Contar estória
é a mais antiga das artes e chegou a ser profissão.
Quase todas as pessoas gostam de ouvir estórias, porque
é um modo agradável de passar o tempo. Outrora,
as pessoas se reuniam no alpendre, em frente à porta
da sala ou da cozinha ou ao redor do fogão de lenha,
principalmente no inverno, para ouvi-las.
As estórias estão incorporadas à nossa
cultura. No tempo das babás e dos pretos velhos elas
invadiram nossas casas. E continuaram sendo narradas por
nossos familiares e amigos. Hoje os velhos contadores estão
esquecidos, poucos existem. Embora grande parte delas esteja
nos livros, ainda restam muitas a serem recolhidas. Para
contar uma estória é preciso que o narrador
possua muita habilidade, porque o principal nessa arte é
saber despertar emoção, principalmente se
o ouvinte é criança.
Muitas estórias são maravilhosas, fantásticas,
apresentam muita surpresa e fixa a diferença entre
o bem e o mal. Inserimos algumas que versam sobre animais.
Para o mundo infantil é uma “mina de ouro”,
pois servem para deleita-lo, incutir-lhe o amor, a beleza,
desenvolver-lhe a imaginação e o poder de
observação, ampliar-lhe a beleza e o gosto
artístico e estabelecer uma distinção
íntima entre o mundo da realidade e o da fantasia.
Este nosso trabalho consta de doze estórias (contos)
das quais seis de referem a animais, recolhidas em Olímpia.
Mantivemos a linguagem dos narradores. Para ser aplicado
nas escolas, terá que ser adequado o linguajar.
1 – A BRIGA DO LEÃO COM A RAPOSA
“Numa época os animal não tinha uma
gota d´água pra bebê. No verão
secaro até os grande rio. A bicharada tava morreno
de sede por falta de um poco de água. O tatu, cavadô
de buraco, começô a cavá a terra muito
seca e depois de muito trabaiá, encontrô um
fiozinho d´água que não dava quase nada,
mas foi avisá o leão. Afinal de contas ele
é o rei da floresta. O leão quando recebeu
a notícia, marcô uma reunião com os
bicho, pra dá conhecimento da descoberta do tatu.
Mas, quando lá chegaro, ficaro desanimado porque
a água não dava nem pra um bicho, além
de sê muito difíci para quarqué um deles
bebê.
O macaco, por sê inteligente, teve uma grande idéia
de furá um poço bem fundo, assim todos teria
muita água.
A bicharada deu viva de muita safisfação
e comecaro o trabaio. Todos trabaiaro, menos a raposa, que
por sê muito preguiçosa, ficô longe,
observano o trabaio dos companhero.
Quando o poço ficô pronto, a bicharada bebeu
água à vontade, matano a sede de muitos dia.
Mas o macaco, que era vingativo, pediu a palavra e disse:
- Agora, amigos, nós vamo tomá conta do poço
pra que a raposa não venha bebê. Ela não
moveu uma paia nesse trabaio.
Todos concordaro com o macaco, e o leão, pr sê
muito forte, disso pr´os amigo:
- Eu que vô tomá conta do poço! Se a
raposa aparecê por aqui, vô dá fim nela.
A raposa oviu tudo, mas não ficô com medo.
Saiu dali e foi para o meio da floresta. Quando os outro
bicho se retiraro, permaneceno só o leão,
a espertaiona vortô com uma cabaça cheia de
mel. Sentô perto do leão e começô
a tomá um poquinho de mel, levano a cabaça
na boca, muito alegre, dando muita vontade no leão.
- O que é que ocê está bebeno com tanto
gosto?
- É mel, amigo leão. Qué exprementá
um poquinho?
O leão que era muito chegado em mel, não resistiu.
Levô a cabaça de mel na boca, mas poco pôde
saboreá. O furo era muito estreito e não cabia
nem a pontinha da língua dele.
É muito gostoso, falô leão, lambeno
os beiço, mas é muito difici pra bebê.
Sai poco mel.
A raposa, muito esperta, disse pr´o rei leão,
aproveitano sua golodice:
- Deita de costa,amigo, que eu despejo o resto de mel na
sua boca.
Assim ele fez. Enquanto o leão bebia com muito desejo,
a raposa disse:
- Espere aí, que eu vô buscá outra cabaça
cheinha. E saiu correno.
Quando vortô, encontrô o Leão dormino
um sono gostoso. Era isto que ela queria.
Arrumô uns cipó grosso e forte e, com muito
jeito, amarrô as pata do leão. E foi para a
bera do poço bebê água fresca. Bebeu
água com tanto gosto, fazeno um baruio tão
arto, que acordô o leão.
Quando o leão quis levantá sentiu tão
amarrado que sortô um rugido feoi que deixô
a raposa repreta de temor. Ela quis fugi, mas o leão
disse:
- Amiga raposa, a senhora é uma criatura muito bondosa.
Por isso a senhora vai desamarrá as minha pata. Os
otro animal vão dá muita risada quando chegá
aqui. E não fica bem. Eu sô o rei da floresta.
A senhora me sorta e eu dô a minha palavra de rei
que nada vai acontecê. E a senhora pode vim bebê
água à vontade, quanto tivé com sede.
Corta o cipó.
A raposa ficô meio desconfiada, pensô um poco
e falô pra ela mesma: Se eu não sortá
ele, otro bicho sorta e ele pode vinga de mim. Vô
confiá na palavra dele. E desamarro a pata do leão.
Quando o leão se viu livre, deu uma patada tão
bruta na raposa, que matô ela ali mesmo. E ainda devorô
ela interinha.
Viu só! A raposa foi castigada por querê abusá
da força do leão.
Contado por Jesus Francisco de Miranda
2 – A MULHER PARALÍTICA
“Diz que quando Nosso Senhor Jesus Cristo andava
no mundo, ia andano,numa tarde de muito sol, e tava muito
cansado. Não demorô muito tempo, ele oviu o
cantá dos exo de um carro de boi. Levantô os
óio e viu que o carro tava seno puxado por seis boi
amarelo, guiado por um candeeiro muito menino. O carrero
tava sentado na parte traseira do carro, com uma vara de
ferrão no ombro, cochilano de tanto sono. Na mesa
do carro ia dois home, já idoso, jogano baraio.
Nosso Senhor, com os pé sangrano, de tanto andá
a pé, pediu, com muita educação, pr´os
dois jogadô um lugarzinho pra continuá a viagem
mais descansado. E mostrô o seu estado de sofrimento.
Os dois home oiô pr´o pedinte e, veno que tava
esfarrapado, riro dele e nada respondero. Nesse momento,
o carrero acordô com a prosa deles e disse pr´o
pedinte:
- Venha cá, meu senhor, pode viaja sentado aqui
onde tou.
E foi viajano a pé, tocano os boi.
Quando já ia chegano numa cidade próxima,
já era noitinha, o pobrezinho falo pr´o carrero:
- Amigo carrero, eu sei que a sua mulher há muitos
ano, vive numa cama, sem podê andá. Quando
você chegá em casa, vai encontrá ela
andano, muito feliz e preparano a comida pra você.
Quando o carrero se vortô para o peregrino, ele já
havia desaparecido, mas quando chegô em casa encontô
sua esposa, que era paralítica, já fazia dez
anos, do jeitinho que o veio disse: cantano e cuidano da
refeição.”
Contado por Jesus Francisco de Miranda
3 – A RAPOSA E O HOMEM
“Havia uma raposa muito esperta que conhecia o mato
de fio a pavio, e sabia o caminho por onde um lenhador passava
todos os dias. E queria saber se aquele visitante no mato
era bom ou mau. E o que fez, então? Deitou no caminho
e fingiu-se de morta.
- Raios! Coitadinha da raposa!
Fez um buraco raso, colocou ela dentro, não o fechou
com terra e foi embora.
Depois que o homem deu alguns passos, a matreira correu
pelo mato, fez um atalho, passou diante do homem, deitou-se
no caminho e fez-se de morta.
Quando o homem chegou, disse com muita tristeza:
- Eh! Outra raposa morta! Pobrezinha!
Arredou-a do caminho, cobriu-a com algumas folhas e seguiu
adiante.
A raposa correu outra vez pelo mato cerrado, deitou diante
do caminho, e novamente, fingiu-se de morta.
O coitado do homem, indignado, disse:
- Ó, meu Deus! Quem teria matado tanta raposa?
Arredou ela para fora do caminho e continuou andando.
A vagabunda da raposa saiu correndo e foi fingir-se outra
vez de morta no caminho.
O homem, já nervoso, disse:
- Levou a breca! Pegou a raposa pela orelha, sacudiu ela
uma três vezes e jogou com muita força no meio
do mato cerrado, sobre uma moita de arranha-gatos. E o falso
defundo machucou-se tanto que nem pôde, por muitos
dias, sair do local.
Quando a raposa pôde andar, disse:
- Não é que o homem era bom! Mas ninguém
deve abusar das pessoas de fazem o bem”.
Contado por Antonio de Souza.
4 – A RAPOSA LOGRADA
“Era uma vez um patinho desobediente que não
gostava de ficar junto com os irmãos, nadando no
córrego.
Um dia, eles foram nadar e o danadinho deixou os irmãos
e foi pr´o meio do mato caçar alguns insetos.
E foi muito longe.
De repente, ele encontrou uma raposa, muito desesperada,
engasgada com um osso.
O patinho, muito gentil, chegou perto da raposa e disse:
- Como vai senhora Raposa? O que é isso? Está
engasgada com um osso?
- A raposa respondeu com muita dificuldade:
- É isso mesmo, meu amiguinho. Estou engasgada com
osso de peru.
- Quer que eu retire para a senhora?
- Quero sim, meu filho, Faça essa caridade.
A raposa abriu bem a boca e o patinho enfiou sua pata e
retirou aquele enorme osso.
Suspirou aliviada e agradeceu muito o caridoso amigo. Depois
começou a fazer uma perguntas esquisitas:
- Onde é sua casa? Você tem mais irmãos?
Mora muito longe daqui?Passeia todos os dias? A que horas
você dorme? O seu dono é muito bravo?
O patinho começou a desconfiar da raposa esperta.
Por que queria saber tanta coisa? E logo compreendeu a intenção
dela.
Então, carinhosamente, perguntou:
- Senhora Raposa, não acha melhor eu passar uma pena,
com água na sua garganta. Parece que ela está
tão machucada. Assim, a senhora poderá falar
melhor.
A raposa concordou e abriu, novamente, a boca. O patinho,
com jeito de enfermeiro, antes que a raposa percebesse,
colocou o mesmo osso na goela dela e saiu correndo para
longe.”
5 – A SENTENCA DO JUIZ
“Conta que um senhor foi intimado a comparecer no
fórum acusado de ter esbofeteado, num önibus,
uma senhora.
No interrogatório, o juiz perguntou?
- Então! Conta o motivo que levou o senhor a espancar,
no ônibus, a senhora Faustina, durante a viagem.
O réu explicou assim:
- Sabe, doutor juiz, eu tava viajando de ônibus, sentado
sozinho num dos bancos. Na primeira parada entrou esta senhora,
toda saída e veio sentar justamente comigo.
Sentou e abril a carteira. De dentro da carteira tirou uma
bolsinha e tirou de dentro dela dez cruzeiros. Pôs
novamente o dinheiro dentro da bolsinha. Fechou a bolsinha.
Abriu a carteira, guardou dentro dela a bolsinha e fechou
ela novamente.
Nisso, vem o cobrador. A senhora, então, abriu a
carteira e de dentro da carteira tirou a bolsinha. Fechou
a carteira. Abriu a bolsinha e tirou de dentro dela dez
cruzeiros. Fechou a bolsinha. Abriu a carteira, guardou
dentro dela a bolsinha e fechou a carteira. Depois entregou
ao cobrados os dez cruzeiros e recebeu a passagem.
Em seguida, abriu a carteira, tirou a bolsinha e fechou
a carteira. Abriu a bolsinha e guardou a passagem. Fechou
a bolsinha, abriu a carteira, guardou nela a bolsinha e
fechou a carteira.
- Chega! Chega!, falou o juiz. Já falou demais. Você
acaba me deixando louco!
- Foi isto que aconteceu comigo, doutor juiz. Eu me enlouqueci
e dei um tapa nela.
O juiz, então, falou:
- Você está absolvido.”
6 – A VELHA RANZINZA
“No tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo,
num dia ele foi visitar o sertão onde morava uma
velha viúva muito egoísta.
Nosso Senhor estava com São Pedro e os dois ficaro
indignados de conhecer essa pessoa tão ambiciosa.
Quando eles chegaro no terreiro do sítio, a velha
já foi dizendo:
- Minha casa não [e lugar para desocupados ficar.
Vocês pode ir dando o fora daqui.
Nosso Senhor respondeu:
- Nós não vamos dar nenhuma despesa para a
senhora. Só queremos um lugarzinho para pernoitar,
nem que seja no paiol.
Com muita má vontade, a velha consentiu, mas ficou
vigiando os dois estranhos. Pra que eles não desconfiasse
dela, ela pegou uma peneira de bambu e ficou por perto,
agitando ela no vento, limpando feijão, fazendo cair
as cascas.
São Pedro pôs um pouco de fumo no cachimbo
e pediu licença à velha para tirar uma brasa
do fogão, lá na cozinha, pra acende.
A velha, meio desconfiada, disse:
- Pode ir buscar a brasa, mas quando voltar vocês
vão me ajudar a limpar este feijão.
- Quando São Pedro voltou, veio com um tição
de fogo para deixar o cachimbo sempre aceso. Nosso Senhor
deu uma soprada no tição e as faíscas
cairo na peneira. A velha ia xingar, mas percebeu que o
fogo queimou s[o a parte que não prestava, deixando
o feijão limpinho.
Então, a infeliz quis fazer a mesma coisa. Soprou
o tição de fogo e as faíscas queimaro
num instante tudo: as cascas de feijão, o feijão
e também a peneira de bambu.
A velha, muito nervosa, ia xingar os dois homens, mas ficou
muito assustada: Nosso Senhor e São Pedro tinham
desaparecido. Acabou a estória.”
Contado por Antonio Miranda Sobrinho
7 – DONA PIEDADE
“Num dia Nosso Senhor saiu andano a pé com
São Pedro por meio de um mato muito fechado e o tempo
ameaçava uma chuva muito braba. Era noite. Eles avistaro
uma casinha, um rancho. Batero Parma e foro atendido por
uma senhora que se chamava dona piedade. Era velha e vivia
na miséria. Tinha duas ou três cabrita que
criava sorta perto do rancho, mas recebeu os dois com muito
carinho, dano um lugarzinho para eles se abriga da chuva.
E no ranchinho eles posaro.
No outro dia, de manhã, quando foro saíno,
São Pedro falo pra Nosso Senhor:
- Senhor, dá riqueza pra esta mulher que acolheu
nós muito bem, com boa vontade.
Nosso senhor respondeu:
- Pedro, você não sabe das coisa. Se esta mulher
fica rica, ela vai fica muito ruim, muito má. E pra
prova isto, vou fazë com que ela fique rica.
Foro embora. A velha, de uma hora pra outra, foi fazeno
negócios, comprano muitas cabeça de gado,
emprestano dinheiro a juro. Fico muito rica dentro de poços
mês.
Nosso senhor chamo São Pedro e foi faze uma visita
pra ela. Foro como dois mendigo e pediro um poso.
Ela estava numa casa muito bonita, sentada na varanda, numa
cadeira de descanso e falo com muita estupidez:
- Desocupados! Dois homens ainda forte e pedino esmola.
Vão arruma serviço
E, com muita raiva, chamo uns cachorro perigoso que tinha
no quintal para atiçá nos dois pobre.
- Não lhe disse?
São Pedro, arrependido respondeu:
- Perdão, senhor!
E, antes que os cachorro chegasse, os dois foro embora.
Num instante eles desaparecero.
Dona Piedade, em poco tempo, fico cega e vivia de esmola
num povoado próximo de onde morava.”
Contado por Raquel Miranda.
8 – O CASAL DE 7 ANOS
“Há muitos anos atrás, havia um casal
que vivia brigando. A mulher andava apavorada, não
dava conta das obrigações. O marido chegava
do serviço, não encontrava a janta pronta
e aí começava as brigas.
Um dia, o marido resolveu contar para os amigos que ele
já estava desanimado da vida. Seus amigos lhe diziam:
- Isso é o diabo que anda atentando. Não briga
mais com sua mulher. Vai a tal lugar. Lá existe uma
figueira muito grande. Você sobe nela e fica esperando
os capetas chegarem. Eles vêm contando as vantagens
que fazem.
Assim, ele fez. Chegou em casa e disse à mulher:
- Hoje eu vou sair à noite.
A mulher achou estranha a conversa do marido, mas ficou
quieta. Não lhe disse nada.
Ele encontrou a tal figueira, subiu nela e ficou esperando
a capetada chegar. Não demorou nada, eles chegaram.
Um deles chegou rindo demais e contou ao outro:
- Olha rapaz, eu escondi o colar da fulana. O marido dela
deu-lhe uma surra, fez uma pampeiro danado, e quase que
os dois se separaram por causa disso.
Quando terminou a reunião dos capetas, o homem foi
embora.
No dia seguinte, o homem chegou da roça e a comida
não estava pronta. A mulher, rapidamente, espetou
a carne e pôs para assar, mas a carne caía
na cinza. Era o diabo que derrubava. Ela lavava a carne,
punha novamente no espeto para assar, mas a carne tornava
a cair na cinza.
O marido ficou louco de nervoso. Tomou o espeto, deu espetada
por todos os cantos da casa. Furou todas as paredes e depois
foi lá para a figueira e subiu nela. Quando os capetas
chegaram, um estava mancando, todo descadeirado.
Os outros perguntaram pra ele:
- O que foi que aconteceu com você, que está
todo machucado?
Ele respondeu:
- O rapaz, hoje deu uma loucura no marido da fulana. Em
vez de brigar com ela, ele virou contra mim e me furou o
corpo todo com um espeto.
Aí, o homem ficou certo de que era mesmo o diabo
que estava tentando a vida deles. Desse dia em diante nunca
mais brigou com a esposa e viveram felizes pr`o resto da
vida”.
Contado por Antônia do Carmo Batista de Carvalho
9 – O CASAMENTO DA FRANGA
Disse o galo para a galinha:
- Vamos casar nossa filha?
Disse o pombo enfurecido:
- Estô pronto pra ser o marido.
Disse o rato em seu buraquinho:
- Estô pronto pra ser o padrinho.
Disse a moça bailarina:
- Estô pronta pra ser a madrinha.
A aranha em seu aranhal:
- Estô pronta pra dar o enxoval.
A cabrita em seu cabrital:
- Estô pronta pra dar o jantar.
O burro em seu paiolão:
- Estô pronto pra tocar violão.
O porco em seu mangueirão:
- Estô pronto pra dança no salão.
Disse o gato valentão:
- Estô pronto para ser o escrivão.
O papagaio na grade:
- Estô pronto para ser o padre.
O lagartinho matreiro:
- Estô pronto para ser o porteiro.
E assim, o casal Franga e Pombo tivero um casamento de arrombo”.
Contado por Rosa Pereira dos Santos
10 – O GATO E A RAPOSA
“Diz que um dia o gato, já muito cansado de
sabe se defendê só trepando em muro, casa e
árvore, saiu procurando a raposa pra vê se
ela dava novas lição pra ele.
Ando, ando, pelo mato até encontrá a raposa,
que era um animal muito admirado pela esperteza e inteligência.
Foi chegando perto dela e com muita educação,
disse:
- Bom dia, dona Raposa! Como anda passano seus dias aqui
na mata?
A raposa achô o gato muito atrevido em cumprimentá
ela, porque eles não era conhecido e disse:
- Quem é você? Como se atreve a conversá
com quem ainda não tem amizade? É melhor você
sabê que cada um deve procurá amizade com outro
da sua iguala.
O gato, com muito jeitinho, disse:
- Mas quem não conhece a senhora? A senhora é
conhecida no mundo inteiro por ser muito inteligente. É
também muito admirada pelo seu jeito de andá
e pelo lindo rabo que possui.
A raposa, muito vaidosa, gostô dos elogio do gato
e começô um papinho co’ele.
- Isto é verdade! Todo mundo conhece isso. Sabe da
minha esperteza. Sô conhecida como o mais esperto
dos animal. E você, o que sabe faze?
O gato, quereno aprendêe alguma coisa diferente, respondeu,
cheio de sofrimento:
- Eu, muito poco sei para me defendê. Se sô
atacado por um cachorro, o meu maió recurso é
subi numa árvore, mas depois tenho dificuldade pra
desce.
- Mas, é só isso que você sabe? Que
pena! Pois eu conheço muitas esperteza e ainda não
usei todas elas.
Continuaro andano e nisto oviro os latido de cachorros caçadô,
que tava muito perto.
O gato não esperô por mais nada. Deu um salto
e subiu na árvore mais próxima, escondendo
entre os galhos. E gritô:
- Corage, amiga raposa! Aplique logo uma das esperteza!
A pobrezinha da raposa nem oviu o que o gato lê disse.
Pôs a corre feito uma doida e os cachorro atrás
dela. E o fim foi triste. Morreu estraçaiada e serviu
de comida pr’os cachorro.
Depois de passado o perigo, com um poco de dificuldade,
o gato desceu da árvore e suspirô:
- Pobre raposa! Sabia tantos truque e não aplicô
nenhum deles. Eu, que me julgava muito incapaz, por conhecê
um sô, me salvei. Vô voltá pra minha
casa e não quero sabê de novas descoberta.
Deus fez tudo certinho. E não adianta querê
modificá as coisa. É só isso.”
Contada por Raquel Miranda
11 – O LEÃO E OUTROS BICHOS
“Dizem que no tempo que os animais falavam, o leão
chamou o tigre, o urso e o lobo e combinou com eles o seguinte:
- A partir de hoje, os vamos ser sócios. Vamos caçar
juntos. Quando um cão conseguir, sozinho, matar uma
caça, qualquer um de nós corre para auxiliar.
Assim, nunca faltará comida para nós. E também
não haverá mais briga. Eu, como sempre fui
o rei da floresta, todos os dias faço a divisão
dos bichos que matarmos.
O tigre, o urso e o lobo concordaram, dizendo:
- Está bem, nosso rei.
No outro dia, o leão convidou os três sócios
para uma grande caçada.
Começaram a caçar de madrugada e antes do
meio-dia já tinham conseguido mais de cem coelhos.
Todos eles foram levados para a casa do leão. E o
leão, como rei cheio de sabedoria, começou
a fazer a repartição.
- Um para o tigre. Um para o urso. Um para o lobo. Dois
para mim!
- Um para o tigre. Um para o urso. Um para o lobo. Dois
para mim!
Os três sócios não tiveram a mínima
coragem de protestar. Aceitaram a divisão quietinhos.
Naquela hora, ouviram uma voz que vinha do outro lado de
um grande rio:
- Majestade, essa conta está errada!
Era uma onça que gritava.
O leão ficou furioso, mas como não podia atingir,
com as garras, a grande atrevida, dava fortes urros e gritava:
- Venha cá, sua vagabunda, provar que a minha conta
está errada.
- Venha cá, vossa majestade. Atravesse este largo
rio. Não vejo vantagem nenhuma ir até ai.
Mas que a conta está errada está. Os seus
sócios sabem melhor do que eu que o rei não
está sendo honesto.
O leão ficou muito nervoso e pergunto pr’os
três amigos, com muita raiva:
- A conta está certa ou errada?
Todos responderam, com muito medo:
- É claro que está certa! A onça está
longe e não sabe como está sendo feita a divisão.
Qualquer um de nós se estivesse do outro lado também
pensaria que a conta está errada.
- Ainda bem! Exclamou o leão.
E acabou a estória.”
12 – O MACACO E A ESPIGA DE MILHO –
variante
“Tinha um macaco muito danado. Um dia ele robô
uma espiga de milho num roçado e foi come em cima
de um esteio oco. Comeu todo o milho, mas enquanto ele comia,
caiu um grão dentro do esteio. Pelejo demais pra
tira o grão, mas não conseguiu. Fico desesperado.
Nisso dia passando um mosquito. O macaco falô:
- Mosquito, vem tira o grão que caiu no esteio, o
grão da espiga de milho, da espiga que robei no roçado.
O mosquito respondeu:
- Quem pode te ajudar é a aranha, que é mais
poderosa que eu.
O macaco procurô a aranha:
- Aranha, vem tirá grão que caiu no esteio,
o grão da espiga de milho, da espiga que eu robei
no roçado e que o mosquito não pode tirá.
A aranha falô:
- Quem pode te ajudá é a barata, que é
mais poderosa que eu.
- Barata, vem tira o grão que caiu no esteio, o grão
da espiga de milho, da espiga que eu robei no roçado
e que o mosquito e a aranha não pudero tira.
A barata respondeu:
- Quem pode te ajudá é o rato, que é
mais poderoso que eu.
- Rato, vem tirá o grão que caiu no esteio,
o grão da espiga de milho, da espiga que eu robei
no roçado,e que o mosquito, a aranha e a barata não
pudero tirá.
O rato falô:
- Quem pode te ajuda é o gato que é mais poderoso
que eu.
O macaco encontrô o gato:
- Gato, vem tirá o grão que caiu no esteio,
o grão da espiga de milho, da espiga que eu robei
no roçado,e que o mosquito, a aranha , a barata e
o rato não pudero tirá.
O gato falô:
- Quem pode te ajuda é o cachorro que é mais
poderoso que eu.
O macaco viu o cachorro:
- Cachorro, vem tirá o grão que caiu no esteio,
o grão da espiga de milho, da espiga que eu robei
no roçado,e que o mosquito, a aranha , a barata,
o rato e o gato não pudero tirá.
O cachorro respondeu:
- Quem pode te ajudá é o lobo, que é
mais poderoso que eu.
O macaco viu o lobo:
- Lobo, vem tirá o grão que caiu no esteio,
o grão da espiga de milho, da espiga que eu robei
no roçado,e que o mosquito, a aranha , a barata,
o rato, o gato e o cachorro não pudero tirá.
O lobo respondeu:
- Quem pode te ajudá é a onça, que
é mais poderosa que eu.
O macaco viu a onça:
- Onça, vem tirá o grão que caiu no
esteio, o grão da espiga de milho, da espiga que
eu robei no roçado,e que o mosquito, a aranha , a
barata, o rato, o gato, o cachorro e o lobo não pudero
tirá.
A onça respondeu:
- Quem pode te ajudá é o home, que é
o mais poderoso de todos os animais.
O macaco viu o home:
- Home, vem tirá o grão que caiu no esteio,
o grão da espiga de milho, da espiga que eu robei
no roçado,e que o mosquito, a aranha , a barata,
o rato, o gato, o cachorro, o lobo e a onça não
pudero tirá.
O home respondeu:
- Sim, eu vô, porque eu sô o mais poderoso dos
animais.
- Pego o machado, cortô o esteio no meio, e o macaco
comeu o grão de milho”.
Contado por Rosa Pereira dos Santos