ritmo lento e cadenciado. Chegou
a ser proibida pelo governo federal, que cedeu às
instâncias da Igreja Católica, que a considerava
imoral.
Não é mais mostrada como no passado, em que
as negras a dançavam com os seios à mostra.
As dançarinas usam blusas curtas e saias rodadas
e os homens, sem camisa (dependendo do local) ou com calças
curtas.
SÍRIA
O nome é apócope de "Sirial", denominação
dada pelos negros ao local em que recolhiam siris. Essa
dança provém da região de Cametá,
Pará. Os movimentos coreográficos _ lentos
inicialmente, acelerando-se do meio para o final _ evocam
os que os pescadores executam para a coleta de siris. Os
dançarinos usam grandes chapéus de palha,
a exemplo dos pescadores da referida localidade.
CARIMBO
Expressão máxima das danças folclóricas
paraenses, o Carimbo é de origem indígena,
dos Tupinam-bás, com marcante influência negra
e portuguesa. Aos tambores so¬mam-se outros instrumentos
como banjo, maracás, reco-recos, flautas e pandeiros,
numa mistura de sons que imprime ao ritmo uma característica
singular.
O nome, de origem tupi, deriva do principal instrumento
utilizado (um atabaque grande), o curimbó (curi -
pau e m'bó - oco ou furado). Merece destaque a brincadeira
do lenço desenvolvida na dança, em que os
dançarinos vão se abaixando, com as pernas
abertas e esticadas, para pegar com a boca o lenço
deixado no chão por uma dançarina, sem tocar
a mão ou qualquer outra parte do corpo no chão.
RETUMBÃO
E uma das manifestações que integram a Marujada
de Bragança Paraense. As mulheres saem em cortejo
pelas ruas da cidade, acompanhadas pelos homens e tocadores.
E uma dança comandada pelas mulheres, por meio da
Capitoa, que ostenta em suas mãos um bastão
de madeira, ornado de flores, usado para indicar as mudanças
de direção e de passos. As vestimentas do
Retumbão são as mesmas usadas na Marujada.
O ritmo da dança é determinado pelo tambor,
o "bagre". Dizem que o nome da dança provém
das narrativas da região, segundo as quais eram "retumbantes"
os sons dos tambores, fazendo-se ouvir a grandes distâncias.
CHULA MARAJOARA
É uma dança que louva divindades como São
Benedito e Nossa Senhora do Rosário, em cujas festividades,
na Ilha do Marajó, é bastante freqüente.
E dançada apenas por mulheres, descalças e
com roupas estampadas, representando uma alegre forma de
louvação.Os trajes usados nessa dança,
lembrando a roupa característica do vaqueiro dessa
região, cujos movimentos em seu trabalho são
coreo-graficamente imitados.
MARABAIXO
Do Estado do Amapá, é uma dança de
origem negra, cujo ritmo é cadenciado por toscos
tambores de madeira. Trata-se de um folgue¬do de maior
ocorrência no Sábado de Aleluia e Domingo da
Páscoa. As mulheres usam vestidos estampados e os
homens, calças brancas, camisas bordadas e chapéus
de palha. Alguns dos movimentos dos dançarinos fazem
lembrar um pouco os da capoeira. Mas no Ma-rabaixo não
se segue uma coreografia básica; a improvisação
é comum nessa dança.
DESFEITEIRA
Do Amazonas e do Pará, é uma dança
lúdica, de origem portuguesa. Os pares vão
dançando livremente. Há uma súbita
parada da música executada pelo conjunto musical.
O par que diante deste se encontra, no momento, é
obrigado a declamar algum verso. Caso não o faça,
é vaiado e deve pagar uma prenda.
Fecha-se o círculo de dançadores, homens
e mulheres são posicionados alternadamente, de mãos
dadas, com força, ou de braços entrelaçados,
e o solista tenta escapar do cerco. Ao conseguir, é
substituído. E corrente nos povoados próximos
ao Rio Madeira, em Antazes e em Novo Aripuanã.
DO NORDESTE
CAPOEIRA
Capoeira é dança, é jogo, é
contenda. Antes, uma arma dos negros por sua liberdade;
hoje, uma luta dançante, ao som de pandeiros, agogôs,
atabaques e berimbaus. Foi introduzida no Brasil pelos escravos
africanos, mas o nome é de origem tupi (Kapu'era),
segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa,
de Aurélio Buarque de Holanda, significando "terreno
em que o mato foi roçado ou queimado para o cultivo
da terra ou para outro fim". E muito corrente na Bahia,
mas há vários estilos de capoeira por todo
o Brasil.
VAQUEIRO DO MARAJÓ
Típica da Ilha do Marajó, Pará, onde
há o maior rebanho de búfalos do país,
esta dança retrata a lida dos vaqueiros do Norte
do Brasil. Os dançarinos portam um laço para
pegar gado e o giram acima de suas cabeças, simulando
o preparo de uma laçada.
JACUNDÁ
Dança amazonense cujos passos se inspiram nos belos
movimentos de nado do homônimo peixe. Os dançadores,
em roda, giram no sentido anti-horário. Num dado
momento, um solista fica no centro, dançando; é
o "Jacundá".
BACAMARTEIROS OU BATALHÃO DE BACAMARTES
Conjunto de homens portando armas rudimentares denominadas
"bacamartes", com pólvora de fabricação
caseira, cujos tiros são disparados em manifestações
populares como procissões, quermesses e outros festejos.
Ao proceder aos tiros, em diversas posições,
sem deixar cair o "bacamarte", os baca-marteiros
demonstram sua destreza e habilidade.
O grupo Bacamarteiros de Carmópolis, Sergipe, surgiu
no início do século XIX. Desse grupo, fazem
parte 40 homens e 20 mulheres, todos com roupas típicas
do ciclo junino, que, após os tiros, dançam
um samba de roda.
PARAFUSOS
Os parafusos representam uma referência coreográfica
aos furtos cometidos por escravos fugitivos, que, em horas
mortas, nas noites de lua cheia, saíam de seus mocambos
(refúgios) nas matas e vestiam as anáguas
das sinhás deixadas ao sereno, umas sobre as outras,
até cobrir o pescoço. Assim, saíam
pelas ruas, dando pulos, fazendo assombração.
O medo dos assombrados era maior que o impulso de tentar
a recuperação de seus pertences, pois acreditavam
que estavam sendo vítimas de almas de outro mundo.
Alforriados, os escravos festejaram vestidos tal qual faziam
antes, para zombar de seus antigos senhores.
O grupo folclórico "Parafusos", de Lagarto
Sergipe faz uma festiva referência a esses fatos que
ali teriam se sucedido. Os integrantes usam turbantes, com
o rosto pintado de branco, e, vestidos com anáguas,
dançam, girando, fazendo lembrar a imagem de um parafuso.
MACULELÊ
Dança guerreira de origem africana, em que os participantes,
geralmente apenas homens, dançam ao som de atabaques
e agogôs. Os escravos dançavam o Maculelê
nos canaviais com pedaços de cana (a roxa, mais resistente).
Conta-se que em ocasiões de tentativa de fuga de
algum escravo, o Maculelê era dançado, para
distrair os feitores, facilitando a evasão. E proveniente
de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo
Baiano. O entrechoque de bastões e facões,
pelos integrantes dos grupos, marcam essa manifestação,
que teria também recebido influência indígena,
segundo alguns folcloristas.
TAIEIRAS
Grupo de senhoras que acompanhavam a festa de Nossa Senhora
do Rosário, na celebração de São
Benedito, no dia 6 de janeiro, dançando e cantando,
em Lagarto, Sergipe, terra natal de Silvio Romero, que fez
registro dessa manifestação, vestidas com
roupas similares às tradicionais das baianas. Originalmente,
o grupo era composto de mulatas que seguiam a procissão.
Essa tradição é mantida em Lagarto,
Sergipe, onde é ampla a participação
das Taieiras em eventos comemorativos religiosos.
REISADO
É do chamado ciclo natalino (período de celebração
ao nascimento de Jesus Cristo). Atribui-se a São
Francisco de Assis o surgimento de autos natalinos. Ele
teria promovido uma representação de um presépio,
com personagens da Bíblia, em 1223.
De origem portuguesa, é um folguedo nordestino que
celebra o nascimento de Jesus e os três Reis Magos
que o visitaram na ocasião, tal como as Folias de
Reis do Sudeste, de que logo trataremos, das quais, aliás,
diferem principalmente pelo figurino, pois, no Reisado,
o traje é mais diversificado e colorido, com o uso
de chapéus representando torres ou fachadas de igrejas.
COCO
De origem negra, essa dança surgiu nos engenhos,
no período da escravidão. Os escravos, para
amenizar as dores decorrentes dos esforços empreendidos
para quebrar cocos secos com os pés, faziam deles
instrumentos musicais, cantavam e dançavam a dança
de roda, às vezes com palmas e sapateados. Tamancos
às vezes são usados para lembrar o barulho
da quebra dos cocos. Teria surgido em Alagoas, mas se difundiu
por todo o Nordeste, sendo também dançada,
com variações, pelo Brasil.
QUILOMBO
É um folguedo alagoano de origem africana, surgido
após o malogro dos quilombolas dos Palmares. Evoca
as ferrenhas e sanguinárias lutas travadas entre
os escravos fugitivos e os implacáveis capatazes.
Outros autores defendem que não há vínculo
entre esse folguedo e o referido acontecimento histórico,
argumentando que se trata de uma reinterpretação
erudita de danças brasileiras e européias,
representando lutas ora entre negros e brancos, ora entre
mouros e cristãos, ora entre negros e índios
ou caboclos.
O conjunto musical é o Terno de Zabumba. A coreografia
é uma simulação de luta, com o uso
de foices pelos negros e de arcos e flechas pelos caboclos.
PASTORIL
Folguedo também pertencente ao "ciclo natalino",
o Pastoril faz referência à adoração
dos pastores ao Menino Jesus, por ocasião de seu
nascimento. As "pastoras" (como são chamadas
as integrantes desse folguedo) dividem-se em dois "cordões",
o Azul e o Encarnado. Usam saias, blusas, aventais, portando
pandeiros. Da indumentária das pastoras pertencentes
a cada um desses cordões, faz parte alguma peça
da respectiva cor, azul ou encarnada. Há bailados,
cantos, recitativos e diálogos homenageando o nascimento
do Messias. E um folguedo muito conhecido no Nordeste, cultivado
com mais evidência no Estado de Alagoas.
GUERREIRO
O Guerreiro deriva de reisados alagoanos. Mas a riquíssima
indumentária e um número maior de figurantes
e episódios imprimem ao "Guerreiro" uma
característica mais moderna em comparação
aos antigos reisados.
Destaca-se no Guerreiro o uso de grandes chapéus,
em formato de igreja, chamados "capelas", que
são enfeitados com pedras e espelhos (que, dizem,
devolvem o mau-olhado a quem o lança).
Os personagens são rei, rainha, contramestre, embaixadores,
general, lira, índio Peri e seus vassalos, Mateus,
dois palhaços, sereia, estrela de ouro, estrela brilhante,
estrela republicana, a banda da lua e as figuras. As vezes,
o tradicional "boi" e a Catirina também
surgem no final.
BAIANAS ou BAIANA
Originária de Pernambuco, nessa dança se apresentam
mulheres trajadas com vestes tradicionais de baianas, que
dançam e fazem evoluções ao som de
instrumentos de percussão. E considerada uma adaptação
rural dos maracatus pernambucanos, mesclada com músicas
que fazem lembrar o canto dos negros nas senzalas e a coreografia
por eles criada nos terreiros da Casa Grande. Quentes e
voluptuosos são os movimentos e os ritmos que acompanham
a dança.
FREVO
Máxima expressão do carnaval pernambucano,
embora se tenha espraiado por todo o Nordeste, Frevo é
uma dança que ganha as ruas e os salões no
ciclo carnavalesco. É dançada individualmente.
Acelerados e energéticos são os passos dos
dançarinos, que, em rápidos movimentos, se
abaixam e se alteiam, esticando e dobrando suas pernas.
E uma dança que deriva da capoeira. Gustavo Cortes
informa que "das lutas de capoeira surgiram os passos
geométricos e ritmados que compõem a dança.
(...) As sombrinhas, que eram utilizadas como arma no passado,
viraram adereços coloridos, servindo para dar equilíbrio
e graça aos eletrizantes passos e tornando-se tradicional
nos malabarismos executados pelos dançarinos"
("Dança, Brasil", pág. 87, Ed. Leitura).
Mário de Andrade via no guarda-chuva dos passistas
"uma desinência decadente (generalizada pelo
auxílio de equilíbrio que isso pode dar) dos
pálios dos reis africanos, até agora permanecidos
noutras danças folclóricas nossas", citado
por Alceu Maynard Araújo (op. cit, pág. 254),
o qual, por sua vez, assim se refere ao frevo: "dança
alucinatória do carnaval pernambucano". A música,
ditada por trombones e pistões, em que, segundo ele,
está a grande força dessa dança, "dá
oportunidade para que a coreografia se enriqueça
ao máximo com o frenesi dos seus praticantes"
(op. cit., pág. 253). O nome vem de "ferver",
"fervura". Para a gente simples do povo, "frevura",
que culminou em "frevo"."
XAXADO
E uma dança proveniente do sertão pernambucano
que se espraiou por todo o Nordeste, divulgada pelo cangaceiro
Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião",
e seu bando, os quais, dizem, também seriam seus
autores. "E dança de cangaceiro, dos cabras
do Lampião", canta-se. Inicialmente, era dançada
apenas por homens, em festas e em preparativos para combates.
Atualmente, já se verifica a participação
feminina no Xaxado. Há passos rápidos, em
que o pé direito cruza o outro, num sapateio deslizante
e célere. Batidas no chão com os rifles ou
fuzis, cujos tiros são às vezes disparados,
também constituem uma marcação na coreografia.
Do ruído das alpercatas (xá-xá-xá)
usadas pelos "cabras", derivou o nome "Xaxado".
MARACATU
Tal como as Congadas do Sudeste, o Maracatu relembra a coroação,
pelos escravos, de seus reis, as chamadas coroações
dos reis-de-congo. É característico de Pernambuco,
mas recentemente também foi constatada sua forte
presença no Ceará.
Para alguns autores, o nome deriva de maracá, instrumento
musical utilizado nesse folguedo. Para outros, é
resultado do barulho produzido por determinado ritmo com
tambores que os negros utilizavam como senha para avisar
a proximidade da polícia. O som lembraria o vocábulo
"ma-ra-ca-tu". Vê-se, no Maracatu, rico
e colorido figurino, com bijuterias, espelhos e outros adereços
cintilantes.
Com a libertação dos escravos, o Maracatu
passou a integrar o carnaval. Em muitos deles também
se fazem presentes figuras representativas dos orixás
do Candomblé.
Do cortejo, fazem parte rei e rainha, dançarinas
com roupas típicas de baianas, o porta-estandarte,
e, entre outros, a dama-do-paço, que porta uma boneca
chamada "calunga".
CABOCLINHOS
"Caboclinho é uma dança de origem indígena,
como o próprio nome indica. No Nordeste, a palavra
caboclo é utilizada para designar o índio
ou, no máximo, o cruzamento de índio com o
branco. E caboclinhos são os filhos dos caboclos"
(Carlos da Fonte Filho, em "Espetáculos Populares
de Pernambuco", Edições Bagaço).
Dos mais antigos bailados de que se tem notícia no
Brasil, foi registrado pela primeira vez em tribos indígenas
nordestinas, em 1854, por Fernão Cardim, informa
Gustavo Cortes. "Atualmente, são grupos fantasiados
de índios que, ao som de pequenas flautas e bandas
de pífanos, saem pelas ruas das cidades do Nordeste,
no período carnavalesco. Executam um bailado ritmado,
em séries de saltos e bate-pés, marcado pelos
estalidos secos das preacas (espécie de arco e flecha)"
(op. cit., pág. 92). Os dançarinos, que executam
essa ágil coreografia, usam saias de penas, colares
e cocares repletos de plumas e adornos cintilantes, em meio
a outros adereços.
ARARUNA
Do Rio Grande do Norte (também dançada na
Paraíba) é uma dança que faz referência
a um pássaro preto chamado araruna, proveniente do
Pará, muito comum na região. Ele é
uma ameaça constante aos arrozais. Quando despontam
os pendões de arroz, essas aves passam a comêlos
avidamente. Se não são contidas, devoram toda
a plantação. Para garantir a colheita, então,
há que se afugentar essas aves. E desse tanger das
ararunas que se originaram a dança e a letra da música:
"Xô, xô, xô, Araruna Os movimentos
se dão para frente, para trás e para os lados.
São passos alusivos ao próprio pássaro.
Uma variante no Amazonas é chamada Iraúna,
na qual há uma pequena encenação. Uma
solista representa essa ave; um outro brincante, um caçador,
que tenta capturá-la; quando consegue, assume o lugar
do pássaro.
TOREM
"Dança de terriro, de influência ameríndia,
lúdico-imitativa. Os participantes, de mãos
dadas, formam uma grande roda. Ao centro, o tocador de aguaim
(maracá) agita-o, solando a dança que é
imitada pelos demais participantes. E uma dança agitada,
com movimentos de corpo, requebros, batidas de pés
no solo e imitação de animais de seu convívio:
a cobra caninana, o guaxinim, a jaçanã, conhecidíssimos
no Ceará. Cantam em coro em que, de permeio, ouvem-se
vocábulos indígenas. Tomam mocorocó,
bebida fermentada de suco de caju", explica Alceu Maynard
Araújo (op. cit., pág. 259)
MANElRO-PAU
Também chamada Mineiro-pau, é originária
da região de Cariri e de Juazeiro do Norte, no Ceará,
onde os empregados das fazendas lutavam, em treinamento,
com pedaços de madeira. Dança de roda em que
os participantes portam um ou dois bastões que se
entrechocam, à maneira das espadas, sendo percutidos,
ora grupalmente, ora entre um e outro dançarino,
em revezamento, numa ordem na qual há duas, três
ou mais batidas. Carlos Felipe de Melo informa que é
uma dança também encontrada no interior dos
Estados do Rio de Janeiro, de São Paulo e da Zona
da Mata de Minas. "Com uniformes coloridos e apresentando-se
muito no período pré-carna-valesco, a dança
costuma ter, na festa, personagens como o boi, a mulinha
e o jaraguá" (op. cit., pág. 118).
TAMBOR DE CRIOULA
Típica do Maranhão, com alguma presença
no Piauí, é uma dança cujo ritmo é
obtido por meio de três tambores feitos de tronco,
escavados a fogo. A coreografia é executada individualmente
e consiste em sapateios e remelexos voluptuosos com o corpo
inteiro dos dançarinos em formação
circular. E dança de terreiro, sem data fixa para
ser apresentada. A variedade no comprimento dos tambores,
segundo Caseia Frade, "sugere denominações
específicas: o tambor grande é chamado Socador;
o médio, Crivador ou Meão; o pequeno, Perenga
ou Pirerê" (em "Folclore", pág.
65, 2a edição, Ed. Global).
DO CENTRO-OESTE
CAVALHADA
Reminiscência das tradições da Cavalaria
Medieval, a Cavalhada é um folguedo que rememora
as históricas batalhas travadas entre os mouros invasores
da Península Ibérica e os cristãos,
que lutavam pela reconquista desse território, sob
a liderança de Carlos Magno. Os fatos históricos,
permeados por várias lendas, tiveram ampla repercussão
no Brasil no século XVIII, com a tradução
portuguesa do Livro "História do Imperador Carlos
Magno e os Doze Pares da França". Realiza-se
ao ar livre, em espaços amplos. Formam-se dois grupos,
posicionados em pontos opostos, representando os mencionados
adversários.
Luxuosamente vestidos (de azul, os cristãos, e de
vermelho, os mouros, todos com capas bordadas e adornos
cintilantes), portam espadas, lanças e pistolas.
São vários os compo¬nentes, chegando,
eventualmente, a quase uma centena de figurantes. Insultos
e ameaças são trocados entre as partes em
conflito, até que iniciam a simulação
dos combates, fazendo-se uso das já mencionadas armas.
Os mouros terminam subjugados, convertidos ao Cristianismo.
Após, a parte lúdica se inicia, na qual os
cavaleiros exibem sua destreza.
CATIRA
E uma dança mais típica de Goiás, da
zona rural, mas que também se propagou em outros
Estados, como Minas Gerais e São Paulo, onde também
é chamada Cateretê. E uma dança masculina,
embora eventualmente se encontre alguma "catira feminina",
de projeção folclórica, a exemplo da
Catira Feminina do Distrito de Baguaçu, Olímpia/SP.
Posicionados em duas fileiras opostas, os catireiros.
DANÇA DOS MASCARADOS
Encontrada no município de Po-coné, em Mato
Grosso, é dançada só por homens que,
em um "cordão", vestem-se como tais e,
em outro, como mulheres. Usam máscaras, roupas de
chitão estampado e chapéus adornados com plumas,
espelhos e outros adereços. É muito apreciada
nas festas de São Benedito e do Espírito Santo.
O ápice da dança é a "trança-fitas",
em que violeiros, sapateiam, pulam, batem palmas, fazem
meia volta e trocam de lugar uns com os outros. Para alguns
autores, a origem da dança seria portuguesa, derivando
da carretem, praticada em Portugal, no século XVI.
Para outros, seria indígena, já que cateretê
é palavra proveniente do tupi-guarani.
RECORTADO
É uma variante de cateretê, mais movimentada,
dançada em fileiras opostas que se tornam uma roda
no decorrer da dança. Em meio aos sapateados, os
dançarinos executam meneios físicos que fazem
lembrar a umbigada do Batuque. E uma dança predominantemente
masculina, mas, em vários lugares da região,
há também a participação feminina.
SERRA MORENINHA
Famosa no Estado de Goiás, é um bailado simples
em que se formam duas fileiras de homens e mulheres. Posicionados
frente a frente, os pares dão-se as mãos e
executam vários passos, imitando os movimentos de
dois serradores cortando madeira. Alceu Maynard Araújo
já noticiava sua ocorrência também no
Rio Grande do Sul, com o nome de "Serrote" (op.
cit., pág. 191).
CURURU
De origem indígena, essa dança inicialmente
só era apresentada por homens, o que, aliás,
continua ocorrendo, especialmente no Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul. E comum em festas religiosas. Embora o vocábulo
cururu corresponda a "sapo", na língua
nheengatu, não há nessa dança nenhum
movimento coreográfico que faça alusão
àquele bicho. Formam-se duas alas, uma defronte da
outra. Iniciado o ritmo, as duas fileiras dão dois
passos para a esquerda e para a direita, movimentando-se
de maneira a formar uma roda, à medida que cresce
a animação dos dançantes. Quem entoa
os versos é chamado de "cururuzeiro", e
os versos entoados denominam-se "carreiras". Ao
som da viola-de-cocho, típico instrumento da região
e de reco-recos, ento¬am-se versos improvisados. Não
há indumentária específica.
VOLTA-SENHORA
E uma curiosa mistura de quadrilha com a dança do
Vilão, explica Carlos Felipe de Melo. "Os pares,
ao som da viola, tocada por um violeiro que vai lembrando
ou improvisando versos, vão executando passos diferentes.
O cavalheiro segura a ponta de um grande lenço, enquanto
a dama segura a outra ponta, e durante a coreografia, eles
não podem soltar o pano. Com isso, alguns passos
tornam-se muito difíceis, mas apresentam, por outro
lado, belos momentos coreográficos, como na execução
do 'moinho', em que as mãos direitas dos dançadores
na roda se entrelaçam formando um eixo, enquanto
as esquerdas continuam segurando os lenços. Conhecida
em todo o Centro-Oeste, a volta-senhora é, às
vezes, dançada com um bastão em vez de lenço.
Quando isso acontece, é comum, ao final, os bastões
serem entrelaçados. Os dançantes então
os abaixam para que o violeiro, literalmente, suba em cima
daquele feixe, sem parar de tocar. Eles, então, o
levantam no ar, numa bela apoteose" (op. cit., pág.
200).
ENGENHO DE MAROMBA
Realizada em praticamente todo o Centro-Oeste, em especial
na região nordeste de Mato Grosso do Sul, chamada
"Bolsão", a coreografia dessa dança
faz lembrar os movimentos do engenho de cana. Duas fileiras
de homens e mulheres são formadas, as quais giram
em direções contrárias entre si. Geralmente,
é executada aos finais dos bailes da região,
como despedida.
SIRIRI
Da região pantaneira do Centro-Oeste brasileiro,
é uma das mais antigas e populares no Mato Grosso.
E presença marcante em festejos religiosos. Dizem
alguns que o nome "Siriri" deriva do verbo siriricar
("pescar com siririca, espécie de anzol").
E dançada em roda e em fileira, geralmente ao som
do cracaxá (espécie de reco-reco), viola-de-cocho,
ganzá e o mocho (tipo de tambor), em álacre
e célere coreografia. Não há traje
específico.
MARIMBONDO
E uma dança de roda, às vezes de desafio,
de coreografia livre. Ao som de cuíca e pandeiros
e, eventualmente, também de viola caipira, um dos
participantes entra no meio da roda e executa seus passos,
tendo sobre a cabeça um pote de água com uma
cuia boiando na superfície. Não pode deixá-los
cair. Pode desafiar outro dançador a fazer igual
ou melhor, por meio de alguma saudação, ajoelhando-se
e entregando-lhe "o campo" ou "o pote",
como dizem. Se o desafiado se recusar, deve pagar uma rodada
de bebida. E de maior ocorrência no interior goiano.
RASQUEADO
Segundo o grupo parafolclórico "Chalana"
(Cáceres/MT) o Rasquea-do é "dança
popular (arrasta-pé), resultado da influência
fronteiriça, exercida pelo Paraguai sobre o Mato
Gros¬so, através da miscigenação
e interação na vida dos ribeirinhos. E uma
mistura da Polca paraguaia e do Siriri mato-grossense".
Rasqueado significa "arrastar as unhas ou um só
polegar sobre as cordas, sem ponteá-las".
DO SUDESTE
FOLIAS DE REIS
Dentre os mais representativos folguedos do ciclo natalino,
encontram-se as Folias de Reis, também conhecidas
por Companhias de Reis. E na região Sudeste que esse
folguedo pode ser mais apreciado. De origem portuguesa,
derivam elas dos festejos realizados no Dia dos Reis Magos,
tendo sido introduzidas no Brasil, no século XIX.
Celebram o nascimento de Jesus Cristo e a visita que lhe
fizeram os Três Reis Magos. Entre 24 de dezembro e
6 de janeiro (dia dos Reis Magos), as Companhias de Reis,
visitam as casas da redondeza em busca de donativos para
a realização da festa, no dia 6 de janeiro,
levando consigo a bandeira dos Santos Reis. Sendo aceita
a visitação, os membros passam com a bandeira
por todos os cômodos da residência, para que
os Santos Reis a abençoem e os que nela habitam.
Essa é a chamada "peregrinação".
A indumentária dos integrantes das Folias de Reis
é, em geral, mais simples. São trajes comuns,
usados uniformemente pelos membros das Companhias. Destacam-se
os "palhaços", que usam máscaras
que lhes ocultam todo o rosto e chapéus em forma
de cone, enfeitados com fitas e flores. A presença
desses palhaços tem origem em muitas estórias.
Uma delas conta que eles representariam os Reis Magos, que
se disfarçaram na ocasião da visita ao menino
Jesus, para fugirem à perseguição do
Rei Herodes. Cânticos em louvor a Deus, a Jesus e
aos Santos Reis são entoados ao som de violas, violão,
cavaquinho, pandeiros, entre outros. Os participantes são
chamados foliões e o grupo recebe as seguintes denominações:
Folia de Reis, Folia de Santos Reis, Companhia de Reis,
Companhia de Santos Reis, Terno de Santos Reis, Terno de
Reis ou Tripulação de Reis. Quase todos têm
denominação específica, como Companhia
de Reis "Magos do Oriente". Alguns preferem ser
chamados "Companhias de Reis", por considerarem
depreciativa a palavra "folia".
CONGADA
Congada, Congado ou Congo é folguedo de formação
afro-brasileira. E uma reminiscência da antiga coroação
dos "Reis-do-Con-go", praticada pelos escravos
no Brasil, e incentivada pelas autoridades para tranqüilizar
um pouco as senzalas, promovendo a coroação
de seus reis negros. E uma reminiscência dessa prática
na região Sudeste, onde o folguedo é mais
difundido. Antigamente, as Congadas também rememoravam
as lutas entre mouros e cristãos, nas denominadas
"embaixadas", que hoje são raras. Algumas
ainda exibem coreografias, representando manobras guerreiras,
com o uso de espadas, mas atualmente prevalece o aspecto
religioso, a louvação aos santos católicos,
especialmente Nossa Senhora do Rosário e São
Benedito. Os grupos são chamados "Ternos de
Congada", "Ternos de Congo", "Guardas
de Congos", entre outros. Há uma grande diversidade
entre os grupos com relação à indumentária
utilizada, aos cantos e às danças. Alguns
até se vestem de marinheiros. Muitos grupos usam
chapéus com fitas coloridas, geralmente ornados com
espelhos, que devolveriam eventual mau-olhado recebido.
Em cada localidade em que é cultivada, a dança
apresenta-se com características diversas. Há
informações de sua existência desde
1711.
MOÇAMBIQUE
"Dança popular em São Paulo, Minas Gerais
e Brasil Central", informa Câmara Cascudo ("Dicionário
do folclore Brasileiro"), que prossegue citando Renato
Almeida: "... bailado conhecido em São Paulo,
Minas e no Brasil central, em geral, é o dos Moçambiques,
que dizem ter sido levado pelos escravos negros que foram
trabalhar na mineração do ouro". Tornou-se
também dança de intenção religiosa,
que louva santos católicos.
A exemplo das Congadas, não há uniformidade
entre os grupos com relação ao figurino, aos
cantos, às danças e também aos personagens.
Destaca-se a presença "dos reis, da bandeira
e de diversos outros personagens que variam conforme o grupo
e a localidade em que se exibem, como mestre, contramestre,
caixeiro, capitão, general, tocadores e dançadores",
informa Gustavo Cortes (op. cit., pág. 146). Muitos
grupos usam lenço na cabeça, trazendo atados
em seus tornozelos latas com chumbos que produzem um alto
barulho quando dançam os moçambiquei-ros.
De um local para outro, características diferentes
se apresentam nessa manifestação.
TICUMBI
Espécie de versão espírito-san-tense
da Congada, este folguedo é encontrado no Norte do
Espírito Santo, especialmente nos municípios
de Conceição da Barra e de São Mateus.
Os protagonistas são o Rei-de-Congo e o Rei- de-Bamba,
que se distinguem pelo traje: usam roupas brancas, coroas,
feitas de papelão ricamente ornamentadas com flores,
papel dourado, fitas e espelhos, e longas capas de cetim
lamê cintilante. Portam espadas nas mãos, ou
atadas à cintura. Os guerreiros e vassalos de ambas
as nações também se vestem de branco;
usam japona ou batas longas ornadas de fitas coloridas.
As majestades, com suas respectivas cortes, travam uma "guerra"
pela prerrogativa de comandar a realização
da Festa de São Benedito. Uma batalha verbal se inicia
entre os representantes das nações. Sucede-se
outra, em que se usam espadas na representação,
até que o Rei-de-Bamba é derrotado pelo Rei-de-Congo,
e, juntamente com seus liderados, batizados por este. O
folguedo se encerra, então, com a música e
a dança do Ticumbi, em que se reproduzem alguns passos
da batalha com as espadas.
DANÇA-DE-SANTA-CRUZ
Ponto alto da Festa de Santa Cruz, realizada na primeira
semana de maio em Carapicuíba/SP, é uma dança
realizada após as louvações e reverências
à cruz, possivelmente de origem indígena,
cujos movimentos basicamente se executam em roda, girando
numa e noutra direção. O dia 3 de maio foi
escolhido para celebrar a descoberta da verdadeira Cruz
de Cristo, em Jerusalém, pela mãe do imperador
Constantino, a imperatriz Helena, que iniciou as comemorações
em 326 d.C.
CAIAPOS
E um folguedo popular cujos integrantes se fantasiam de
índios, trajando roupa de capim-bar-ba-de-bode e
muitos adereços, inclusive penas de aves, como galinha
ou peru. Pintam o rosto com uma tinta azul. As evoluções,
sob o comando da figura do "pajé", são
executadas ao som de cuícas, tambores, pandeiros,
violões, entre outros. O grupo não canta.
Alguns grupos apresentam um enredo, sem cantoria, em que
se encena o rapto de uma bugrinha (alusão ao rapto
de uma bugrinha por portugueses, no período da colonização,
segundo a tradição oral indígena).
Há duas bugrinhas, uma de roupa azul (batizada),
outra de vermelho (pagã). Os "Cai-após",
então, em algazarra, representam a busca da bugrinha
e do raptor. Grupos de Caiapós são encontrados
em São Paulo e em Minas Gerais.
BATUQUE
Batuque é um vocábulo com que os portugueses
designavam genericamente as danças de origem africana,
acompanhadas de cantorias e de instrumentos de percussão.
O Batuque se realiza em uma grande roda, em cujo centro
os dançarinos improvisam passos, individualmente
ou em dupla. O remelexo dos quadris é fortíssimo.
Ao som de atabaques e tambores, os participantes batem pés
e palmas e estalam os dedos rapidamente, como castanholas.
O passo mais marcante do Batuque é a "umbigada",
movimento também presente em outras danças,
no qual os dançadores _ barriga pra frente, peito
pra trás _ batem ventre contra ventre. Realizada
entre homens e mulheres, a umbigada indica o momento de
substituição do dançarino solo ou o
encerramento da apresentação, se se tratar
de um par de dançantes. Muito conhecido em Olímpia
é o Batuque de Piracicaba, que sempre participa do
nosso Festival do Folclore. Há dançadores
de batuque em várias localidades paulistas: Botucatu,
Capivari, Itu, Laranjal, Limeira, Pereiras, Porto Feliz,
Rio Claro, São Pedro, Tatuí e Tietê.
Emilía Biancard, ao tratar do samba-de-roda, informa
que neste "a pessoa entra no meio do círculo
dos participantes e dança solo. O próximo
dançarino é escolhido quando o bailarino central
dele se aproxima e faz um encontrão de barriga com
barriga. Na Bahia, em todo o Estado e durante todo o ano,
o samba-de-roda tem tido uma grande variedade de interpretações
e redenominações. O samba-de-roda chulado
só pode ser tocado com o uso de duas violas, sendo
assim os únicos instrumentos manuais para essa dança.
Nos dias de hoje, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano,
podem-se encontrar guitarras substituindo violas. Neste
caso, as guitarras são tocadas como se fossem violas.
O samba de roda corrido, por outro lado, é o que
se pode chamar de 'dança espontânea', onde
os instrumentos usados podem ser qualquer tipo de material
que produza ritmo para essa dança, incluindo um simples
bater de mãos" (op. cit, pág. 282). Alceu
Maynard Araújo já afirmava "samba é
umbigada" (op. cit., pág. 256).
SAMBA-LENÇO
É uma dança em louvor a São Benedito,
introduzida pelos negros no Estado de São Paulo.
Um único grupo a preserva, em Mauá, cidade
paulista. Branca e vermelha são as cores predominantes
no figurino. Os homens vestem camisas xadrezes, das referidas
cores e calças brancas, chapéus de palha e
lenços no pescoço. As mulheres usam vestidos
longos com babados nas barras, decotes e mangas, acompanhados
de anáguas, nas cores vermelha e branca, às
vezes xadrezes, às vezes não. Usam chapéus
comuns ou bordados (naquelas cores), lenço na cabeça,
anéis, colares, brincos, broches, pulseiras. Membrano-fones
e idiofones marcam o ritmo do samba-lenço, que, enquanto
é dançado, apresenta melodias breves, simples,
repetitivas e cantadas em coro pelos que assistem à
apresentação do grupo. Muito querido pelo
Mestre José Sanfanna, o Samba-lenço de Mauá/SP
se apresenta no Festival do Folclore de Olímpia desde
1966.
CANA-VERDE DE PASSAGEM
E uma das mais difundidas no Estado de São Paulo,
especialmente no meio rural. Formam-se duas filas laterais,
uma de rapazes, outra de moças. Os rapazes ficam
batendo palmas, enquanto as moças se dão as
mãos, formando um "cordão", passando
depois, em ziguezague, sob os "arcos" formados
pelos braços erguidos e mãos dadas dos rapazes,
após o que, cada uma vai parando diante de seu par.
Os pares, então, se enlaçam e dançam,
girando em torno de si próprios. Formam-se duas rodas
concêntricas, uma girando no sentido contrário
ao da outra. Há trocas de pares, bailados soltos,
formação de duas fileiras em cruz, entre outros
movimentos.
JONGO
O Jongo, de proveniência africana, tem algumas semelhanças
com o Batuque e teria surgido em regiões de cultivo
de café. No Estado de Minas Gerais, é denominada
de "caxambu", termo que também designa
um dos instrumentos (um tambor grande) utilizado na dança.
Os participantes revezam-se no meio da roda, fazendo evoluções
marcantes, com grande remelexo. O ritmo, ora é lento,
ora é célere. Há versos improvisados,
que chamam de "pontos", muitos deles, aparentemente,
sem muita unidade e propósito. Não há
trajes específicos nem período próprio
para sua prática. Os jon-gueiros, pelo que constatou
Alceu Maynard Araújo, "gozam de uma auréola
de mágicos e feiticeiros" (op. cit. pág.
221).
BALAINHA
E uma dança paulista, da qual só participam
mulheres, portando arcos ornados de fitas e flores ou envoltos
em papel crepom, a exemplo da variante mineira da dança
de São Gonçalo. O principal momento da coreografia
é aquele em que os arcos são unidos pelas
dançarinas, formando a balainha. E muito apresentada
em festas juninas.
TAMBORIL
Muito bem apresentada pelo GODAP - Grupo Olimpiense de Danas
Parafolclóricas "Cidade Meni-na-Moça",
é, segundo o grupo, "dança dos ex-escravos
em homenagem a São Benedito. E do ciclo de maio,
mês em que se deu a libertação negra
no Brasil. E uma dança graciosa e muito ligeira.
A indumentária é confeccionada de papel crepom
em variadas cores. E dançada em Minas Gerais e em
São Paulo".
CAFE
No século XIX, o café se expandia pelo Brasil,
enquanto se reduzia a capacidade das minas, principalmente
nas searas que futuramente se denominariam região
Sudeste ("civilização do café").
Os movimentos coreográficos dessa dança imitam
os que os lavradores executam ao colher, mexer, sacudir
e amontoar o café. As peneiras, indispensáveis
ao exercício dessas funções, são
também usadas pelos dançarinos na apresentação.
CORDAO-DE-BICHOS DE TATUÍ/SP
E um folguedo muito interessante que foi idealizado pelos
operários de uma fábrica, de famílias
nordestinas que fixaram residência em Tatuí/SP.
Inicialmente, denominou-se "Arca de Noé"
e se apresentava apenas no carnaval, com seus componentes
usando máscaras de aves e outros bichos. Posteriormente,
passando por transformações, a denominação
foi alterada para "Cordão- de-Bi-chos".
São mais de cinqüenta componentes e diversas
figuras: sapos, tartarugas, aranhas, bois, tigres, porcos,
tatus e outras figuras humanas caricaturadas.
DANÇA DO BAMBU
E uma dança de origem indígena, proveniente
da América Central, praticada por ocasião
das chuvas. E popular em São Paulo, especialmente
na cidade paulista de Ibitinga, onde já era dançada
em remotas épocas, nas festas juninas. A Professora
Maria Aparecida de Araújo Manzolli, coordenadora
do GODAP - Grupo Olimpiense de Danças Parafolclóricas
"Cidade Menina-Moça", pesquisou essa dança
na década de 60, estilizou-a e a integrou no rol
das danças apresentadas pelo grupo. Oito bambus de
cerca de quatro metros são estendidos no chão.
Quatro pares de dançarinos, cada um posicionado entre
dois bambus, iniciam a dança. Os dançarinos
se revezam, trocando de pares, movimentando-se entre os
bambus, portando tochas acesas em uma posterior etapa da
dança.
CARNEIRO
Dança proveniente do norte de Minas Gerais, é
inspirada nas festividades natalinas que ali se realizam.
Os movimentos coreográficos, nos quais os dançarinos
homenageiam o Menino Jesus, lembram as marradas dos carneiros.
E uma simulação coreográfica de uma
briga entre esses animais. Segundo o grupo parafolclórico
Sa-randeiros (Belo Horizonte/MG), "o nome Carneiro
parece estar relacionado ao cordeiro de Deus, em alusão
a Jesus Cristo".
CALANGO
E uma dança típica de Minas Gerais, porém,
também é encontrada com alguma similaridade
no norte do Rio de Janeiro. O Calango é um bailado
de movimentos simples, mas que em alguns momentos se mostra
um pouco semelhante à catira, pelo sapateado e palmeado.
As vezes, versejadores repentistas se apresentam em meio
à dança.
DO SUL
CHULA
A chula gaúcha é uma dança masculina,
de desafio. Uma vara de madeira, chamada "lança",
é estendida no chão. Em cada um de seus extremos,
posicionam-se os dançarinos desafiantes. Um deles
começa o desafio, executando complicada série
de sapateados, passando de um a outro lado da lança,
sem tocá-la, recuando e avançando de sua posição
inicial, até que a ela retorne e pare, ao terminar
sua performance. Ato contínuo, o outro desafiante
deve imitar-lhe os passos; se não conseguir, se deslocar
a lança, ou destoar do ritmo da música, é
desclassificado. Se tiver êxito, apresenta nova série
de sapateados, os quais, após concluídos,
devem ser reproduzidos pelo oponente e assim sucessivamente.
Os desafiantes se revezam, enquanto as prendas acompanham
a disputa, incentivando e ovacionando.
MAÇANICO
Proveniente de Santa Catarina e de origem aparentemente
portuguesa, segundo alguns autores, o Maçanico ganhou
notoriedade e cor própria entre os gaúchos,
em especial pela utilização de seus típicos
instrumentos. Um dos versos cantados é muito conhecido:
"Quem não dança o Maçanico, não
arruma namorado". A dança desenvolve-se em meio
a sapateados, sarandeios, giros e movimentos em fila que
evocam as formações dos antigos minuetos do
Velho Continente. O nome dessa dança é corruptela
de "maçarico", ave do sul do Brasil.
TIRANA DO LENÇO
De origem espanhola, essa famosa dança chegou ao
Brasil em fins do século XVIII e por aqui logo se
espalhou, a desdobrar-se em muitas variantes, vindo a adquirir,
no entanto, fortes nuanças locais no Rio Grande do
Sul. A dança retrata as fases de uma apaixonante
história amorosa: paquera, conquista, namoro, percalços
e um belo final feliz. Inicia-se com os recíprocos
cumprimentos dos peões (homens) e das prendas (mulheres).
Eles aproximam-se delas e inclinam levemente a cabeça.
Elas correspondem, flexionando os joelhos. Num primeiro
momento, a saudação é cerimoniosa;
num outro, explicitamente romântica, dando, assim,
início à veemente gestualísti-ca amorosa
que marca a coreografia da Tirana. As figuras se sucedem,
em meio a recuos e aconchegos, representando amor e desavença
entre os pares, que, ora estão juntos, ora se afastam.
Há cenas de sorrisos cativantes e de olhares desafiadores.
A Tirana "foge" do peão, que parte em seu
encalço, ela sarandeando e ele sapateando, até
que ele lança mão de seu lenço e o
agita garbosamente, atraindo-a. Em outra figura, o peão
lhe demonstra indiferença (não sapateia ao
sarandeio da prenda). Ela, então, "saca"
seu lenço e o atrai. O desfecho da dança mostra
uma feliz reconciliação: os pares nos braços
uns dos outros.
ROSEIRA
Muito conhecida no Rio Grande do Sul, a Roseira bem demonstra
a galhardia dos peões gaúchos para com suas
prendas. Os movimentos coreográficos dessa dança,
que evocam o abrir e fechar das pétalas de uma rosa,
são marcados por garbosos floreios dos dançarinos
(sapateados dos peões e graciosos sarandeios das
prendas), feitos de maneira a figurar uma tentativa de se
impressionarem mutuamente. O mais forte momento da Roseira
é chamado "Namoro", no qual, ao som de
gaitas, as prendas param, como que encantadas pelos peões,
que vão lentamente andando em derredor delas, olhando-lhes
nos olhos, num recíproco embeveci-mento. E uma dança
de amantes com perfume de rosas.
TATU
O maior protagonista de fábulas indígenas
contadas na seara gaúcha inspirou o nome dessa dança
cuja característica prevalente é a maior liberdade
de movimentação a seus praticantes, que podem
"florear" em seus sapateados ao sabor de suas
habilidades. Os versos da canção são
chamados "décima" ou "moda de bicho".
Os dançarinos, sapateando, posicionam-se paralelamente
num primeiro momento e as damas ficam sarande-ando; noutro,
de mão dadas, executam alguns passos, até
que se posicionam de maneira a permitir que a prenda gire
em torno de si mesma. A exemplo da "Tirana", o
lenço é de grande relevância no "Tatu",
representando também gestos de namoro entre os dançarinos.
CHIMARRITA
É uma popular dança portuguesa (Açores
e Ilha da Madeira), trazida ao Brasil pelos colonizadores
no século XVIII. A coreografia recebeu fortes influências
locais e foi modificada por aqui. No início, os pares
dançavam-na enlaçados, num misto de valsa
e xote. Hodiernamente, predomina a modalidade em que os
dançarinos bailam soltos, numa e noutra direção,
em fileiras ou em círculo. Nos países platinos,
é denominada chamamé. No sul do Brasil, onde
se fixou, é conhecida por chimarrita. Dizem alguns
que esse nome é variante de uma referência
à evocação de uma personalidade feminina
(Chama-Rita). E também chamada pelos gaúchos
de "limpa banco", pois, quando sua melodia começa,
quase todos se levantam para dançá-la. Do
Rio Grande do Sul, difundiu-se para outros Estados (Santa
Catarina, Paraná e São Paulo).
PEZINHO
O romantismo pueril, ingênuo, a graciosa e infantil
faceirice, são as grandes marcas dessa dança
popular cuja música é quase um outro hino
dos gaúchos "ai bota aqui, ai bota aqui o seu
pezinho ... bem juntinho com o meu", melodia trazida
pelos colonizadores, que, em Santa Catarina e no Rio Grande
do Sul, adquiriu características próprias
dessas localidades ao ser executada ao som da "cordeana",
típica do sul brasileiro. Uma marcação
de pés ocorre na primeira seqüência coreográfica,
em movimentos em que os pés dos cavalheiros e das
damas se aproximam, após a qual os dançarinos
entrecruzam seus respectivos braços direitos, girando
em torno de si próprios. Essa dança é
belissimamente apresentada pelo grupo infantil do GODAP
- Grupo Olimpiense de Danças Parafolclóricas
"Cidade Menina Moça". O Pezinho, aliás,
já ultrapassou as fronteiras pátrias, sendo
já dançado no exterior como dança típica
brasileira.
BALAIO
"O Balaio é brasileiro da gema e procede do
Nordeste", na assertiva de Augusto Meyer em seu "Guia
do Folclore Gaúcho", com o que estão
concordes Barbosa Les-sa e Paixão Cortes, segundo
os quais, nas estrofes de seu canto não falta sequer
um redundante "não quero balaio, não",
"bastante estranho ao linguajar gauchesco" (op.
cit., pág. 113). No entanto, no Rio Grande do Sul,
a dança ganhou aspectos próprios dessa localidade,
sendo muito dançada entre os gaúchos. O nome
tem origem na efêmera aparência de cestos que
as saias usadas pelas dançarinas adquirem quando
estas giram e se abaixam. Dois círculos concêntricos
se formam, um de mulheres, outro de homens, que se movem
em sentidos contrários, nos intervalos que se dão
aos sapateados (dos peões) e aos sarandeios (das
prendas), movimentos estes que predominam na coreografia.
CARANGUEJO
Essa dança já foi popular em todo o Brasil,
sobre a qual se encontram referências desde o século
XIX. Na atualidade, entretanto, verifica-se que se concentrou
na região Sul, na qual é apresentada por vários
autores como dança "grave", "de pares
dependentes", derivada do minueto e de suas variações
platinas, segundo Gustavo Cortes, que acrescenta: "o
caráter maneiroso da dança é acentuado
por cumprimentos entre dançarinos e balances, evolução
originária da quadrilha européia que permite
à prenda demonstrar graciosidade em seus sarandeios,
como são chamados os passos executados por ela. Na
coreografia, cada par, tomado pela mão direita, evolui
passos-de-marcha, de modo a completar uma volta em torno
de si mesmo" (op. cit. pág. 177).
"CUA-FUBA"
É uma dança do Fandango pa¬ranaense, que
representa coreo-graficamente o "coar" do fubá.
Dançada apenas por mulheres, que batem forte no chão
com suas tamancas, tendo nas mãos uma peneira, de
maneira a simbolizar o peneirar do fubá. E dançada
com a música do mesmo nome da dança, "CUÁ-FUBÁ",
do folclore paranaense.
VILÃO DE FITAS
"Dança de salão, que era dançada
aos pares nos antigos salões paranaenses, ganhando
depois o gosto popular. Também era denominada de
'Vilão de Lenço'. Os pares seguram uma fita
ou um lenço de cores diferentes. O folgador segura
numa extremidade do lenço e a folgadeira na outra.
Braços levantados, forma-se assim um túnel
de fitas ou de lenço, as duas filas são formadas
pelos dançarinos alternando um homem, uma mulher.
A indumentária, baseada no ano de 1940, era composta
de saias na altura das panturrilhas com saiotes armados
e blusas de babados com cintos largos para as mulheres;
para os homens, calcas com bainha à italiana, camisas
de mangas longas, lenço no pescoço e faixa
na cintura. São fundamentais as tamancas; sem elas,
não se dança o Fandango", informa a Profª
Sueli Alves de Souza, diretora e coreógrafa do grupo
parafol-clórico "Fogança", o qual
espetacularmente apresenta essa dança e a belíssima
canção que acompanha a coreografia ("...Quero
ver o meu amor, se não eu morro de saudade...").
Todas as manifestações que tivemos oportunidade
de apreciar nesta modesta abordagem do assunto pertencem
ao vasto domínio do nosso folclore, que muito mais
ainda tem a apresentar. Vamos finalizar com a oportuna e
sempre atual assertiva do grande Alceu Maynard Araújo:
"Tarefa difícil ao pesquisador é reunir
as muitas danças brasileiras ainda existentes 'por
esse mundão de Deus' (...) Há um grande número
delas que ficaria de fora de qualquer classificação
que pretendêssemos fazer" (op. cit., pág.
249).